Good times, bad times…

por Gustavo Gitti | 05/07/2007 11:49 | Comente!

Momentos de depressão ou êxtase, quando você se dá bem ou se dá mal… É tudo como no sexo: em cima ou embaixo, você se fode de qualquer jeito.

Dzongsar Rinpoche sobre o sentido da vida

por Gustavo Gitti | 03/07/2007 14:11 | Comente!

“Não é apropriado perguntar a um budista: “qual é o propósito da vida?” porque isto sugere que em algum lugar fora daqui, talvez em uma caverna ou no topo de uma montanha, existe um propósito último. Esta questão sugere que nós poderíamos decodificar o segredo estudando com santos vivos, lendo livros, ou dominando práticas esotéricas.

Budistas não acreditam que há um deus criador, e não tem este conceito de que o sentido da vida foi, ou precisa ser, definido. Uma pergunta mais adequada para fazer a um budista é simplesmente “o que é vida?”. Do nosso entendimento sobre impermanência, a resposta poderia ser óbvia: “vida é um grande conjunto de fenômenos reunidos, e assim vida é impermanência”. É uma mudança constante, uma coleção de experiências transitórias. E mesmo que existam miríades de formas de vida, uma coisa todos temos em comum, que é que nenhum ser vivo deseja sofrer. Todos nós queremos ser felizes, desde presidentes e bilionários a formigas trabalhadoras, abelhas e borboletas.

É claro que, a definição de “sofrimento” e “felicidade” difere muito entre as formas de vida, mesmo dentro do relativamente pequeno reino humano. A definição de sofrimento para uns é a definição de felicidade para outros e vice-vesa.

Mesmo para um único indivíduo, a definição de felicidade e sofrimento flutua. Um leve-emotivo momento de flerte pode repentinamente mudar quando alguém deseja um relacionamento mais sério; esperança se torna em medo. Quando você é uma criança na praia, fazer castelos de areia é felicidade. Quando adolescente, olhar as garotas de bikini e os garotos surfistas com peitos grandes é felicidade. Na meia-idade, dinheiro e carreira são felicidade. E quando você está nos oitenta, colecionar vasos de cerâmica é felicidade. Para muitos, abastecer estas infinitas e sempre-mutáveis definições é o “propósito da vida”.

Dzongsar Khyentse Rinpoche, in What makes you not a budhist

Vídeo sobre a prática espiritual

por Gustavo Gitti | 09/06/2007 5:47 | Comente!

Excelente, pois não cai no senso comum new age. Sem spoilers, posso apenas dizer: o que define tudo é o que aparece na mão dele ao fim. Havia duas opções ali e felizmente escolheram a mais sofisticada.

Transcender o ego: é simples assim?

por Gustavo Gitti | 08/06/2007 14:24 | Comente!

Na lista Transconhecimento, surgiu a idéia de que a prática espiritual e a meditação se resumem em transcender o ego. Abaixo minha resposta:

O irônico é que saber disso tudo é (quase) inútil. Só não é totalmente inútil porque o *início* da visão *começa* a nos levar a *talvez* tentar *um dia* experimentar de fato a meditação. E o início da meditação começa a nos levar a talvez tentar um dia experimentar de fato a ação lúcida no mundo.

Esse início (ou tentativa) já basta para percebermos que a coisa não é bem assim. “Transcender o ego” é bonito, mas vago. Transcender o orgulho é mais específico, por exemplo. Juntar-se aos outros quando eles humilham você, eis uma instrução mais direta. E por aí vai…

Nossos venenos mentais, obstáculos e condicionamentos (apesar de não serem “nossos” propriamente) impedem uma vida livre, sábia, alegre e compassiva. O caminho não é só de um passo: “Transcend your ego, there is God: a 4-day workshop to complete enlightenment!”.

Esse “transcender o ego” não é sempre mesmo. Há pelo menos dois níveis para ele e mesmo o segundo não é final, é apenas a superação de algo mais sutil, longe da iluminação. Os dois níveis a que me refiro são bem exemplificados por duas citações:

“How does one transcend himself; how does he open himself to new possibility? By realizing the truth of his situation, by dispelling the lie of his character, by breaking his spirit out of its conditioned prison. The enemy, for Kierkegaard as for Freud, is the Oedipus complex. The child has built up strategies and techniques for keeping his self-esteem in the face of the terror of his situation. These techniques become an armor that holds the person prisoner. The very defenses that he needs in order to move about with self-confidence and self-esteem become his lifelong trap. In order to transcend himself he must break down that which he needs in order to live. Like Lear he must throw off all his “cultural lendings” and stand naked in the storm of life. Kierkegaard had no illusions about man’s urge to freedom. He knew how comfortable people were inside the prison of their character defenses. Like many prisoners they are comfortable in their limited and protected routines, and the idea of a parole into the wide world of chance, accident, and choice terrifies them.” –Ernest Becker, no excelente Denial of Death (aliás, leiam esse livro!).

