por Gustavo Gitti | 28/04/2006 17:10 |
A expressão “vai saber?” é perfeita. Não há nada a acrescentar. Ela manifesta a sabedoria de sentir-se em casa na incerteza, expressa o destemor de encarar qualquer situação com aquela curiosidade que sustenta nossa abertura a tudo… A letra fala de impermanência e vacuidade sob uma perspectiva de confiança, nada niilista — algo igualmente presente na melodia da música.
Vai Saber?
Marisa Monte
Album: Universo ao meu redor
Composição: Adriana Calcanhotto
Não vá pensando que determinou
Sobre o que só o amor pode saber
Só porque disse que não me quer
Não quer dizer que não vá querer
Pois tudo o que se sabe do amor
É que ele gosta muito de mudar
E pode aparecer onde ninguém ousaria supor
Só porque disse que de mim não pode gostar
Não quer dizer que não tenha do que duvidar
Pensando bem, pode mesmo
Chegar a se arrepender
E pode ser então que seja tarde demais
Vai saber?
por Gustavo Gitti | 14/02/2006 22:44 |
Muitos odiaram, mas eu não consigo parar de ouvir cada uma das músicas do novo album do Eric Clapton, Back Home. Foi o mesmo com Reptile… Este album é tão simples, tão leve e alegre, e ao mesmo tempo contém toda a profundidade que o Clapton nunca consegue esconder.
“It’s not the same / When your gone / Feel like I’m / Half of myself / Cause I cant keep my feet on the ground / You keep my lost and found / And girl it feels good”
Ah, este blues é poderoso! Ainda que nem todas sejam de sua autoria, parece que ele mesmo compôs cada música após um simples café da manhã à beira do mar… O uso dos backing vocals foi perfeito! Não há tensão em nenhum segundo de música, apenas uma entrega, uma redenção, um descanso.
A primeira vez que ouvi achei o album inteiro bobo e simples demais, mas foi só escutar com outro espírito que tudo fez sentido…
por Gustavo Gitti | 17/12/2005 15:42 |
Essa semana um amigo me filmou tocando uma polirritmia 5:3 (3/8 no pé esquerdo e 5/8 no pé direito, totalizando um ciclo de 15). Assistam aqui.
Mais sobre isso no meu blog sobre ritmo: www.takadime.com
por Gustavo Gitti | 13/11/2005 14:02 |
Listo abaixo os 11 maiores temas de música que eu já ouvi (sem ordem de preferência). Parece que eles surgem de outro mundo e, de fato, eles não só nos apontam mundos alternativos como nos fazem adentrá-los.
- Isis (McLaughlin, L. Shankar), Shakti, do album A Handful of Beauty.
- Assyrian Rose (Velez), Glen Velez, do album Assyrian Rose.
- Pancha Nadai Pallavi Kiravani (L. Shankar), Shankar/Hussain/Vinayakram, do album Eternal Light.
- Eternity’s Breath (Pt 1 & 2) (McLaughlin), Mahavishnu Orchestra, do album Visions of the Emerald Beyond.
- Lotus Feet (McLaughlin), originalmente do album Inner Worlds, com a Mahavishnu Orchestra, mas com uma versão suprema ao vivo com Shakti, do album Remember Shakti.
- Air in the G String BWV 1068 2nd Movemente from Orchestral Suite No. 3 in D Major (Bach)
- Concierto de Aranjuez (Rodrigo)
- Ga Ma La (Flatischler), Megadrums, do album Layers of Time.
- Blue Camel (Abou-Khalil), Rabih Abou-Khalil, do album Blue Camel.
- Circlesong Four (McFerrin), Bobby McFerrin, do album CircleSongs.
- Blackbird (Lennon, McCarthy), The Beatles, do White Album.
por Gustavo Gitti | 15/06/2004 19:52 |
Imagine duas paisagens presentes em um mesmo quadro. Elas não formam nenhuma terceira paisagem, nem tampouco podem ser vistas ao mesmo tempo. Tais estruturas são conhecidas: veja isto e isto, por exemplo.
Uma imagem como esta nunca pode ser vista de forma “holística”, pois para você perceber uma das imagem formadas você deve renunciar à percepção da outra. Elas são mutuamente excludentes. O absoluto nunca pode ser visto, apenas experimentando através de suas manifestações relativas.
Agora imagine esta mesma estrutura no plano sonoro. Uma melodia que é duas, três, quatro ao mesmo tempo. Nosso ouvido, assim como nosso olho, não consegue perceber duas ao mesmo tempo. Para perceber uma, deve renunciar às outras. É exatamente este o processo de criação dos seres e de tudo no Kosmos. É um processo delusivo, de dualidade, de divisão. Para eu experimentar a sensação de ser EU, devo renunciar a sensação de ser TUDO. E assim o Kosmos age incessantemente por liberdade. Quando não reconhecemos esse processo luminoso, surge a ignorância e ficamos presos e fixados a esta experiência unidimensional.
Mas há um outro modo de olhar para a polirritmia. Podemos, sim, desistir de compreendê-la com nossa mente e simplesmente nos jogarmos no chão, nos tornando a música. Isso é tremendamente liberador para músicos e não-músicos. Com experiências desse tipo, comecei a perceber que nosso corpo consegue “ver” duas imagens mutuamente exclusivas ao mesmo tempo. E tal experiência não se equivale a ver uma imagem absoluta ou duas imagens separadas. É “não dois, não um”. Experiência que revela a qualidade e a natureza de todas as coisas.
Muitos ritmos africanos e indianos nos permitem ter um vislumbre disso tudo. Percebi que os músicos mais espiritualizados costumam tocar sempre músicas polirrítmicas e com tempos diferentes (como 7, 11 e 13). Ótimos exemplos são as melodias da Mahavishnu Orchestra: 5, 7, 9, 13, 17, 19… As músicas do Glen Velez também são praticamente todas polirrítmicas.
Treinando esta percepção rítmica, sutil, você acaba mudando totalmente sua visão, seu corpo, sua postura. O mundo todo começa a girar diferente e os conceitos de unidade, não-dualidade, dualidade, se dissolvem diante de uma liberdade indizível.
Nesse vídeo eu aplico a polirritmia na bateria.
Mais sobre isso no meu blog sobre ritmo: www.takadime.com
por Gustavo Gitti | 04/06/2004 23:36 |
A melodia mais triste e mais feliz que eu já ouvi. O chorus conta aquela história mítica do tempo antes do tempo, e vai até o futuro do futuro, o tempo depois do tempo. De início, ela parece simples, mas no momento em que a frase do Chorus deveria terminar, o McLaughlin deu uma estendida e isso muda toda a música.
Por ser em 3/4, passa uma idéia de valsa, mas uma valsa suprema. Para mim, todos os mundos são criados ao som de Lotus Feet. É uma precisão carinhosa, uma postura impassível. Deveríamos sempre olhar os seres com esta melodia. Se eu pudesse escolher a música ambiente para o planeta inteiro…
Quando o Kosmos resolveu acordar, Lotus Feet foi seu primeiro gemido.