Estou escrevendo um longo comentário sobre esse vídeo para a Cabana PdH. Aproveito para compartilhar aqui também.
É excelente, especialmente no trecho entre 4 e 9 minutos.
(via @ricardolombardi)
Comente...Estou escrevendo um longo comentário sobre esse vídeo para a Cabana PdH. Aproveito para compartilhar aqui também.
É excelente, especialmente no trecho entre 4 e 9 minutos.
(via @ricardolombardi)
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“É importante ressaltar o quanto a determinação clara de objetivos aponta para a melhoria dos procedimentos normalmente adotados. Gostaria de enfatizar que a adoção de políticas descentralizadoras assume importantes posições no estabelecimento do processo de comunicação como um todo.”
“É importante ressaltar”? “Vale lembrar”? Como alguém ainda consegue escrever assim? O texto acima foi gerado automaticamente aqui, mas ele não é muito diferente do que é produzido por muitos acadêmicos (alunos e professores) no Brasil.
Parece que esse pessoal nunca leu um bom cientista como Francisco Varela ou um bom filósofo como Espinosa ou Marilena Chauí. Escrever em terceira pessoa sem fazer afirmações decisivas é ofício de jornalista estagiário do IG (sem ofensas, ok?). Hoje até cientistas flertam com a primeira pessoa e não tem medo de soltar afirmações bem fundadas, em vez de um vago e nada conclusivo “É importante ressaltar”. Veja textos do Rhodney Brooks do MIT, por exemplo.
Os grandes escrevem simples. Os gênios, os eruditos, os mestres, todos usam imagens, metáforas, fazem relações claras e sabem se comunicar e tocar os outros, muitas vezes se valendo de poesia. Portanto, escreva simples sempre e abuse de afirmações destemidas, do começo ao fim, não importa sua condição intelectual. Só assim um diálogo se constrói: alguém afirma algo com paixão, outro discorda e ambos ampliam a visão. Se o primeiro tivesse usado “É válido salientar”, nenhum diálogo teria acontecido.
Quando falo em “afirmações destemidas”, não me refiro a certezas sólidas, mas a um discurso que efetivamente se impõe e escolhe uma posição, mesmo que seja uma não-posição, mesmo que seja a dúvida total ou a crítica da necessidade de se tomar uma posição. O importante é falar, em alto e bom som. Se for um sussurro, que seja nítido, for God’s sake!
3 comentários... Comente!Texto produzido em Agosto/2004 para a disciplina “Sociologia da Educação”, ministrada pela Prof. Dra. Flávia Schilling, no curso de Pedagogia da USP.
A proposta sugerida para este trabalho foi a de escolher uma das cidades da obra As Cidades Invisíveis, de Italo Calvino, e imaginar como seria o processo de educação nesta cidade, sob a perspectiva da Sociologia. Ora, uma obra-prima como esta nos possibilita um total descentramento, uma desidentificação radical de nossos padrões e modos de ser, e nos abre para uma perspectiva mais abrangente do que seria a Educação. A definição de educação como a relação entre ensino/aprendizado não se aplica, por exemplo, a uma cidade hipotética onde o objetivo seria desaprender, onde todos nasceriam sabendo muitas coisas. Tanto o meio acadêmico quanto o senso comum são vítimas desta visão limitada de Educação, de modo que é importante lembrarmos do fato de que nossa visão de Educação implica em uma visão de mundo e, principalmente, implica na maneira como (co)construímos o mundo – os limites de nossa concepção de educação são os limites dos mundos que podemos criar.
Considerando tais reflexões, conclui que se fosse escolhida apenas uma cidade, minha imaginação criaria um mundo não tão distante do atual, e o exercício do descentramento não ocorreria. Optei, portanto, por um percurso que me levasse de cidade a cidade, em um esforço de desidentificação para vislumbrar uma Educação que abarcasse tais territórios.
Originalmente o título era “Marco Polo como Sociólogo”, sendo que minha intenção seria desdobrar a obra de Calvino em algumas paisagens sociológicas que desvelariam novos horizontes em Educação. Com “Marco Polo como Educador” não faço exatamente o contrário, mas em vez de derivar a Educação da Sociologia de forma rigorosa em uma longa cadeia argumentativa, deixo-as surgirem juntas num movimento poético único que emana da intersecção de minha mente com a obra de Calvino.
