por Gustavo Gitti | 07/05/2007 21:29 |
Ano passado eu fui ver a Cia. de Dança Mimulus no Sesc Pinheiros. O espetáculo era sobre tango e se chamava “De Carne e Sonho” (música ao vivo com uma orquestra de tango). Ontem, no Sesc Vila Mariana, foi a vez de “Do lado esquerdo de quem sobe”, uma verdadeira obra-prima que mostra o melhor da arte brasileira. Fiquei muito feliz ao saber que este mesmo espetáculo será apresentando na França, no Maison de La Danse.
A Mimulus não reproduz as danças de salão e não faz dança contemporânea tampouco. Assim como Ivaldo Bertazzo e Denise Stoklos, Jomar Mesquita (líder do grupo) tece paralelos entre alegria e romantismo, movimenta os ânimos do público, brinca com nossas emoções e aponta para o transcendente – faz pura arte. Minha namorada já assistiu a muitos espetáculos de dança (de todos os tipos) e nunca havia chorado. Neste ela se dissolveu toda, especialmente na dança de Jomar com Juliana. Confesso que ali até eu considerei as lágrimas como uma consequência do que eu estava sentindo. ;-)
Não só a dança é boa (flertando com passos de samba de gafieira e um pouco menos com lindy hop), mas o espetáculo como um todo: a poética, a ludicidade, a originalidade. Há danças com cordas, teatro, humor, cenas de extrema sensibilidade. Cada coisa usada na medida certa, sem excessos. Tudo isso sustentado por uma das melhores trilhas que já ouvi, de Yamandu Costa e Thiago Espírito Santo. Simplesmente um show! Se fosse só a música, já teria valido a pena.
Em tempo: “mimulus” é também o nome de uma flor.
por Gustavo Gitti | 18/08/2006 2:44 |
Documentário sobre o programa Dancing Classrooms, realizado em 60 escolas de Nova York com crianças de 11 anos (5a. série), a partir de 2004. Eles conseguem um ótimo resultado (tanto no comportamento das crianças quanto na aprendizagem dos passos) em apenas 10 semanas. Eu fico na dúvida se é interessante colocar tanto foco na competição, mas well… estamos falando dos Estados Unidos.
O filme é clichê, não há surpresa alguma, mas vale a pena assistir pelas crianças (há uns diálogos engraçadíssimos entre eles).
É um programa que podemos facilmente aplicar nas escolas brasileiras. Assim que eu aprender a dançar direito, eu vou estudar tal possibilidade. Aqui, em vez de swing e foxtrot, podemos ensinar forró e samba de gafieira.
No fim, o aprendizado não é de passos ou técnicas, mas de postura, olhar, respeito: como andar no mundo e como tratar o outro. De um modo sutil, os homens aprendem a conduzir e a estar presente sem vacilar — algo que será muito útil na vida toda.
Ah, como eu gostaria de ter aprendido isso com 11 anos… ;-)
Link no IMDB. Link para download do filme no eMule.
Está em cartaz em Sampa no Gemini, Av. Paulista. Matéria na Folha. Crítica da Reuters.
por Gustavo Gitti | 02/12/2005 23:55 |
“Mas se apesar de banal
Chorar for inevitável
Sinta o gosto do sal do sal do sal”
(Itamar Assumpção e Alice Ruiz)
Ontem fui ver Milágimas, novo espetáculo do gênio Ivaldo Bertazzo. É um espetáculo totalmente diferente de Dança das Marés ou mesmo da obra-prima Samwaad, pela qual os jovens de olhos brilhantes foram pulando de Sesc em Sesc, saíram em turnê pelo Brasil e pararam na Holanda!
Samwaad ativava nossos corpos mais sutis, apontando caminhos de transcendência. O toque rápido da tabla indiana se mesclava à profundidade do surdo brasileiro, possibilitando coreografias quase esotéricas (como a da serpente da não-dualidade). A ênfase era no ritmo, tão presente na composição indiana quanto no samba, e a melodia era um adorno para a transcendência e a espiritualidade que se expressava nos ciclos de tempo. Samwaad, nesse sentido, nos inseria em uma experiência de sabedoria, pelo olhar sem hesitação, pela precisão rítmica das vocalizações e pela postura das mãos vindas do odissi.
Milágrimas sobe nos ombros de Samwaad, pois os jovens agora estão todos com corpos bem definidos, com máxima expressão e muito mais capacidades técnicas. O foco agora não é tanto a espiritualidade e o ritmo, mas o existencialismo e a melodia, a angústia do viver, do sofrer, do morrer: “se chorar for inevitável, sinta o gosto do sal”. O diálogo e o encontro continuam, agora pelas vozes africanas que chamam passos e palmas da “gumboot dance“. Os jovens se arriscam mais, entram em domínios mais densos (em contraposição à leveza de Samwaad), se tocam, se esbarram, se derrubam, se exploram mais.
Samwaad continua sendo uma obra-prima incomparável. Milágrimas, no entanto, foi o desdobramento natural do grupo: explorar a dança contemporânea, o corpo pós-moderno, tocar em nossos dilemas existenciais e tecer saídas (e entradas) possíveis.