“The main point of any spiritual practice is to step out of the bureaucracy of ego. This means stepping out of ego’s constant desire for a higher, more spiritual, more transcendental version of knowledge, religion, virtue, judgment, comfort, or whatever it is that the particular ego is seeking. One must step out of spiritual materialism.” –Chogyam Trungpa, no igualmente excelente Cutting Through Spiritual Materialism.

No primeiro nível, há uma liberação existencial das amarras sociais, daquilo que fizeram de nós. Esse grau de liberdade é maravilhoso, mas é só isso: um grau de liberdade. Nesse ponto ainda temos orgulho, raiva, etc.

No segundo nível, a pessoa já está praticando por um bom tempo, mas sempre sob o fundo do materialismo espiritual (tendência que Trungpa diagnosticou em seus alunos americanos hippies e hoje isso se aplica ainda mais). Transcender o ego é liberar a noção de esperança pela iluminação, de conforto e de um conhecimento supremo. Depois disso, há muita prática ainda. ;-)

Mesmo depois da iluminação, há a prática. Na verdade, ela é o começo da prática! Buda sentou por 6 anos de modo obstinado, mas sua verdadeira prática aconteceu quando ele levantou e passou décadas ensinando a liberação para as pessoas.

Para nós também. Sentar é bom, mas a prática autêntica está nas outras 23h de nosso dias. Eis um ótimo koan: quando se levanta, para onde você vai?

CEBB SP: site e práticas

por Gustavo Gitti | 08/06/2007 13:54 | Comente!

Terminei hoje o novo site do Centro de Estudo Budistas Bodisatva São Paulo, orientado pelo Lama Padma Samten. O site antigo já estava impossível de atualizar e bastante, well… antigo.

Dentre as práticas, as mais diferentes são a direcionada aos jovens (“Budismo com Atitude: um projeto com arte tudo“) e a sanga kids que vai começar em breve (“Meditando e Brincando“).

Vou retomar o prática do cinema dia 30/6, com o filme Minha Vida Sem Mim.

E para quem quiser um aprofundamento na meditação, todo domingo tem 3h de silêncio.

Meditação vipassana em prisão indiana

por Gustavo Gitti | 14/05/2007 18:55 | Comente!


Li essa matéria na Folha e lembrei do retiro que fiz de Vipassana em 2002.

Tem um documentário muito interessante sobre isso chamado Doing Time, Doing Vipassana (disponível no eMule).

Esse tipo de Vipassana é ensinado exatamente da mesma forma em todos os centros de retiro do mundo, de acordo com os ensinamentos de S. N. Goenka. Aqui no Brasil o site oficial é esse: www.portuguese.dhamma.org.

Quando eu fiz, um monge beneditino dormia ao meu lado. Era cristão, mas adorava meditar. Era o quinto retiro dele! De fato, a técnica é ensinada de modo não-sectário e o próprio Goenka fala sobre isso:

“This can be practiced by one and all. Everyone faces the problem of suffering. it is a universal disease which requires a universal remedy–not a sectarian one. When one suffers from anger, it is not a Buddhist anger, Hindu anger, or Christian anger. Anger is anger. When one become agitated as a result of this anger, this agitation is not Christian, or Hindu, or Buddhist. The malady is universal. The remedy must also be universal.”

Shentong e Prasangika Madhyamaka

por Gustavo Gitti | 26/04/2007 1:55 | Comente!

Fiquei muito feliz quando Lama Samten disse que a visão filosófica que sustentava seus ensinamentos era a Shentong. Desde que conheci o Budismo, venho admirando o poder da escola Prasangika Madhyamaka. A diferença teórica está na aplicação da vacuidade: na visão Prasangika, ela se aplica a tudo; na Shentong (emptiness of other) ela não se aplica à natureza última. Ou seja, todos os fenômenos relativos são vacuidade e não possuem existência/essência inerente, porém a natureza absoluta não funciona assim. Ela é luminosa, presente, incessante. Sua vacuidade nada é senão sua luminosidade.

Diz Dudjom Rinpoche:

“The Madhyamaka of the Prasangika and the Svatantrika is the coarse, outer Madhyamaka. It should indeed be expressed by those who profess well-informed intelligence during debates with extremist outsiders, during the composition of great treatises, and while establishing texts which concern supreme reasoning. However, when the subtle, inner Madhyamaka is experientially cultivated, one should meditate on the nature of Yogacara-Madhyamaka.”

Minha conexão com a Madhyamaka vem de meu impulso intelectual freak. Talvez agora, tentando meditar mais, comece a entender um pouco esse lance aí de Shentong… ;-) Ah, tem um blog cheio de textos sobre esse tema.