Na primeira parte, é delineada uma visão de sociologia para abrir espaço a uma concepção de cidade como uma miríade de realidades consensuais (mundos compartilhados), no sentido coletivo; e como uma das infinitas realidades costurada em meio a multidões de seres, no sentido particular, individual; formando cidades dentro de cidades dentro de cidades, mundos dentro de mundos dentro de mundos… Na segunda parte, percorro as cidades descrevendo minhas próprias interpretações. Na última parte, esboço uma Educação que contemple todas estas cidades, esclarecendo por que Marco Polo seria um excelente educador…
“De uma cidade não aproveitamos as suas sete ou setenta e sete maravilhas, mas as respostas que dá as nossas perguntas.” (Calvino, p. 44)
Com Calvino [foto ao lado], podemos trabalhar com a metáfora do sujeito como pergunta incessante e do objeto como resposta construtora de realidades. Os objetos que surgem à percepção são as respostas que o real fornece às nossas indagações. Como diria Merleau-Ponty, precursor da virada cognitiva, as coisas não se apresentam a nós, mas somos nós, antes, que nos apresentamos às coisas. O real é uma vasta gama de espectros fractais que se reconfiguram à medida que nos colocamos diante dos fenômenos.
Porém, isto não significa um Idealismo filosófico, mas apenas a transcendência pós-moderna do Realismo, que considerava a realidade como pré-definida e independente do sujeito. Esta estruturação não-dual da relação entre sujeito e objeto se reflete em uma Sociologia menos ousada do que as primeiras teorias sobre a sociedade, já que hoje sabemos da impossibilidade de uma teoria social completa e todo-abrangente:
“— Quando conhecer todos os emblemas [cidades] — perguntou a Marco —, conseguirei possuir o meu império, finalmente? E o veneziano: — Não creio: nesse dia, Vossa Alteza será um emblema entre os emblemas.” (Calvino, p. 26)
Tal impossibilidade não é efeito da complexidade do objeto sociológico, pois isto seria ainda mais uma interpretação realista, mas de nossa posição imersa ao mundo, de nossa presença encarnada no mundo, do fato de sermos mais um emblema, mais um sujeito entre sujeitos, mais uma perspectiva entre perspectivas.
O sociólogo com suas teorias faz perguntas ao mundo e vê realidades com resposta. As respostas surgem como mundos aparentemente exteriores, sendo que suas perguntas ajudam a (co)construir o próprio mundo que ele descreve. Sua postura não é passiva, de pura observação distanciada, mas ativa, modelando enquanto vê, formatando enquanto relata, objetivando ao subjetivar. Além disso, os relatos sociológicos que descrevem o olhar do sociólogo invadem os olhos de outras pessoas e elas são levadas às mesmas perguntas sobre a realidade e, por conseqüência, a mundos similares. É assim que, ao descrever um mundo, o sociólogo acaba por construi-lo.
Mundos sobre mundos, entrelaçamento entre indivíduo e sociedade, entre singular e coletividades (sempre “coletividades”, nunca “coletividade”), a cidade é este mundo inexistente que contém e acolhe todos os mundos produzidos em seu seio.
O paradoxo da constituição de qualquer sociedade é bem ilustrado por Calvino:
Marco Polo descreve uma ponte, pedra por pedra. — Mas qual é a pedra que sustenta a ponte?, pergunta Kublai Khan. — A ponte não é sustentada por esta ou aquela pedra, responde Marco, mas pela curva do arco que estas formam. Kublai Khan permanece em silêncio, refletindo. Depois acrescenta: — Por que falar das pedras? Só o arco me interessa. Polo responde: — Sem pedras o arco não existe. (Calvino, p. 79)
A cidade não é construída por nenhum dos sujeitos, nem por a soma deles, mas ao mesmo tempo não construída por nada que não seja estes mesmos sujeitos. A sociedade não é a soma de pessoas, nem mesmo algo além das pessoas. Imanência pura, a sociedade (e a cidade) é o solo intersubjetivo (cultura, língua, valores, hábitos) e também os artefatos e construções interobjetivas (prédios, indústrias, máquinas, materiais) que produzem e são produzidas pelos sujeitos. Este círculo recursivo não contém início: produzimos aquilo que nos produz, somos subjetivados por aquilo que objetivamos.
É dentro desta sociologia dos mundos que vamos agora explorar as cidades de Calvino, que são cidades que povoamos a cada dia, não apenas em nossa imaginação, mas como realidades concretas que ainda não acessamos por não compartilharmos com força suficiente…
“Jamais se deve confundir uma cidade com o discurso que a descreve.” (Calvino, p. 59)
Antes de adentrar o universo de Calvino, vamos analisar brevemente a seguinte afirmação de Foucault: “A ficção [arte] consiste não em fazer ver o invisível, mas em fazer ver até que ponto é invisível a invisibilidade do visível”.