No meio da lama, nasce o lótus. A cada mil lágrimas, um milagre. O negro que suou na escravidão renasce agora cantando forte, pisando fundo no chão e batendo nos pés e pernas, como que abandonando o passado. O sambista angustiado canta seu mantra e deixa aflorar um tipo de sabedoria popular, muito sofisticada. O sal tem gosto mesmo é de liberdade. O ensinamento agora é compaixão, e logo lá vou eu de novo receber mais uma dose!
…
Veja um vídeo gravado no show com a trilha sonoro do espetáculo, mostrando um trecho da coreografia (os jovens invadiram o palco e o líder dos Kholwa Brothers os liderou).
Info:
Temporada do espetáculo “Milágrimas” aberta ao público: De 25 de novembro de 2005 a 05 de março de 2006 (quinta a sábado, às 21h; domingo às 18h). Atenção: O espetáculo será temporariamente interrompido de 18 de dezembro até o dia 05 de janeiro.
Ingressos: R$ 20,00; R$ 10,00 (usuário matriculado, idosos e estudantes com carteirinha). R$ 7,50 (trabalhador no comércio e serviços matriculado e dependentes). Ingressos à venda pelo sistema INGRESSOSESC – na rede SESC (todas as Unidades do SESC)
Endereço do SESC Pinheiros: R. Paes Leme, 195. Pinheiros. São Paulo – SP. Telefone para informações: (11) 3095-9400 e 0800-11-8220.
por Gustavo Gitti | 09/07/2004 23:09 |
Amanhã, vou lá de novo conferir a obra-prima com os jovens de olhos brilhantes de Ivaldo Bertazzo: SAMWAAD – Rua do Encontro
por Gustavo Gitti | 18/06/2004 12:02 |
Ontem fui ver a dançarina de Odissi (dança clássica indiana),Sharon A. Lowen. Ela estudou 30 anos com o grande Kelucharan Mohapatra.
Os pés seguem os pulsos da tabla, as mãos transitam por mudras, os olhos dão a expressão do ato encenado e o corpo todo torna-se uma divindade encarnada. A todo momento, eu ficava vendo uma deusa, além do humano, e ao mesmo tempo fazendo amor com todas os traços do mundo humano.
É algo realmente impressionante tanto para um músico como eu, quanto para uma dançarina como minha namorada.
O último ato chamava Moksha…
Odissi, vale a pena conhecer mais.
por Gustavo Gitti | 15/06/2004 19:52 |
Imagine duas paisagens presentes em um mesmo quadro. Elas não formam nenhuma terceira paisagem, nem tampouco podem ser vistas ao mesmo tempo. Tais estruturas são conhecidas: veja isto e isto, por exemplo.
Uma imagem como esta nunca pode ser vista de forma “holística”, pois para você perceber uma das imagem formadas você deve renunciar à percepção da outra. Elas são mutuamente excludentes. O absoluto nunca pode ser visto, apenas experimentando através de suas manifestações relativas.
Agora imagine esta mesma estrutura no plano sonoro. Uma melodia que é duas, três, quatro ao mesmo tempo. Nosso ouvido, assim como nosso olho, não consegue perceber duas ao mesmo tempo. Para perceber uma, deve renunciar às outras. É exatamente este o processo de criação dos seres e de tudo no Kosmos. É um processo delusivo, de dualidade, de divisão. Para eu experimentar a sensação de ser EU, devo renunciar a sensação de ser TUDO. E assim o Kosmos age incessantemente por liberdade. Quando não reconhecemos esse processo luminoso, surge a ignorância e ficamos presos e fixados a esta experiência unidimensional.
Mas há um outro modo de olhar para a polirritmia. Podemos, sim, desistir de compreendê-la com nossa mente e simplesmente nos jogarmos no chão, nos tornando a música. Isso é tremendamente liberador para músicos e não-músicos. Com experiências desse tipo, comecei a perceber que nosso corpo consegue “ver” duas imagens mutuamente exclusivas ao mesmo tempo. E tal experiência não se equivale a ver uma imagem absoluta ou duas imagens separadas. É “não dois, não um”. Experiência que revela a qualidade e a natureza de todas as coisas.
Muitos ritmos africanos e indianos nos permitem ter um vislumbre disso tudo. Percebi que os músicos mais espiritualizados costumam tocar sempre músicas polirrítmicas e com tempos diferentes (como 7, 11 e 13). Ótimos exemplos são as melodias da Mahavishnu Orchestra: 5, 7, 9, 13, 17, 19… As músicas do Glen Velez também são praticamente todas polirrítmicas.
Treinando esta percepção rítmica, sutil, você acaba mudando totalmente sua visão, seu corpo, sua postura. O mundo todo começa a girar diferente e os conceitos de unidade, não-dualidade, dualidade, se dissolvem diante de uma liberdade indizível.
Nesse vídeo eu aplico a polirritmia na bateria.
Mais sobre isso no meu blog sobre ritmo: www.takadime.com