Contardo Calligaris "com o mínimo de paranóia"

por Gustavo Gitti | 16/02/2007 17:48 | Comente!

“Eu diria que o essencial é tentar pensar os problemas e as dificuldades do presente com o mínimo possível de paranóia. Ou seja, pensando que a origem dos problemas está, antes de mais nada, e sempre antes de mais nada, dentro da gente e não em algum agente externo, mesmo se a opressão de algum agente externo aparece. Em última instância, o maior obstáculo, inclusive na tentativa de se opor a um eventual agente externo, está sempre dentro de nós.” –Contardo Calligaris [PDF]

Babel e o Centro do Mal

por Gustavo Gitti | 02/02/2007 20:05 | Comente!

BabelO que você faria se encontrasse o responsável por todos os males, crimes, injustiças e catástrofes da humanidade?

A garrafa de whisky custava exatos 199 reais. Um dos meninos olhou, tateou e se afastou. O outro, irritado, meteu a mão, aproximou do limite da prateleira e deixou ali. “Vai, pega!”. Mas ele mesmo foi e pegou. Na fila do caixa, diante de todos, sem tentar esconder, ele colocou a garrafa embaixo da camiseta e andou lentamente para fora do supermercado. Pelo menos umas cinco pessoas viram tudo acontecer de perto e fingiram uma aparente ingenuidade. Quem se camuflava e se escondia ali eram os cidadãos da classe média e não os ladrões! Eles me pediram licença, eu hesitei, abri espaço e esperei os dois saírem para avisar um funcionário. Pensei que seria melhor eles se darem mal agora com um whisky do que futuramente com uma vida em mãos. Fui para casa lembrando dos olhos do menino que pegou a garrafa, assustado com qualquer pessoa ao redor, tomado pelo medo e pela certeza de que, sim, as coisas podem dar errado, bem errado, e que não há nenhuma justiça suprema nos protegendo.

Semana passada assisti ao genial Babel, fruto da mesma parceria (Alejandro González Iñárritu e Guillermo Arriaga) que gerou o igualmente excelente 21 Grams. Babel (no spoilers ahead, podem ler despreocupados) é ainda mais deserto e sem esperança do que seu antecessor. Um longo repouso na dor, uma meditação analítica sobre o sofrimento e sua insubstancialidade, sobre a culpa e sua inexistência. Ao contrário do que enfatizou a mídia, a força do filme não está em discutir culturas e barreiras ou a interdepedência dos tecidos humanos (tão bem explicitada por filmes como Crash, Magnolia ou pelo próprio 21 grams). É algo muito mais simples: nos comovemos ao perceber como as coisas, inevitavelmente, dão errado e como não há ninguém para culpar.

Em Magnolia, aliás, há uma cena emblemática: um dos personagens gasta todo seu dinheiro para colocar aparelho nos dentes e pouco tempo depois cai com a boca no chão, quebrando toda a arcada superior. Well, shit happens, e simplesmente não há nenhuma saída para isso. Para além do pessimismo (que esconde uma esperança das coisas darem certo), essa é uma perspectiva liberadora pois nos força a repousar na incerteza. Com ela em mente, é possível se livrar das características de filhos mimados que confiam em um pai e mãe superiores e encontrar uma saída que seja verdadeiramente autônoma e transcendental, além do domínio dos fenômenos, além do alcance da merda. É a base, por exemplo, da Acceptance and Commitment Therapy – ACT (lê-se como “ação” em inglês, não como sigla), desenvolvida por Steven Hayes, psicólogo e professor da Univerdade de Nevada. Para tal treinamento de liberdade, temos de enfrentar aquilo do qual fugimos e contemplar detalhadamente a face do mal.

O menino do mercado poderia ter se desesperado e matado uma mulher. Seu marido culparia o menino, a desigualdade social, a economia, os seguranças do mercado, Deus ou a si mesmo (por ter levado a esposa aquele dia para as compras)? O marido poderia matar o menino logo em seguida. Quem você culparia? Isso ocorre todos os dias e não é nenhum absurdo que seja assim. Babel mostra o que aconteceria se investigássemos cada crime, cada morte, cada injustiça, cada atrocidade e encontrássemos, enfim, o grande culpado por tudo. No filme, temos a chance de olhá-lo nos olhos.