À luz da exposição anterior, podemos perceber que Foucault descarta a postura realista (“não em fazer ver o invisível”), como se houvesse uma parte do real pré-definida e oculta, e coloca o desafio da arte no esforço em mostrar o quanto tomamos a realidade como algo evidente e natural, o quanto cremos em um mundo sólido fixo diante de nós. Daí o aparente absurdo da frase: “até que ponto é invisível a invisibilidade”. Até que ponto não percebemos o caráter onírico, espectral e caleidoscópio da realidade, ou, pelo outro lado: até que ponto estamos cegos para o caráter aberto e não-definido do mundo, até que ponto abdicamos de nossa liberdade criativa. Foucault não só afirma que o real é invisível (“invisibilidade do visível”), como qualquer pensador pós-kantiano, mas que tal fato nos é desconhecido. O papel da arte seria, assim, apontar para esta nossa cegueira, iluminá-la e retirar a evidência de nossas percepções usuais. Entretanto, esse movimento de forma alguma é negativo, destruidor de qualquer possibilidade de visão, mas positivo, pois nos impele ao vórtice criador de realidades e nos confirma a possibilidade de criar mundos diferentes. Apontando para a insubstancialidade do real, uma obra de arte modela o mundo de forma inédita e nos convida a modelá-lo também.
Eis a seguir mundos não imaginários, não fantásticos, mas mundos que já existem e nos povoam a todo momento…
Tamara é, por excelência, a cidade dos símbolos. Cada coisa significa e aponta para outra coisa, que por sua vez aponta para outra coisa, num ciclo em que não há objetos em lugar algum, apenas simulacros, apenas simulações de realidade. “A tira bordada na testa significa elegância, a liteira dourada, poder” (p. 18). Tamara é, na verdade, o discurso sobre Tamara, uma ideologia toda encadeada que se propõe como realidade: “enquanto você acredita estar visitando Tamara, não faz nada além de registrar os nomes com os quais ela define a si própria”.
Tamara é o nosso mundo quando o vemos pelos olhos de uma ideologia. Por outro lado, não será verdade que estamos sempre em Tamara, mesmo quando nos libertamos de uma ideologia e criamos nós mesmos o sentido da existência?
A cidade mais plástica da obra de Calvino, Zoé tem em qualquer de seus pontos a potência de ser qualquer lugar: “em todos os pontos da cidade, alternadamente, pode-se dormir, fabricar ferramentas, cozinhar, acumular moedas de ouro, despir-se” (p. 34). Ela é, por assim dizer, a cidade-mãe, a cidade que dá origem a todas as cidades – a cidade virtual que se atualiza incessantemente em infinitas cidades.
Poderíamos dizer que quanto mais uma determinada cidade se aproxima da plasticidade de Zoé, mais rica e virtuosa ela se torna, mais possibilidades abre a seus sujeitos para suas construções intersubjetivas (cultura, arte, pensamento) e interobjetivas (casas, edifícios, salas, objetos, produtos). Pelo interior da cidade, poderíamos dizer que quanto mais os sujeitos se tornam “cidadãos de Zoé”, mais eles se transformam em seres virtuosos, expandindo suas identidades e suas potências de ser, saber e conviver.
Zirma é o que nossa cidade se transforma após assistirmos a um noticiário na televisão. Uma cena singular, de um evento único, é explicitada, repetida e reencenada até que nossa cidade fique repleta de cenas assim. E não apenas em nossa imaginação: a repetição é, sobretudo, ontológica. A televisão cria realidades na medida em que reforça alguns padrões de comportamento e ignora outros. A televisão “repete os símbolos para que a cidade comece a existir” (p. 23).
Em Olívia, Marco Polo nos ensina muito sobre a qualidade espectral das cidades e sobre nosso poder e liberdade de atuação. Primeiro ele nos diz que “jamais de deve confundir uma cidade com o discurso que a descreve” (Calvino, p. 59). Isso fica claro com o que já exploramos neste trabalho, pois a cidade, no sentido amplo, é a condição de possibilidade dos discursos, visões e perspectivas, e ao mesmo tempo, no sentido restrito, é ela mesma estes discursos, visões e perspectivas. Portanto, Calvino parece se referir ao sentido amplo de cidade. Porém, logo em seguida, conclui: “A mentira não está no discurso, mas nas coisas” (Calvino, p. 59). Kant afirmou que a coisa-em-si não pode ser acessada, mas os pensadores pós-modernos deram um passo além: a coisa-em-si não existe. As coisas, nelas mesmas, são “mentiras”, ou seja, não significam nada, não são discurso algum. Somos nós que fazemos delas “verdades”, objetos significantes, realidades vivenciadas, por meio de nossos questionamentos, por meio de nosso olhar interrogativo. A falta de fundamento último do real é ela mesma o fundamento de nossa liberdade, de nossa ação criativa no mundo. A cidade não está definida, não está fechada em lugar algum, é uma “mentira” nela mesma: cabe a nós defini-la em mil verdades e realidades.
