Assisti “Cast Away” (Náufrago), e todos os extras. São vários, e longos! Sobrevivência, a bola de vôlei, a ilha, os efeitos, a filosofia…
Não lembrava o último monólogo, no qual ele resume o filme todo, ali, em cerca de um minuto. Ele vê a estrutura toda da realidade, como se enxergasse todos os lacinhos de causa/efeito que dão nascimento aos mundos. Diz “e agora tenho gelo em meu copo”. E você percebe o milagre que é a evolução da humanidade. Pense: o que é um aparelho de DVD? O que é um filme?
Num momento estamos lutando para conseguir fogo, e em outro estamos imbricados em uma complexidade além de qualquer imaginação. O mundo nunca foi tão vasto, a mente nunca foi tão elástica. Agüentamos mais amor, somos o suporte do Kosmos, levamos Deus em nossos olhos. Somos espetáculo e espectador.
E o Wilson (a bola de vôlei)? Eu me identifico muito com o personagem do Tom Hanks, Chuck, pois para ficar bastante isolado dos contatos sociais você deve encontrar algum meio de voltar, algum caminho pelo qual você consiga manter e conservar a sua intersubjetividade, a abertura que te leva ao outro. Foram contratados para o filme, dois especialistas em sobrevivência (aqueles que dão vivências, cursos, etc.), e eles disseram que é muito comum as pessoas começarem a falar sozinhas, que existem muitos velhos isolados em montanhas que falam sozinho o dia todo. Para o Chuck foi a bola. Para mim foram as longas conversas, intricados diálogos mentais, que às vezes acabavam em monólogos falados… A viagem é a mesma. Para além do mundo, e depois para dentro dele. Quanto mais saímos, mais ganhamos coragem de penetrar mais fundo. Quanto mais olhamos de cima, mais ganhamos conhecimento (confiança?) para chegar mais perto.
Quando tento analisar meu passado, sinto-me muito distante (de tão perto) e sem identificação (de tanta incorporação). E percebo que é assim mesmo que funciona o desenvolvimento, a auto-superação, a auto-transcendência. Você só esquece do seu passado quando o engole totalmente; e você só pode fazer isso, quando o destrói, quando nasce outro. A preservação do antigo se dá por regeneração, não por uma mera coleção, como se nós guardássemos nosso passado em nós. Só podemos conservá-lo se o triturarmos totalmente e fizermos dele algo novo. É se deixando morrer que podemos viver.
A encruzilhada no fim do filme… É isso. Só isso. Estamos ali o tempo todo. Com aquele olhar prenhe de todas as possibilidades. Mesmo afogados em uma situação, em um caminho estreito, a horas de distância da encruzilhada primordial, mesmo assim sempre estamos nela, com todas as estradas disponíveis, com todos os mundos diante dos olhos, com todos os personagens esperando incorporação.
O fim do filme é sempre seu começo. Não um outro começo, mas seu começo, o começo que o levou até ali, em primeiro lugar. Não é estranho?
Tudo será revivido, pois esse é o prazer do jogo.
Baterista sem bateria, quase aluno de TaKeTiNa, ex-bolsista de dança de salão, ex-estudante de filosofia e ex-solteiro.