Pois saibam que a fonte de toda negatividade, o centro do mal, o criminoso supremo que Hitler mal conseguiu imitar, é um menino marroquino que ri, se masturba, se apaixona e sente o vento de braços e poros abertos. E, antes que perguntem, não estou brincando, sendo irônico ou querendo dizer outra coisa. Isso não é uma metáfora. O centro do mal é um menino. É ele o responsável por todas as mortes, roubos, desastres, catástrofes, problemas, seqüestros, bombas e acidentes afins. O filme também nos oferece a oportunidade, inédita, de matá-lo. Nós com uma metralhadora e ele de braços para cima assumindo em voz alta todos os crimes já ocorridos em todos os tempos e espaços humanidade afora.

Infelizmente não conseguimos (podemos, mas não desejamos) matar o menino. Ele é por demais bom. Sua natureza não é má. Ao olhar a fragilidade e docilidade do menino, eis que algo que se torna óbvio: o centro do mal não existe. Não temos sequer um inimigo a combater senão nossa própria cegueira em ver inimigos em todo lugar! Voltando ao argumento da saída transcendental, agora é fácil entender que temos de parar de buscar um local seguro que não seja atingido pelo mal. Haverá mal onde houver cegueira: ele nos perseguirá até o topo da montanha encantada da felicidade.

A saída é encontrar o menino que incessantemente aponta para nossa natureza livre e luminosa, que desde sempre está além de qualquer negatividade, além de bem e mal, intocada pela merda. No mundo construído do “shit happens”, cada coisa nasce e morre, cada coisa sofre e se desespera, enquanto nossa verdadeira natureza assume e desconstrói todos os pecados, perdoa a si mesma logo de saída e sorri para cada desastre ao ver que todos ali estão livres das bombas, que seus verdadeiros corpos não nasceram e não serão destruídos. Somos, cada um de nós, o menino que se masturba e se apaixona. Quem, então, poderemos culpar?

“Sob o ponto de vista convencional, não negamos o bem e o mal, noção que consideramos verdadeira. Mas afirmamos que, sob o ponto de vista absoluto, sob uma visão última, não há um centro do mal. O que existe, sob o ponto de vista absoluto, é a compreensão de que a nossa natureza não pode ser afetada pelas circunstâncias que afetam nossas identidades e nosso corpo. Portanto, sob o ponto de vista da natureza última, não há nada que nos derrube, nos afete, nos destrua. Olhando em qualquer direção, não vamos localizar uma origem de mal, vamos ver apenas uma natureza ilimitada vitoriosa, que não pode ser atingida. É uma perspectiva muito importante, pois não vamos trabalhar com a noção de que há um centro do mal, ou que há um complô que deseja afundar o navio, ou que as pessoas querem a infelicidade ou querem justamente o sofrimento. Não vamos trabalhar com essa noção. Isso não é muito simples, pois esta noção de exclusão, de mal, está muito arraigada dentro de nós — a idéia de que precisamos de uma espada ou um revólver e assim tudo vai ficar melhor.” –Lama Padma Samten

* Texto publicado na revista de pensamento budista Bodisatva nº 15.

Perdão – Lama Samten

por Gustavo Gitti | 26/12/2006 23:48 | Comente!

“O não culpar é o perdão. O perdão que perdoa não é o verdadeiro perdão.” (Lama Padma Samten)

Self-made man

por Gustavo Gitti | 22/12/2006 15:18 | Comente!

Em uma sociedade que valoriza o self-made man (o cara que começa vendendo cachorro-quente e vira empresário bilionário), minha vida atua conforme uma lógica completamente oposta. Todas as coisas que dão certo para mim aparecem quando eu não me coloco na posição de self-made man, quando não faço esforço algum. Pelo contrário, quando ajo como self-made man, quando sou EU quem faz as coisas, minhas estatísticas internas mostram que em 90% dos casos eu me dou mal.

