Denise Stoklos – Olhos recém-nascidos

por Gustavo Gitti | 20/09/2004 11:56 | Comente!

“Não é ficção, mas fricção o que me interessa na relação com a platéia. O ator é apenas a antena, não é o ego dele. O “eu” é o “eu” da platéia.” (Denise Stoklos)

Fui ver no domingo. Denise Stoklos ousou bastante nesse espetáculo. Achei que não tem o mesmo impacto de seus outros solos, nem o mesmo nível de ritual xamânico, mas estamos falando de Denise Stoklos!

É tão inovador que o público não sabe direito como reagir. Nós rimos, às vezes não sabemos se choramos, mas não temos noção do que fazer diante de nós mesmos.

Se na maioria das peças, o público é passivo, Stoklos faz com que fiquemos desconfortáveis ao nos possibilitar uma posição ativa, jogando o público para o palco e fazendo cada um ver a si mesmo nos olhos dela.

Pra quem está em Sampa, vale a pena e é gratuito (mas é bom chegar mais de uma hora antes para pegar ingresso e pegar um bom lugar na fila):

Sábados e domingos, às 16h (18/09 a 05/12)
Teatro Popular do Sesi (av. Paulista, 1.313, 3146-7405)

ALDEOTAS, de Gero Camilo

por Gustavo Gitti | 18/09/2004 17:28 | Comente!

Fui ver esta peça num lugar a uns 800 metros de onde moro, chamado Teatro do Centro da Terra. É isto mesmo: para entrar você tem de descer quatro lances de escada em um escuro total (com fumaça para piorar a visão), ouvindo um som que parece vir do centro da terra! É uma experiência totalmente imersiva.

No final, você bate na porta e alguém abre. Ficamos esperando em um hall bem amplo, com gente bem maluca. Estava ali também o Rodrigo Santoro, amigo de Gero Camilo, com quem contracenou em dois filmes.

A peça é algo inesquecível, de uma poesia quase igual a de Guimarães Rosa. Olha só o trecho inicial:

“Um dia desses na vida, depois de bastante ter ido, regressei aldeota de amigos. Tinha quase outro olho. Era tudo mesmice de boa gente. A casa, a rua, passeios de adormecer de sol. Até o tempero era o mesmo, banhando a boca de desejo de comida de mãe. Era tempo aquele”

No fim da vida, ensina Camilo, todos nós seremos chamados pelo nosso verdadeiro nome (o dele era “Obaiê”) pelos meninos que brincam no centro da Terra. E eu não tenho motivos para duvidar disso!