“Para não decepcionar os habitante, é necessário que o viajante louve a cidade dos cartões-postais e prefira-a à atual” (Calvino, p. 30). Maurília é a cidade do passado. Seu presente tem como único papel ser uma janela ao passado e referência para comparação com a outra cidade nostálgica. Por ser cega para o seu próprio presente, “algumas vezes cidades diferentes sucedem-se no mesmo solo e com o mesmo nome, nascem e morrem sem se conhecer, incomunicáveis entre si”. Maurília é vítima de um autismo coletivo e é aquilo que qualquer cidade se torna quando sua referência ontológica é exterior, heterônoma, quando o poder é projetado para longe, seja no passado, no futuro, ou em algum outro fantasma.
Ousaríamos afirmar que quanto mais uma cidade se esforça por explicitar seu passado por imagens, objetos, fotos, objetos (os cartões-postais de Marília), menos este passado está incorporado neste presente, menos ela se desenvolveu, menos ela aprendeu com seu passado.
Zaíra é o contrário de Maurília. Se em uma o presente é vazio e fantasmagórico, sempre apontando para um passado que não mais existe, a outra faz o passado viver incorporado no presente, que é cada vez denso de experiências e possibilidades vivenciadas. O passado não está em iconografias, mas imerso e constituinte de cada fato presente.
Zaíra e Maurília são os dois extremos para os quais qualquer cidade pode tender em sua relação com o passado.
Anastácia é a sociedade de consumo. É o capitalismo imagético e imediatista. Há propagandas, outdoors, luzes, cartazes espalhados em todos os lugares e todos eles provocam um desejo e uma possibilidade de satisfação imediata. “Nenhum desejo é desperdiçado” (Calvino, p. 16) e muitas vezes o consumo é apenas de imagens, sonhos e simulacros. A propaganda induz um desejo e você já se satisfaz apenas por ver a cena do desejo sendo saciado.
Despina exemplifica a visão de cidade que vem sendo defendida neste trabalho. “A cidade se apresenta de forma diferente para quem chega por terra ou por mar” (p. 22), ou poderíamos dizer que a cidade se apresenta diferente para cada sujeito, para cada investida de poder, para cada postura.
Marco Polo nos conta que “cada cidade recebe a forma do deserto a que se opõe”, mas não seria verdade afirmar que cada cidade recebe a forma do sujeito a que se opõe? A diversidade de subjetividades cria uma miríade de objetividades – o aspecto positivo, ativo dessa não-dualidade, a liberdade – e a diversidade de objetividades, por sua vez, cria incontáveis subjetividades – e é este o aspecto negativo do poder, o lado passivo, a servidão. Por um lado, construímos a cidade, por outro, a cidade nos constrói.
Fedora materializa o que acontece em todas as cidades. As esferas de vidro objetivam os mundos que se escondem na mente de todos os seus habitantes. Os projetos de cidade, as realidades existenciais, as perspectivas de cada ser, as cidades não compartilhadas. Engana-se quem pensa que tais mundos são ilusórios e meramente fantasiosos…
Em Leandra acontece o debate oculto em todas as cidades, representado pelos deuses Lares e os Penates. Os Lares eles têm residência fixa, cada um sempre esteve na mesma casa. “Os Penates acreditam ser o espírito da cidade” (p. 75): eles acompanham os moradores e se movem junto com as pessoas. Afinal, o que faz uma cidade é a materialidade objetiva dos Lares ou a energia subjetiva dos Penates?
Irene é a cidade sem dentro. Ela nunca é vista de dentro, e nunca ninguém consegue adentrá-la. Talvez seja este o resultado da alienação dos sujeitos, da constante atribuição de poder ao exterior: chegará um dia que nossa cidade será Irene, cidade alienada de si mesma, sempre olhando-se de fora sem nunca conseguir encontrar seu ser em si mesmo.
O avesso de Irene, Pentesiléia é a cidade em que o “centro está em todos os lugares”. Marco Polo se pergunta: “fora de Pentesiléia, existe um lado de fora?”. Quando seus habitantes incorporam o poder e mergulham na imanência produtora do social, a cidade engloba a si mesmo em um dentro todo abrangente que abarca até mesmo seus exteriores. Pentesiléia invade todas as cidades com a seguinte pergunta: Existe mesmo um fora?