Se eu quero saber se estou tomando a decisão certa, basta que eu me pergunte: “Você fez algum esforço? Essa foi uma idéia exclusivamente sua? Tudo surgiu de você?”. Se a resposta for positiva, é melhor eu tomar cuidado…

Não fiz esforço algum e nem me dediquei para as grandes coisas que surgiram na minha vida. O emprego atual (estou lá há 4 anos) foi indicação de um amigo. Nem precisei levar currículo, me cadastrar na Catho ou participar de processos seletivos. A namorada atual (mais de 4 anos) veio até mim e quis ficar comigo mesmo quando eu fazia tudo errado para afastá-la. Sem esforço algum, no self-made man.

A casa onde morei por 2 anos foi encontrada por um amigo. O apartamento onde estou agora não fui eu quem achou. Não, a minha exaustiva procura não deu em nada. Um dia uma amiga me liga e passa o telefone de uma conhecida (que ela não via há tempos, mas esbarrou na rua). Eu ligo e em uma semana o apê é meu. Sem burocracia, sem esforço.

Lama Samten diz que se quisermos andar rápido, é melhor andar devagar. Ele ensina que devemos nos posicionar e deixar que o universo gire. Eu não tenho essa sabedoria, mas confio que seja assim. Por enquanto, está dando certo, justamente porque o curso das coisas não depende de mim, não está na minha mão. Tudo seguirá bem enquanto eu não estiver no controle, enquando eu não for dono de minha vida, enquanto nenhum self-made man existir por aqui.

Sobre Chão e Nuvens: Lost e o sentido da vida

por Gustavo Gitti | 22/11/2006 18:49 | Comente!

“Me, well, I’m a man of faith. Do you really think all this… is an accident? That we, a group of strangers survived, many of us with just superficial injuries? Do you think we crashed on this place by coincidence, especially this place? We were brought here for a purpose, for a reason, all of us. Each one of us was brought here for a reason.”

“The island. The island brought us here. This is no ordinary place, you’ve seen that, I know you have. But the island chose you, too, Jack. It’s destiny.”

(Falas do personagem Locke, na série Lost)

Acabei de assistir novamente ao último episódio da segunda temporada da série Lost (não se preocupem: “no spoilers ahead”). É fascinante observar a relação de cada personagem com os mistérios da ilha. Ao se perguntarem sobre o significado de tudo, eles se mostram caricaturas perfeitas dos seres humanos. Cada um de nós acredita com todas as forças em algum roteiro, em algum sentido, em uma mitologia pessoal que nos conforta e encaixa todas as peças perdidas em nossa mente, todos os retalhos de nossa história. Nós não só acreditamos que algo de fato aconteceu, mas agimos defendendo tal crença (observe os personagens Locke e Eko diante do contador).

Uma das coisas que gosto nos teóricos do neodarwinismo, como Daniel Dennett, é essa total ausência de télos, de sentido último, de finalidade. Não há Deus, não há natureza humana, não há ponto de referência algum, segurança alguma, fundamento nenhum. Não há nenhum princípio eterno, nada transcendente. Estamos sós, estamos jogados no mundo, estamos lost. É quase um existencialismo com bases biológicas. É quase um Budismo, mas sem as terceira e quarta nobres verdades (sem 90% do Budismo) – ensinamentos que focam a liberdade por meio da percepção da luminosidade e vacuidade dos fenômenos.

Se você observar o tecido social se movimentando, verá que cada um está buscando fazer sua própria revolução, cada um tentando fazer sua história, obter sucesso, etc. Justificamos nossas ações com nosso télos pessoal (o sentido da vida imanente às nossas crenças). Queremos ser PhDs, ganhar muito dinheiro, ter muito tempo livre e ser respeitados e amados. Basicamente é esse nosso objetivo. Gastamos todas as nossas energias nesse processo. Nossas metas e os caminhos que nos levam até elas são definidos por nosso télos, nosso sentido último para a existência. Fazemos um grande e incessante esforço para negar nossa condição lost e construir castelos de areia em cima de nosso auto-engano. Sem querer, viramos prisioneiros de nosso próprio destino, fechados em nossa microrevolução, condenados a repetição de scripts pré-fabricados coerentes com o sentido da vida que acreditamos ser concreto.

