[trecho de um trabalho antigo, ainda se aproveita alguma coisa...]
Nos debates acerca do acesso às tecnologias de informação, estamos nos referindo a que espécie de acesso? Acesso ao computador, acesso à Internet, acesso às informações? Em outros termos, o que está implicado no processo de exclusão digital? Estamos sendo excluídos de quê?
Para esboçar uma resposta, é preciso questionar a suposição de que todas as técnicas e tecnologias possuam uma natureza não-humana, supostamente estranha ao fazer humano. Enquanto que as tecnologias mais antigas – como a escrita e a imprensa – são vistas como processos humanos, que constituem nossa cultura; as técnicas mais recentes, como a informática, são vistas como invasoras, alienígenas. Essa perspectiva tende a alimentar a ideologia da exclusão, pois encobre ao máximo as potencialidades humanas que residem num simples clicar do mouse.
Para Pierre Lévy, todas as tecnologias (da roda ao microscópio, do ábaco ao computador) nascem como extensões de nosso próprio corpo; como desdobramentos inevitáveis de nossa busca por conhecimento, de nossa progressiva interação com o mundo. Cada instrumento técnico é apenas um prolongamento de nosso olhar, de nosso toque, pois “não há nenhuma distinção real bem definida entre o homem e a técnica” (Lévy, 1993, p. 14).
Portanto, reduzir o fenômeno de exclusão digital a seus componentes materiais é algo que obscurece uma análise mais precisa do que efetivamente está acontecendo. O computador, a linha telefônica, o provedor, e o conteúdo da rede são o reflexo material de um substrato muito mais profundo. As tecnologias da informação são a expressão de uma nova fase do pensamento humano – tanto, que Lévy prefere tratá-las por “tecnologias da inteligência”. Se o computador amplia minhas capacidades intelectuais, se a Internet aumenta o alcance dos meus sentidos, se a conexão virtual com diversas pessoas redimensiona a minha imagem de sociedade; se toda essa humanização manifesta-se no simples uso de uma tecnologia, qual é, então, a natureza da exclusão digital? Não seria ela uma exclusão de todas as novas produções da humanidade, de todas as novas capacidades cognitivas que estão aflorando no homem cibernético? Ora, se nos falta o acesso à grande rede, perdemos o que nos é de mais natural e somos reduzidos a um estado sub-humano – este sim, alienígena. Curiosamente, aliás, é por esse estado que se reproduz uma sociedade desigual, em que os dominantes não reconhecem a face humana dos dominados.
Para Lévy, o ciberespaço – o espaço criado pela Internet, tecido da noosfera – é um dos instrumentos do que ele chama de “Inteligência Coletiva” (um saber interativo e comunitário; produzido, em um nível macroscópico, pela humanidade toda, e, em outro, por pequenos grupos). A inclusão digital, segundo esta abordagem, aumentaria o poder de autonomia dos grupos sociais hoje excluídos. Listas de discussão, uso constante de e-mails, acesso rápido a informações, criações de sites representativos de pequenas comunidades… Tudo aponta para uma crescente apropriação da tecnologia por parte das classes excluídas:
“Quanto mais os processos de inteligência coletiva se desenvolvem ? o que pressupõe, obviamente, o questionamento de diversos poderes ? melhor é a apropriação, por indivíduos ou por grupos, das alterações técnicas, e menores são os efeitos de exclusão ou de destruição humana resultantes da aceleração do movimento tecno-social.” (Lévy, 1999, p. 28-29)
O uso constante da Internet amplifica todas as relações sociais, da relação do trabalhador com seu chefe até uma conversa de botequim. A imagem de um indivíduo isolado em seu computador já virou um mito. Hoje, é comum a formação de comunidades virtuais, a criação de grupos de discussão sobre temas particulares, a reunião de pessoas com interesses convergentes, a exploração de novas formas de pesquisas de opinião. Novas idéias ganham amplitude, mais vozes são ouvidas e, talvez, nossa democracia possa se tornar mais participativa.
Baterista sem bateria, quase aluno de TaKeTiNa, ex-bolsista de dança de salão, ex-estudante de filosofia e ex-solteiro.
“Para Pierre Lévy, todas as tecnologias nascem como extensões de nosso próprio corpo”
Deixo mais uma referência: McLuhan (1964), e sua tese sobre as tecnologias como extensões do corpo.
http://www.google.com.br/search?hl=pt-BR&ie=UTF-8&q=mcluhan+%22extens%C3%A3o+do+corpo%22&meta=
http://www.google.com.br/search?hl=pt-BR&ie=UTF-8&q=mcluhan+%22extens%C3%B5es+do+corpo%22&meta=
Valeu? ;-)
Valeu! Legal isso de colocar o link da pesquisa do Google… Vou começar a usar isso…