Bin-jip / 3-Iron / A Casa Vazia

por Gustavo Gitti | 22/07/2006 14:28 | Comente!

Supremo. Na segunda vez, assistirei sem legendas mesmo. Link do IMDB.

Factotum

por Gustavo Gitti | 05/07/2006 16:43 | Comente!

“If you’re going to try, go all the way. Otherwise don’t even start. This could mean losing girlfriends, wives, relatives, jobs. And maybe your mind. It could mean not eating for three or four days. It could mean freezing on a park bench. It could mean jail. It could mean derision. It could mean mockery, isolation. Isolation is the gift. All the others are a test of your endurance. Of how much you really want to do it. And you’ll do it, despite rejection in the worst odds. And it will be better than anything else you can imagine. If you’re going to try, go all the way. There is no other feeling like that. You will be alone with the gods. And the nights will flame with fire. You will ride life straight to perfect laughter. It’s the only good fight there is. ” (fala de Henry Chinaski, alter ego de Charles Bukowski, em Factotum).

Filmaço! Matt Dilon e Marisa Tomei estão irreconhecíveis. Algumas cenas perfeitas, como a do bêbado que procura trabalhos temporários. Saí do cinema com vontade de beber, largar o emprego e virar músico e poeta. Com vontade de declarar meu amor às mulheres, de olhar o céu, de comer carne e sentir cheiro de noite. É um filme que nos faz querer viver (porque para viver não basta apenas viver, já dizia algum poeta bêbado por aí).

Jogos Mortais: Transcendência na carne

por Gustavo Gitti | 09/11/2005 8:55 | Comente!

Atenção: não há nenhum spoiler abaixo, portanto mesmo aqueles que não viram sequer o primeiro filme podem ler sem preocupação, ainda que sem entender as relações estabelecidas.

Quando eu vi o primeiro filme, imediatamente gostei da abordagem. Já vi outros filmes tratarem da morte em uma perspectiva ampla (Fearless, “Sem Medo de Viver”, é um bom exemplo), mas Jogos Mortais me atraiu por incorporar tal visão sem deixar de apresentar a morte com toda a sua crueldade, violência e muito, muito sangue, é claro.

As duas obras não são tratados sobre a morte e as infinitas formas de executá-la com perfeição e genialidade, mas uma introdução à vida e as incontáveis formas de vivê-la de forma lúcida, com destemor, os dois pés no chão e um olhar que não hesita. Eu não me esqueço do ensinamento de mestre Caeiro: sabedoria é um modo específico de andar com os dois pés.

Mestre também é o articulador dos jogos. Quem o vê como monstro insensível apenas deixa-se cegar pelo seu próprio medo. Atente para seu olhar fixo, sua postura imóvel e sua mente concentrada e compassiva. Se conseguir, tente assistir a Jogos Mortais sem medo, com o coração aberto; sem fixar-se na morte dos seres, mas observando cuidadosamente a destruição de seus obstáculos; sem evitar o sangue e as cenas nojentas, mas contemplando-as a fundo, no limite de cada gota, de cada corte, para compreender a gravidade da confusão humana. A sabedoria do filme é colocar a morte diante de nós. A regra do jogo é somente um ensinamento: transforme-se ou morra.

Saí hoje do cinema com um brilho no olhar. Ou melhor, tudo ao meu redor adquiriu um brilho diferente, uma luminosidade que raramente surge em minha realidade sensorial. Ela permanece e aproveito para escrever enquanto dura. Infelizmente, devido a nossa cegueira habitual, kármica, amanhã quando eu acordar as coisas estarão um pouco mais sólidas e a luminosidade aparecerá como formas concretas.

Enquanto essa abertura segue, porém, eu me vejo agora dentro do filme, dentro do jogo. Estamos, eu e você, no meio de uma sala, ouvindo instruções sóbrias de alguém especialista em meditar sobre a morte, com nossas vidas por um fio. Se isto fosse retórica, recurso poético, eu estaria feliz. No entanto, nós estamos de fato, para além de qualquer ficção, dentro de um jogo mortal (e talvez os cenários dos dois filmes sejam a melhor representação do processo samsárico já produzida pela humanidade!), dentro de uma grande sacanagem, uma irônica e perigosa “pegadinha” cósmica – mas nesse caso, para piorar ainda mais, não há criminoso, culpado, nenhum articulador fora do jogo.