O que poucos percebem é que se alguém for bem-sucedido nesse caminho, será apenas um entre trilhões de seres que conseguiram chegar até o fim de seus castelinhos de areia, até o último ornamento, até a última torre, antes da próxima onda derrubar tudo. Seres que continuaram insatisfeitos e morreram ainda se esforçando para não ver que seus castelos eram de areia. Nossos télos pessoais não nos levam a lugar algum e não contribuem em nada para aqueles que não compartilham dele. Se eles ainda nos fizessem felizes… Mas nós mesmos somos os principais prejudicados: “Quando eu comprar meu apartamento, aí sim as coisas vão melhorar e eu vou poder relaxar e curtir a vida”; “Quando acabar a semana de provas, ficarei mais aliviado”; “Quando eu arranjar um bom trabalho, aí sim!”. Eu já ouvi inúmeros “aí sim” e alguns “agora sim!” que não duraram mais de uma semana. Você já conheceu alguém que disse “agora sim!” e ficou, simplesmente ficou aliviado por meses seguidos?

Se pudéssemos analisar cada momento, detalhada e exaustivamente como um cientista, veríamos que nossa vida não tem sentido algum. Nossa revolução pessoal é completamente dispensável. Nessa postura sem saída, começamos a não mais colocar tanta energia em nossa busca por um sentido, tantas movimentações para conseguirmos nosso sucesso. Qual o sentido então para viver? Devemos todos nos suicidar? Essas duas perguntas mostram bem o quanto sentimos que precisamos de um sentido para viver, de um chão seguro para andar. O suicídio é também motivado por algum télos. Sem télos pessoal, sem frustração. Qual o sentido em se suicidar? O verdadeiro cético não se mata. Ele sorri.

E então, do existencialismo cortante, do neodarwinismo cru, da ausência de chão budista, pode naturalmente surgir uma disposição incessante. Como não estou tão focado em realizar meus sonhos samsáricos, posso olhar para fora e observar cada ser em seu trajeto rumo à felicidade, seguindo seu télos pessoal. Antes não tínhamos tempo nem energia para ajudar os outros. Agora temos tempo, energia, mãos e olhos — estamos finalmente disponíveis. Tal energia vem do alívio de superar o esforço, abandonar o constante auto-engano e simplesmente tocar a areia de nossos castelos e sentir as nuvens sob nossos pés. O que antes era chão definido, agora é nuvem que toma várias formas. O chão tinha a face de nossos medos e essa contração amedrontada era a base de nosso télos. As nuvens têm a forma de nossos sonhos. A ausência de chão nos libera para sonhar na medida em que nos desperta para a natureza onírica de nossa vida, para a textura deliciosa da areia de nossos castelos, para o frescor do mar que vem nos derrubar.

Aprendemos lentamente, como um bebê, a pronunciar: “O que eu posso oferecer?”. Imbricada em outras, aí sim nossa vida ganhará sentido — não apenas um, mas vários. Na ilha de Lost, vemos Locke agindo de acordo com sua crença em um fundamento e sempre buscando um sentido para sua vida, o significado real da ilha. O que aconteceria se ele acordasse para a ausência de fundação, para a inexistência de um significado último? Libertando-se de suas próprias memórias, de sua coerência interna que impulsionava suas ações, ele poderia se interessar pelas memórias dos outros, por suas histórias, coerências e ações. Para acordar e levantar, ele não mais precisaria pensar que a ilha é um milagre e que há um destino. Ele, como nós, não precisa de um chão para andar. Bastam nuvens para sonhar. E ele sonharia com sorrisos na face de todos os ilhados, não porque é esse o sentido último da ilha mas simplesmente porque esse é um bom sonho, uma imagem que o faz sorrir também. Locke não mais sairia em busca de seu destino, mas buscaria se inserir positivamente em cada destino sendo perseguido pelos seres ao seu redor. Em cada inserção, em cada conexão estabelecida, novos mundos surgiriam, novas formas das nuvens, novos sonhos sustentados coletivamente. Sua vida, enfim, seria enriquecida naturalmente, sem a necessidade alguma de sucesso, fama ou dinheiro. Na ilha de Lost é mais fácil entender que o sentido de uma vida surgirá sempre em sua conexão com outra.

