Essa semana eu presenciei um conflito entre dois amigos meus. Além de estar com eles no momento do desentendimento, eu ouvi cada um deles separadamente depois.
É curioso como estes processos kármicos se desenvolvem como se tivessem vida própria, independente dos seres envolvidos. A raiva é sempre raiva, seja onde ou em quem surgir. A ignorância, a cegueira também. O interessante é ver que, em casos assim, não há culpado absoluto nem origem definida do conflito. Os dois seres co-constróem um ambiente agressivo e de falta de visão, e ali se matam.
Os ensinamentos budistas nos dizem que a compaixão consiste em manter na mente dois pensamentos aparentemente contraditórios: “Eles fazem o melhor que podem” e “Eles podem muito mais do que isso”. O primeiro fornece a visão compassiva de entender o outro de dentro dele mesmo, no mundo dele mesmo. É o aspecto feminino de abraçar e compreender – a postura materna, que surge em nosso contato com Shakti, a energia substrato de todo fenômeno. O segundo pensamento provê a visão da sabedoria cortante e agressiva, de olhar o outro como infinito e ver as inúmeras possibilidades daquele ser. É o aspecto masculino de ver a liberdade onde há prisão – a postura paterna, que surge no clarão de nossa consciência informe, em Shiva, o espaço no qual o universo inteiro brinca espontaneamente.
Em casos assim, precisamos desempenhar e encarnar dois personagens arquetípicos distintos. O primeiro, filho da compaixão, abraça, passa a mão na cabeça e entende cada motivo até sua última justificativa. Ele não julga, não contraria, não se opõe a nada. (No entanto, se ficarmos apenas nisso, o ser é legitimado em sua atitude agressiva e sua cegueira é tomada como se fosse visão). O segundo personagem a ser encarnado, filho da sabedoria, corta, despedaça, critica impiedosamente e não aceita justificativa alguma. Ele tem o único propósito de destruir aquela identificação com aquela ação e a insistência do ser em se defender, em defender sua posição, sua oposição diante do outro ser do conflito. Enquanto um abraça o outro mata.
Agora eu deixo a pergunta: teremos coragem de agir assim ou deixaremos tal postura não-dual apenas para mestres realizados? Podemos arriscar agir assim mesmo sabendo que certamente erraremos?
Gostaria de saber o que vocês pensam, o que vocês sentem e qual a experiência que já tiveram com isso. Para quem se interessar, a minha tentativa de resposta está aqui.
Trabalho com espaços de transformação:
Texto maravilhoso, acabou de ganhar um fã. Sempre pensei que este olhar amoroso sobre o mundo fosse como enxergar a eternidade no momento.