A saída parece estar dentro de nosso olho, para que renunciemos às nossas fixações a objetos e paisagens exteriores, e também atrás de nossa cabeça, em nosso ponto cego, para que os outros possam olhar por nós e nos contar quem somos, para que possamos nos contemplar uns aos outros e adentrar o labirinto de espelhos do real, reconhecendo o outro como um sonhador que constrói conosco esses sonhos intricados, belos e sem saída.

Saída sem saída, pois Jogos Mortais é transcendência pela angústia existencial, espiritualidade virando a pele do avesso, sabedoria que surge quando retiramos e reviramos nossos globos oculares.

Closer again

por Gustavo Gitti | 03/03/2005 18:29 | Comente!

“Viver e amar é viver e amar. Nesta tarefa, não pode haver tempo para checagens. Não há espaço para a filosofia.”

Paulo Ghiraldelli Jr. em seu texto mais curto, mais cortante e mais brutal. Eu fico relendo, relendo… o que está aqui realmente me desestrutura.

The Station Agent (O Agente da Estação)

por Gustavo Gitti | 22/01/2005 21:40 | Comente!

Filmaço. Eu recomendo! Link do IMDB.

É um daqueles filmes que simplesmente abrem seu coração, acalmam sua mente e deixam seu corpo neste estado por horas. Um filme quente, tranqüilo, como um blues despretencioso que surge do nada e nos leva a lugar algum.

Para quem é apaixonado pelos inúmeros modos como os humanos se conectam, este filme é um presente.

Waking Life e a sabedoria da intersubjetividade

por Gustavo Gitti | 12/12/2004 1:21 | Comente!

“You haven’t met yourself yet. But the advantage to meeting others in the meantime is that one of them may present you to yourself. Examine the nature of everything you observe.”

“Você ainda não encontrou você mesmo. Mas a vantagem de encontrar outros no meio tempo é que alguém talvez possa lhe apresentar para você mesmo. Examine a natureza de tudo o que você observa.” [tradução livre]

A frase acima é de um dos personagens do filme WAKING LIFE, de Richard Linklater. Mesmo fora do contexto do filme (sonhos, bardo, etc), é um bom aviso para qualquer um de nós.

A cada momento, somos um espectro que surge na mente de outros seres. Surgimos para eles de um modo completamente diferente do que somos para nós mesmos. Como explica Heinz von Foerster, do mesmo modo que todos os seres são “alucinações” de nossa mente, nós também somos “alucinações” na mente de outros.

O fantástico nestas percepções é a ausência de um solo seguro, de onde teríamos uma visão privilegiada das coisas (“God view”), da definição de nossa identidade e da realidade em que vivemos. Mas tal segurança não acontece. A realidade aparentemente estável e as percepções aparentemente semelhantes dos seres surgem tão somente devido ao compartilhamento de domínios cognitivos e de mundos vivenciais — o que no Budismo chamaríamos de “karma em comum”.

Humberto Maturana segue na mesma linha quando propõe a ousada teoria de que até mesmo as verdades científicas são fruto de domínios consensuais, de compartilhamento de mundos e percepções. Francisco Varela integrou tais abordagens com os ensinamentos de Nagarjuna (ver A MENTE INCORPORADA) e teve belíssimos insights sobre ética, por exemplo.

A sacada deles desdobra-se em algumas possibilidades interessantes na conexão com os outros:

1) A sabedoria consistiria, então, em não solidificar as identidades dos outros, dado que os seres existem para nós na medida que os percebemos ativamente (a teoria da “enaction” de Varela). Dessa forma, abrimos espaço em nossa percepção para que o outro possa se expandir, aumentar seus modos de ser, sua plasticidade e sua identidade.

2) Como não há nada sólido em mim, nada me impede de agir diante de você com o objetivo de causar transformações internas à sua mente. E é isso o que um mestre faz com toda a autoridade. Sabendo que é um espectro em nossa mente, um bom mestre age de forma a causar um conflito em nosso mundo interior (seja cutucando um preconceito, uma repressão, etc) e permanece ao nosso lado para que nós nos reconstruamos neste processo de abertura ao infinito.

3) Quando estiver conversando com alguém, olhe fundo nos olhos da pessoa e imagine que ali está um outro “serzinho”, como você, formando uma imagem mental de você mesmo. Tenha isso em mente e você automaticamente trará abertura e liberdade para esta conexão. Além de “liberar” a outra pessoa, ampliar sua potência de ser, você mesmo acabará sentindo a liberdade de poder ser alguém totalmente novo naquele momento, de uma hora para a outra.

