O fato é que não sabemos nada. E mesmo a posição humilde do “só sei que nada sei” também não se sustenta. Ambas são puro orgulho ou carência – e qualquer desses venenos só surgem porque desejamos camuflar nossa cegueira básica. Como ensina David Loy, temos medo de perceber a ausência de um “eu” central e por isso nos esforçamos para ser e existir. O mesmo com nosso conhecimento e nossas certezas internas. Temos medo de reconhecer nossa ignorância suprema e então caímos em visões particulares (a “só sei que nada sei” é uma delas, aliás).
Nós nos equilibramos em certezas e incertezas. Oscilamos entre saber e não saber. Mas mesmo com certezas e saberes, o fato é que não sabemos nada. Não sabemos sequer o que sabemos: escovar os dentes, conversar, escrever, trabalhar, olhar, andar. Sabemos muito, sim, e justamente por sabermos cada coisa é que não sabemos nada. Analise cada crença interna e verá que são todas grandes e complicados equívocos. Somos bêbados batendo cabeças. Não chegaremos a lugar algum.
Eu tenho dificuldade até em respirar, que é a ação na qual eu deveria ter a maior experiência. Imagine andar, falar, me comunicar. Imagine então pensar, sentir, amar. Imagine então viver… Eu respiro apenas durante 1% do meu dia. Isso nos dias em que eu respiro. Na maioria deles, eu tensiono o corpo e sigo contraído o dia todo. Uma vez no mês respiro fundo e lembro: “Como é bom isso!”.
Como não conheço a satisfação de uma vida cheia de respiração, busco sorvetes caros, chocolates, seriados, filmes, checar emails, livros, músicas, mulheres, diversão. E como não sei sequer ter prazer com a respiração, consumo toneladas de doces, conversas, palavras, sons e nada sinto. Toda ignorância é uma forma de anestesia.
Por que mesmo eu checo meus emails mais de uma vez por minuto mesmo quando estou concentrado fazendo outras coisas? Por que mesmo eu limpo minha lixeira e caixa de spam mais de uma vez a cada dez minutos? Será que eu realmente acredito que algum dia chegará um email que mudará minha vida? Qual o fim desse ciclo de insatisfação?
Qualquer fala ou decisão radical em relação a isso é perda de tempo. Qualquer certeza, qualquer incerteza, qualquer posição é estéril. Só nos resta a escuta.
Silenciosamente prestamos atenção aos sons do mundo. Sem descansar, sem vacilar, olhamos tudo, ouvimos cada movimento. Não é possível aprender nada, pois aprender é tentar falar enquanto se ouve. Apenas nos abrimos para o caos do mundo, sem poder sequer afirmar certezas ou incertezas e, pior, sem poder sequer deixar de lançar afirmações.
E então escrevemos em blogs, silenciosamente, oferecendo nossa escuta – e não nossa fala – ao outro. Oferecemos a espacialidade da nossa boca calada. Oferecemos o que não temos. Nossa ausência é o melhor presente e é, na verdade, nossa verdadeira presença.
O fato é que não sabemos nada.
Trabalho com espaços de transformação:
não sei nem o que dizer…
hehehe…
mas vou deixar uma pergunta:
e precisa saber?
abç.
Bom, pelo menos a gente sabe isso.
Muito boa essa reflexão.
Tenho pensado muito em silenciar mais. Escrever o blog foi uma das formas que encontrei.
bjs
Li no Tao e lembrei do teu texto:
” Se eu lhes perguntar: Você sabe quem vc é?, apenas os muito honestos dirão que não sabem. Os desonestos começarão a ruminar e dirão: Deixe-me pensar a respeito. O que vc irá pensar? Se vc sabe, vc sabe, se não sabe, não sabe. Sobre o que irá pensar? Pensar significa que vc tentará arranjar uma resposta, tentará criar uma resposta. É muito difícil encontrar uma pessoa que possa admitir que não sabe, e é essa pessoa que pode se tornar um discípulo verdadeiro, essa é a pessoa que um dia poderá saber.”
Cara, muito bom isso!