Termino minha breve incursão em algumas das cidades de Calvino naquela que é certamente a cidade mais representativa deste trabalho e a metáfora arquetípica de meu pensamento.
A passagem de Marco Polo por Procópia ilustra o processo de emancipação em qualquer cidade imaginável. Em sua primeira estada, nada havia senão objetos, materialidades objetivas. Na segunda vez que esteve por lá, reconheceu um habitante isolado em toda a cidade. E cada vez que passava por lá, sua mente ia desvelando os sujeitos, um a um, que compõem a cidade. Procópia é, na verdade, feita de gente. Não apenas construída por pessoas, mas constituída delas, como sua própria matéria-prima. Procópia é o que surge na mente emancipada, na mente que reconhece o mistério que faz com que subjetividades se vivam objetivamente e objetividades se vivam subjetivamente. Procópia é o que vemos quando percebemos como nunca houve nenhum mundo concreto “lá fora”, mas sempre mundos (co)construídos por nós mesmos, seja atribuindo nosso poder a agentes externos, seja engajando-nos e imergindo na teia do real.
“Todo sistema de educação é uma maneira política de manter ou de modificar a apropriação dos discursos, com os saberes e os poderes que eles trazem consigo”. (Foucault, 1970, p. 44)
Tomemos a afirmação de Marco Polo, ao descrever Olívia: “jamais de deve confundir uma cidade com o discurso que a descreve” (Calvino, p. 59). É possível distinguir duas espécies de educadores: os que ensinam discursos e os que ensinam a criar discursos, os que mostram imagens e os que ensinam a ver.
Em Zemrude, onde “é o humor de quem olha que dá a forma à cidade” (p. 64), educar é apenas apontar para as formas que já foram modeladas ou é ensinar a dar forma, ensinar a criar formas, a criar Zemrudes diversas?
As crianças, em geral, crescem em um mundo que se apresenta como definido e pronto. Elas aprendem como as coisas são, e dificilmente como vieram a ser deste e não de outro modo. Todos nós nascemos inicialmente em Tamara, a cidade que diz “tudo o que você deve pensar”. Antes de tentar ensinar algo a uma criança, o professor deve se perguntar: que mundo é este o nosso que possibilita o surgimento de Tamara? Como eu posso ensinar a olhar para além de Tamara, e como mostrar que Tamara é condicionada e foi algo construído?
Em Olívia e Tamara, entendemos que a educação para a emancipação, em qualquer cidade possível, é sempre a passagem da passividade pré-kantiana – terreno fértil para ideologias que se passam pela realidade como ela é – para a atividade pós-kantiana, que por dissolver a idéia de coisa-em-si, enfraquece as ideologias. As pessoas devem se descobrir como agentes construtores de realidades, cidades e mundos.
Em Leandra, seria a Educação a educação dos Lares sobre os Penates, da cidade sobre os sujeitos, ou a educação dos Penates para os Penates, de sujeitos para sujeitos, reconhecendo a predominância do sujeito criador sobre a cidade? Educação para adequação e reprodução ou Educação para transformação?
O professor, ele mesmo, deve passar por este processo de libertação para conseguir orientar seus alunos. Tal emancipação proposta pela Escola de Frankfurt, por Foucault, por Kant, é bem descrita por Berger e Luckmann em A Construção Social da Realidade:
“Por um momento vê-mo-nos realmente como fantoches. De repente, porém, percebemos uma diferença entre o teatro de bonecos e nosso próprio drama. Ao contrário dos bonecos, temos a possibilidade de interromper nossos movimentos, olhando para o alto e divisando o mecanismo que nos moveu. Este ato constitui o primeiro passo para a liberdade.” (Berger; Luckmann, 1966)
Antes de tentar ensinar algo a uma criança, o professor deve se perguntar que mundo é este o nosso que possibilita o surgimento de Tamara, a cidade dos símbolos, Zirma, a cidade que repete imagens, Maurília, com seu passado desincorporado, Anastácia, a cidade do consumo imediatista, Irene, mundo sem interiores, Fedora, a cidade de projetos…
A arte de formar agentes transformadores para Cloé, Eutrópia, Ercília, Melânia, Eusápia, Pentesiléia, Leônia, Olinda, Raíssa, Zirma, Despina, Dorotéia… À luz da obra de Calvino, não seria esta uma boa definição de Educação?