4) Cada mundo, cada ser que observa este mundo e cada visão que este ser tem deste mundo surgem de um processo delusivo, de escolha de percepção: para ser algo, o Kosmos deixa de ser tudo. A ignorância é simplesmente manter-se identificado com uma visão específica, quando somos na verdade aquele que vê. Em um diálogo, a discordância surge, na maioria das vezes, quando não legitimamos a visão e o mundo do outro. A única discordância saudável seria a desapegada, que surge apenas como um modo de tocar e aumentar o corpo e o mundo do outro.

5) Nosso conhecimento, quanto mais se torna rizomático, fractal e sofisticado, mais se transforma em algo sutil, onírico e inexistente. Parece que todo conhecimento evolui para uma certa postura, uma certa configuração do corpo, e vira saber incorporado. Saber é saber encarnado, a própria qualidade expansiva da consciência em suas entranhas e nervuras. Eu vejo que todo conhecimento é fingimento, que todo especialista é um ator supremo e que nada resta senão a sabedoria, que não é conhecimento algum, mas uma certa maneira de andar com os dois pés, como dizia o mestre Alberto Caeiro.

6) Conexão. Se somos seres de desejo, se nosso mundo é o que mais vivencia a insatisfação, é porque somos, antes de tudo, seres de conexão. Quem já teve uma conversa além do tempo, ou quem já passou por aquele momento de poder falar de dentro do outro, de poder sorrir de dentro do outro, por dentro de seus olhos, de tocar a alma do outro e ter a inabalável certeza de que o outro sente exatamente a mesma conexão (como diz Ken Wilber: “the mystery where two souls touch each other and know that they have done so“)… estas pessoas estavam comigo chorando na sala do cinema. Estas pessoas estão comigo agora, enquanto escrevo este breve relato. Estas pessoas são um dos poucos motivos pelos quais eu morrerei feliz: saber que a conexão nunca cessará. Pois o amor que se sustenta na eternidade não é o amor entre duas pessoas, mas simplesmente o amor impessoal. Estas pessoas me ensinam que a conexão é sempre a mesma, em suas mil formas, e que o sentido de uma vida surgirá sempre em sua conexão com outra.

7) Sabedoria e compaixão brotam dessas experiências com a conexão que temos com os seres. São eles nosso verdadeiro espelho, e nós, como espelhos também, podemos contribuir para que o jogo fique ainda mais interessante.

Before Sunset (Antes do Pôr-do-sol)

por Gustavo Gitti | 12/12/2004 0:08 | Comente!

“If there’s any kind of magic in this world, it must be in the attempt of understanding someone, sharing something. I know, it’s almost impossible to succeed, but . . . who cares, really? The answer must be in the attempt.”
-Celine in
Before Sunrise.

Não sei se é porque eu acho a Julie Delpy maravilhosa, ou sou fã de “Waking Life”, ou se porque tenho uma conexão extrema com a mente de Richard Linklater, mas BEFORE SUNSET é o grande filme (junto com seu predecessor) sobre conexões humanas.

Magnolia, 21 Gramas, Amelie Poulain… todos eles tem como coração algo que pode ser descrito com uma simples palavra: “conexão”. E estes dois filmes de Linklater são somente sobre isso: conexão.

Quem já teve uma conversa além do tempo, ou quem já passou por aquele momento de poder falar de dentro do outro, de poder sorrir de dentro do outro, por dentro de seus olhos, de tocar a alma do outro e ter a inabalável certeza de que o outro sente exatamente a mesma conexão (como diz Ken Wilber: “the mystery where two souls touch each other and know that they have done so“)… estas pessoas estavam comigo chorando na sala do cinema. Estas pessoas estão comigo agora, enquanto escrevo este breve relato. Estas pessoas são o único motivo pelo qual morrerei feliz: saber que a conexão nunca cessará. Pois o amor que se sustenta na eternidade não é o amor entre duas pessoas, mas simplesmente o amor impessoal. Estas pessoas me ensinam que a conexão é sempre a mesma, em suas mil formas, e que o sentido de uma vida surgirá sempre em sua conexão com outra.

O mundo humano é realmente fantástico. Os olhares, as palavras, o modo como somos todos frágeis e fortes ao mesmo tempo. Como somos inseguros, carentes e radiantes. O bom humor… que coisa mais estranha e inexplicável é este nosso talento para rir e fazer rir!

A conexão. Se somos seres de desejo, se nosso mundo é o que mais vivencia a insatisfação, é porque somos, antes de tudo, seres de conexão.

Agradeço a Julie Delpy, Ethan Hawke e ao genial Richard Linklater. Um profundo Gasshô a todos vocês!

Semana que vem vou de novo ao cinema. E por amor à humanidade, vá você também!