Chegamos, então, a uma conclusão curiosa: o sentido da vida leva a uma vida sem sentido, e a ausência de sentido da vida leva a uma vida com sentido, uma existência significativa. Isto porque tal sentido transcendental, justamente por não ser sentido algum (vazio de significado, pura abertura), pode se expressar em uma rica multiplicidade de sentidos imanentes, mundanos, o que sacia até mesmo a nossa busca original!

Presos em uma jaula, sem ninguém lá fora, sem nenhum Deus, sem esperança alguma de descobrir o sentido de tudo, segurando apenas a certeza da morte, dois seres se beijam. Na ausência total de chão, nossa condição natural, eles não se matam, não se desesperam, não choram, não se deprimem: eles se beijam. Sem bondade cósmica, quando tudo explode em sangue e nada faz sentido, só nos resta a arte, só nos resta o amor, só nos resta nossa humanidade (não a inata, mas aquela que construímos a cada instante, diriam os existencialistas). Sem chão, restam nuvens sob nossos pés. Sem Deus, restam todos os outros, cada mundo, cada pessoa ao nosso redor. Sem roteiro último, os roteiros dos filmes ficam mais interessantes, mais reais — e o nosso próprio roteiro, em uma lógica inversa, mais interessante por se desvelar mais onírico. Os castelos continuam sendo de areia, mas agora não precisamos xingar as ondas. Podemos nós mesmos pisar em cada torre e sair andando pela praia. Continuamos ilhados, sempre, mas não há necessidade de resgate. Apenas ficamos e sorrimos. “Agora, sim!”…

* Publicado na revista de pensamento budista Bodisatva nº 17.

"The game of life is to find each situation workable…"

por Gustavo Gitti | 07/09/2006 14:38 | Comente!

“The game of life is to find each situation workable, to transform each occasion through the magnification of love, to give your fullest gift in every moment, and to have no attachments to the outcome, knowing it’s all going to rise and fall and rise again. You have mastered women and the world when no desire either to avoid or attain sways your loving or limits your freedom.” (David Deida, The Way of the Superior Man)

Lady in the Water: a magia do sonho coletivo

por Gustavo Gitti | 04/09/2006 1:42 | Comente!

A Dama na Água

“As pessoas estão presas, mas quando nós as vemos presas nós as aprisionamos, damos nascimento a elas como pessoas presas. Mas elas não estão presas! Elas pensam que estão presas e eu também penso que elas estão presas. Por isso, nós não permitimos que elas surjam livres.

Então o primeiro passo é vermos aqueles seres livres. Quando desenvolvemos essa visão, nós vemos a devastação do karma, porque nós, de modo geral, olhamos as outras pessoas e as aprisionamos com nossos olhares. Nós não permitimos lugares às pessoas, não damos nascimentos de liberdade para elas. Nós congelamos elas. Nós vemos a devastação do que significa dar nascimento inferior aos outros, e a devastação que isso causa para nós porque tentamos aprisionar o outro à nossa visão e ele anda, e aí temos sofrimentos no meio de tudo isso.

Nós vemos como é maravilhoso agora nós olharmos essas pessoas todas e agora nós vamos dar nascimento elevado para eles. Ou seja, eles podem, eles têm qualidades, todos eles têm a natureza de liberdade, eles podem fazer diferente do que estão fazendo. Nós começamos a pensar também assim. Não só vemos a paisagem, como na nossa mente começamos a raciocionar e podemos até dar sugestões, facilitar coisas, para aquele ser comece a se manifestar segundo essas qualidades que nós negávamos.

Então, quando nós damos esse nascimento sutil a partir de uma paisagem que inclua o outro de uma forma elevada, tudo se transforma.”