As coisas são feitas de nuvens. Tenhamos em mente Zoé (a cidade plástica) e Procópia (a cidade feita de gente), e eduquemos nossas crianças não para morar em tais cidades, mas para transformar nossas cidades em enormes Zoés e Procópias…
“Marco Polo imaginava responder… que, quanto mais se perdia em bairros desconhecidos de cidades distantes, melhor compreendia as outras cidades que havia atravessado para chegar até lá, e reconstituía as etapas de suas viagens, e aprendia a conhecer o porto de onde havia zarpado, e os lugares familiares de sua sua juventude, e os arredores de casa, e uma pracinha de Veneza em que corria quando era criança.” (Calvino, p. 28)
O esforço de descentramento, de desidentificação de nossa própria cidade, nos propicia um novo olhar para a Educação. Imaginando como seria a educação na Tamara, na Procópia, na Otávia, na Ândria de Calvino, acabamos por descobrir como educar nas Tamaras, Procópias, Otávias e Ândrias que já habitamos e que nos habitam.
Marco Polo é, antes de tudo, um educador por excelência. Aquele que mostra os mundos possíveis, os modos de ser que podem ser incorporados por nós, e não aquele que nos fixa no mundo como ele é, pois isto não existe. Ao contar histórias, ele acessa as cidades invisíveis – não inexistentes, não imaginárias, não ilusórias, mas possíveis.
Educação é, sim, iniciação ao mundo. Iniciação ao mundo como potência de mundos, iniciação à fonte das cidades invisíveis e ao poder inerente a todos de construí-las.
Se há um fim para o percurso educativo ou se há um fim para as viagens de Marco Polo, ele será como descrito pelo poeta T.S. Eliot: “… e o fim de nossa viagem será chegar ao lugar de onde partimos. E conhecê-lo então pela primeira vez.”
Elas vêm das dez direções. É a namorada cobrando limpeza da casa, compra no mercado, atenção, respostas de emails, presença, sexo (!!!). São umas 5 pessoas aqui do trabalho. É o pai cobrando uma visita. É a mãe cobrando ligações e proximidade. São os professores de dança de salão, exigindo cada detalhe. Em todos os projetos e em todos os contatos, tem sempre alguém me cobrando por algo que eu deveria estar fazendo “pra ontem!”.
Em meio a isso, o que eu faço? Venho aqui escrever um post… óbvio!
Não lembro do dia que assumi tais dívidas. Lembro apenas de ter oferecido algumas coisas. De fato, não há uma única pessoa agora que me deve algo. Eu me esforço para lembrar, mas não encontro ninguém. Acho que não possuo alguém para cobrar…
O lance é sempre oferecer (mesmo críticas e ações iradas), e nunca cobrar. Mas também é estúpido cobrar os outros para agirem assim! Seria frustração na certa. “Ofereçam, seus carentes de merda!”, alguns aqui dentro gritam. Mas basta deixar a boca calada e continuar fazendo o melhor que posso, sem esperar que um dia não mais haja cobranças.
Os mundos e seres são insaciáveis. A sede e fome não se esgotam. Continue rolando pedras montanha acima, caro Sísifo. Apenas continue e não tenha medo quando um sorriso invadir-lhe o rosto.
1 comentário... Comente!É muito raro encontrar um duo de bateristas tocando com inteligência, explorando as possibilidades de um duo, de fato. O vídeo abaixo (com ninguém menos que Mr. Terry Bozzio) é um exemplo disso.
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Estamos em uma época muito surreal mesmo. O livro do Saramago (único que li inteiro dele) é uma obra-prima em todos os sentidos. Uakti destrói. Fernando Meirelles humilha. Mark Ruffalo é o único homem que nos salva da frase “Homem não presta”. Agora, imagine todos juntos! Ah, e tem a exótica Julianne Moore também…
Parece que a trilha do Uakti ficou demais! Vamos aguardar pelo filme. Enquanto isso, acompanhe a saga da montagem no blog “Diário de Blindness”.
1 comentário... Comente!“A realidade transbordante de Schlingensief desvela a artificialidade de nossa vida simulada, nossa auto-encenação contínua. O que parece excesso não é senão nossos próprios impulsos (como indivíduos e como sociedade) levados até o fim, nossos fantasmas projetados no espelho.
Dentro da ilusória transparência da sociedade contemporânea, talvez seja necessário invocar o excesso de superposições e referências para finalmente conseguirmos enxergar algo. Talvez apenas pela cacofonia será possível escutarmos nossos fantasmas com clareza. As construções exteriores, com seus alicerces de ferro, enganam. O trem fantasma passará por dentro de nós.”
Esse é o final da minha primeira matéria na Revista Digital do SESCSP: “Diretor polêmico propõe festa eterna regada a cerveja”. Minha amiga jornalista odiou e gentilmente enviou várias críticas. Minha chefe editora gostou.
Eu não conhecia esse alemão, me impressionei com a obra e espero que todos participem da montagem. Se estiver em Sampa, não perca!
Trem Fantasma, de Christoph Schlingensief1 comentário... Comente!
23 a 25 de novembro e 27 de novembro a 2 de dezembro
Das 17h às 21h30 (exceto segunda)Futura unidade do SESC Belenzinho
Av. Álvaro Ramos, 915 | tel: 6602.3700R$ 4,00 [trabalhador no comércio e serviços matriculado no SESC], R$ 8,00 [usuário matriculado, + 60 anos, professores da rede pública e estudantes], R$ 16,00 [inteira]
O Phil Collins sempre me impressionou com “In the Air Tonight” (sempre achei que ele não ia conseguir sentar na bateria a tempo!), mas o vídeo abaixo é de outro mundo. Sorry, Phil…
Pena que não teve nenhum baterista dando consultoria. Ela começa na caixa, sendo que obviamente a entrada é nos tons. Além disso, ela não faz a virada nas passagens (fica direto na caixas).
Assisti ao vídeo do Phil Collins agora… Mudei de opinião. Foda-se o Wonderbra, Phil Collins é insuperável! ;-)
4 comentários... Comente!“Nada passa, nunca; tudo o que acontece é indelével. Acrescento: sobretudo os amores, por mais que acabem, continuam vivendo, subterrâneos, dentro de nós, porque, bem ou mal, são essas as vivências que mais nos formaram e transformaram.”
“De qualquer forma, mais que a lembrança, os rastros do passado sempre assombram o presente e o futuro. Quando decretamos novos começos, ilusórios ou não, nem por isso conseguimos apagar nossa história: podemos apenas contá-la mais uma vez, quem sabe revisá-la ou corrigi-la, para pior ou para melhor.”
Contardo, ah o Contardo… Isso me lembrou de dois ensinamentos que já ouvi do Lama Samten: “todas as relações são eternas” (você não rompe uma relação, apenas a transforma) e “é possível alterar o passado” (ele é tão insubstancial quanto o futuro). Falei um pouco sobre isso aqui: “Como liberar o passado”.
Comente...Como baterista, eu não poderia deixar de indicar esse comercial da Faculdade Cantareira. Todos os vídeos dessa campanha são geniais, com destaque para os vídeos de Publicidade e Direito (esse eu nunca vi, originalíssimo!).
Bom, só digo uma coisa: o velhinho aí embaixo toca pra caralho!
2 comentários... Comente!
Essa é uma das coisas mais geniais que já li.
“What is important today is forgotten tomorrow. When it’s time to use the toilet, really time, all importance is reduced to the event. In bed at that moment, orgasm is all. Chased by a madman with a gun, there is nothing else; waking up from the dream, there is nothing else but relief. A child finds her doll important. A father finds his finances important. Riddled with cancer, an old man finds love important, as his eyes close one last time.2 comentários... Comente!What do you find important, now, today? What did you find important ten years ago? Remember back to your earliest childhood memory, the very first time you can remember anything at all. What was important to you then?
Still feeling your very first memory in life, feel before that. What happens when you try to feel earlier than your first memory? Do you feel into blackness? Is there a sharp wall of time that stops you? Or can you feel an ineffable openness that seems to extend before your earliest childhood memory, an openness without clear bounds, an openness that is you even now?
Of every moment that has ever seemed important, all that remains is the openness who you are.”
–David Deida, excerpt from Blue Truth.
Comente...“Domingo, dia 30 de setembro, ao meio dia, estaremos nos reunindo na Avenida Paulista, na calçada central entre as duas vias da avenida, em frente ao MASP, para darmos início a uma Caminhada pela Paz em Mianmar e pela restauração do respeito aos Direitos Humanos.
Venham meditar, orar e caminhar conosco pela Paz em Mianmar (antiga Birmânia ou Burma).
Que a Paz prevaleça na Terra!
Monja Coen
Comunidade Zen Budista Zendo Brasil – Templo Tenzui
Mãos em prece”
O pessoal do Integral Institute está vendendo o Holosync, um sistema de áudio que facilitaria a meditação. Deu coceira aí? rs… Veja só essa página aqui, mas tente não vomitar, ok?
Procurei pelo criador, Bill Harris, e vi que ele tem um livro. Gostei, pois com o ele vou aprender “why traditional meditation is such a slow process, and how you can get the benefits of decades of deep meditation in a fraction of the time“. Não entendeu? Leia de novo.