Lama Padma Samten

[No spoilers para quem ainda não assistiu, leia sem receios]

Uns adolescentes rindo na fileira de trás. Não sei se tiravam sarro do filme ou de mim, que chorava. Esse é o espírito de Lady in the Water, o novo do M. Night Shyamalan. Se você aceita ser criança e se está acostumado a viver mitos, o filme se desenvolve como uma obra-prima. Se vive factualmente como um adulto comum, não há envolvimento e as cenas mais significativas passam a ser as mais engraçadas, clichês patéticos, ridiculamente inverossímeis.

O roteiro do filme é baseado em uma história que o diretor contava para seus filhos. Virou livro. Assim como em seus outros filmes, o tema espiritual é bastante claro e pode ser interpretado tanto por um viés mais judaico-cristão quanto por um olhar budista. “Propósito”, “missão na Terra”, “destino”, diriam alguns cristãos ou alguns kardecistas. Mas prefiro pensar que o filme fala algo mais simples ainda: como um ser pode adentrar uma pequena comunidade e instalar ali a magia da liberdade e um espaço de acolhimento e de amor – aqui entendido como a capacidade de ver as qualidades positivas dos outros e desejar que elas aflorem.

Assim como Sinais não era sobre extraterrestres e A Vila não tinha nada a ver com isolamento social, A Dama na Água também não é uma história sobre ninfas e monstros. É um ensinamento para que possamos agir com liberdade de visão, reconhecer qualidades nos outros e trabalhar para que elas se desenvolvam.

Em vez de propósito pré-definido, os seres possuem apenas configurações cármicas (o simples fato de ser homem ou mulher é um deles). Curiosamente, é justamente desses condicionamentos, inicialmente aprisionantes, que nascerão os meios hábeis específicos para nossa atuação no mundo. Se hoje sou um esquizofrênico, quando curado terei muita habilidade para tratar loucos. Se hoje lidero com facilidade minha gangue de traficantes, amanhã poderei liderar um projeto pela paz. Ou seja, quando a lucidez passar por seu corpo e mente, haverá apenas um Buda como você — e o mundo precisa urgentemente de todas as nossas habilidades inundadas de sabedoria e compaixão.

Nosso propósito não está definido, já diziam os existencialistas. Temos de nos observar e perceber quais são nossas habilidades e como podemos servir a essa inteligência que faz as coisas funcionarem, a esse amor que faz as galáxias girarem e as abelhas polinizarem as flores. “O que eu tenho a oferecer?” parece ser a pergunta-chave para nos abrir ao mundo e para que o mundo se abra a nós. Quando direcionado com um olhar ao outro (“O que ele pode oferecer?”), é também a pergunta que o faz irradir o seu melhor, e cujas respostas o abrem para nós e para ele mesmo.

O percurso do filme deixa claro que nossas histórias não fazem sentido nelas mesmas e, principalmente, que nossas habilidades e identidades são inúteis dentro de nossa própria história! Nossos sonhos individuais são estéreis e fadados à decadência. Nossas histórias e nossas habilidades são parte de um sonho coletivo; temos apenas de trazê-lo à tona, encarnar o mito.

Vivemos uma vida com sentido na medida em que nos conectamos com os outros usando o melhor de nós e quando, com nossa simples presença, fazemos surgir o melhor de cada um. Nossas mãos são a sabedoria. Nossa pele, a compaixão.

Em uma das falas finais do filme, vemos que salvamos a vida do outro quando a acolhemos, percebendo o que ela pode vir a ser e ajudando o outro a nascer dentro desse novo sonho mais elevado, mais virtuoso. Podemos nos salvar uns aos outros, infiltrar magia por todo lado e nos entregarmos a novos mitos, como crianças brincando de faz-de-conta. A natureza onírica e insubstancial do real nos permite isso: que imaginemos, fantasiemos e criemos uns aos outros, como que em uma inverossímel fábula na qual todos desejam acreditar.

* Publicado na revista de pensamento budista Bodisatva nº 16.