Parece que os caras enlouqueceram de vez… Será que o Wilber está vendo isso tudo? Ou será que ele também enlouqueceu?
Quietude (normally $18.99)—this beautiful soundtrack features Holosync technology at the alpha level, the brain wave of super learning. It’s perfect while reading, studying, or to keep you
refreshed and alert for hours.Oasis (normally $18.99)—will take you deeper, into the theta brain wave state of increased creativity. (ideal for trying to find a creative solution to a seemingly “unsolvable” problem.)
Super Longevity™ (normally $49.95)—These two specially engineered CDs create powerful changes in important brain chemicals related to aging and longevity, including DHEA, cortisol, and melatonin.
Acho que é o momento de relançarem o Complete Works do Ken Wilber versão “New Age Criticism Free”! Que tal ler tudo do Ken Wilber sem o incoveniente das críticas à visão new age?
Bom, para colocar algo de bom nesse post, eis o link de um instituto que ainda gosta da meditação mais chata e fora de moda: www.mindandlife.org
1 comentário... Comente!“Usualmente, podemos expressar a nossa raiva ou agressão, batendo em alguém ou destruindo algo ou sendo verbalmente rudes. Tais ações e frustrações surgem de nossa emoção como resultado de uma falha em realizar que há um espaço total no qual tais energias estão operando. Em outras palavras, tanto suprimir como expressar são um substituto emocional ao invés de emoções verdadeiras. São como sedativos. Uma experiência emocional perfeita ou verdadeira significa a realização da totalidade da fundação, realizar que as emoções operam no meio de um espaço inteiro. Neste ponto, começamos a experimentar os sabores das emoções, suas texturas e suas temperaturas. Começamos a perceber o aspecto vivo das emoções ao invés de ou seu aspecto frustrado.Neste contexto, o que a frustração significa, é a estagnação. Queremos dar nascimento a algo, mas não conseguimos. Assim, nós gritamos, tentamos ajeitar as coisas, ou simplesmente arrebentar algo. Sentimos que apesar de algo estar definitivamente acontecendo, este algo ainda não está completamente ali. Há uma sensação de incompletude, uma sensação de que algo está acontecendo de um modo totalmente errado do ponto de vista emocional. E isto ocorre porque falhamos em enxergar a totalidade, o que é inteiro, que é o princípio da mandala.”
“Isto não se aplica só às nossas emoções, mas a todas as nossas experiências do dia a dia como um todo. Uma vez que vejamos a totalidade, teremos a experiência de ver as coisas como elas são, no seu próprio modo de ser absoluto. A qualidade azul do céu e a qualidade verde dos campos não precisam de confirmação e nem de um senso extraordinário de apreciação. Eles apenas são, então, nós não precisamos reafirmar ou confirmar que elas são. Quando realizamos a totalidade básica da situação como um todo, a nossa percepção se torna extraordinariamente viva e precisa. Isto porque ela não surge colorida pela ‘convencionalidade’ de uma crença no que quer que seja. Em outras palavras, quando não há dogma – quando não há nenhuma crença na qualidade azul do céu e na qualidade verde dos campos – então nós começamos a enxergar a totalidade.”
“Todas estas idéias da mandala básica, a mandala total, que nós estamos discutindo, são completamente do ponto de vista de ninguém. A mandala é o seu próprio ponto de vista. E, por isso, ela é livre de nascimento e morte, assim como, ao mesmo tempo, ela se revela como a expressão mais pura do nascimento e da morte. É ela que sustenta todo o universo, toda a existência, assim como é ela que mata todas as coisas.”
Trechos do capítulo 6 do livro (tradução não oficial da querida Brenda):
ORDERLY CHAOS – THE MANDALA PRINCIPLE
CHÖGYAM TRUNGPA
DHARMA OCEAN SERIES
SHAMBALA PUBLICATIONS INC.
BOSTON 1991
ISBN 0-87773-636-7
“And we didn’t just watch, we also worked. Like crazy. We made Facebook profiles and Second Life avatars and reviewed books at Amazon and recorded podcasts. We blogged about our candidates losing and wrote songs about getting dumped. We camcordered bombing runs and built open-source software.”
O foco da matéria pode ser a web 2.0, mas o importante é a percepção de que o mundo é nossa criação. A wikipedia, por exemplo, não é só um sistema legal, ela é um modo de treinarmos percepção ativa, cognição construtora. O mundo nunca é pré-existente, ele surge junto conosco, em cada olhar, em cada gesto.
Fiquei extremamente feliz com esse texto!