por Gustavo Gitti | 28/04/2006 17:10 |
A expressão “vai saber?” é perfeita. Não há nada a acrescentar. Ela manifesta a sabedoria de sentir-se em casa na incerteza, expressa o destemor de encarar qualquer situação com aquela curiosidade que sustenta nossa abertura a tudo… A letra fala de impermanência e vacuidade sob uma perspectiva de confiança, nada niilista — algo igualmente presente na melodia da música.
Vai Saber?
Marisa Monte
Album: Universo ao meu redor
Composição: Adriana Calcanhotto
Não vá pensando que determinou
Sobre o que só o amor pode saber
Só porque disse que não me quer
Não quer dizer que não vá querer
Pois tudo o que se sabe do amor
É que ele gosta muito de mudar
E pode aparecer onde ninguém ousaria supor
Só porque disse que de mim não pode gostar
Não quer dizer que não tenha do que duvidar
Pensando bem, pode mesmo
Chegar a se arrepender
E pode ser então que seja tarde demais
Vai saber?
por Gustavo Gitti | 08/04/2006 14:27 |
“Há quatro elementos essenciais em nossa prática: verdade, coragem, esforço e paciência. A capacidade de ver as coisas como são é a verdade. Manifestar nossa ação e nossa existência segundo esta verdade é a coragem. Perseverar na prática da verdade e coragem é o esforço. Fazer isto sem pensar nos resultados, sem ficar avaliando a si mesmo, sem culpar-se e sem culpar os outros, sem culpar a sorte, sem lastimar as situações vividas ou o mundo ao redor, é a paciência.
Faltando a verdade, o caminho é interrompido. Sem coragem também não vamos adiante. Sem perseverança logo desistimos. Sem paciência ficamos amargos e sofremos. Com verdade, coragem, esforço e paciência, a liberação já está presente.”
Lama Padma Samten, Relações e Conflitos. Viamão: Mandala do Lótus, 2006.
por Gustavo Gitti | 24/03/2006 15:01 |
Two Activities: One at the Beginning, One at the End
Pema Chodron
At the beginning of your day when you wake up, express your aspiration: “May I practice the three difficulties. May I see what I do. When it happens, may I do something different, and may that be a way of life for me.” At the beginning of your day, using your own language, you could encourage yourself to keep your heart open, to remain curious no matter how difficult things get.
Then at the end of the day when you’re just about to go to sleep, review the day. Rather than using what happened as ammunition for feeling bad about yourself, about how the whole day went by and you never once remembered what you had aspired to do in the morning, you can simply use it as an opportunity to get to know yourself better and to see all the funny ways in which you trick yourself, all the ways in which you’re so good at zoning out and shutting down.
If you feel like you don’t want to practice the three difficulties anymore because it’s like setting yourself up for failure, generate a kind heart toward yourself. Reflecting over just one day’s activities can be painful, but you may end up respecting yourself more, because you see that a lot happened; you weren’t just one way. As Carl Jung said at the end of his life, “I am astonished, disappointed, pleased with myself. I am distressed, depressed, rapturous. I am all these things at once and cannot add up the sum.”
From Start Where You Are: A Guide to Compassionate Living by Pema Chodron, Copyright 1994, Shambhala Publications.Published by arrangement with Shambhala Publications, Inc., Boston.
por Gustavo Gitti | 15/03/2006 6:17 |
Essa idéia é impressionante, ousada e ridiculamente óbvia (depois que um mestre esfrega isso na nossa cara, é claro!).
“O grau de carência não é medido pelo que falta mas pelo que a pessoa tem para disponibilizar. Por exemplo, podemos pensar que uma pessoa que possui muito será pouco carente. Mas não é isso. A carência, ou a liberação da carência, é medida pelo quanto a pessoa tem para disponibilizar e não pelo que a pessoa tem para si. Por exemplo, uma pessoa que tenha pouco para si mas tem sempre café e bolo para oferecer, ela tem algo para disponbilizar. Mas podemos chegar em um local no qual a pessoa tem muito para si mas não possui café e bolo para oferecer, nem tempo, nem atenção. Então, essa característica do ser faminto não diz respeito a quanto eu tenho mas a quanto eu tenho para disponibilizar. Nós medimos a carência pela indisponibilidade. Se eu for muito carente, eu sou indisponível.”
- Lama Padma Samten.
por Gustavo Gitti | 25/02/2006 0:43 |
Deveria ser uma prática diária, mas nossa ilusão de permanência é muito persistente!
Hoje vejo meu quarto se dissolvendo: caixas por todos os lados, tudo sujo, armário vazio, minhas coisas de um lado, as coisas dela de outro. Há apenas 2 anos estávamos totalmente empolgados, limpando o quarto no qual viveríamos juntos, comprando uma cama, acertando o local da TV, montando o armário, guardando as roupas.
É muito surreal, mas tudo faz sentido. “Assim é, assim é”.
Essa simulação de casamento me traumatizou “ao contrário”: hoje eu acredito muito mais no amor e saí de peito aberto, com muito mais abertura do que tinha antes e do que tive durante.
Lembrar da impermanência nos dá uma certa leveza em meio aos fenômenos, e uma natural coragem para não evitar a dor (por mais intensa que seja).
por Gustavo Gitti | 09/11/2005 8:55 |
Atenção: não há nenhum spoiler abaixo, portanto mesmo aqueles que não viram sequer o primeiro filme podem ler sem preocupação, ainda que sem entender as relações estabelecidas.
Quando eu vi o primeiro filme, imediatamente gostei da abordagem. Já vi outros filmes tratarem da morte em uma perspectiva ampla (Fearless, “Sem Medo de Viver”, é um bom exemplo), mas Jogos Mortais me atraiu por incorporar tal visão sem deixar de apresentar a morte com toda a sua crueldade, violência e muito, muito sangue, é claro.
As duas obras não são tratados sobre a morte e as infinitas formas de executá-la com perfeição e genialidade, mas uma introdução à vida e as incontáveis formas de vivê-la de forma lúcida, com destemor, os dois pés no chão e um olhar que não hesita. Eu não me esqueço do ensinamento de mestre Caeiro: sabedoria é um modo específico de andar com os dois pés.
Mestre também é o articulador dos jogos. Quem o vê como monstro insensível apenas deixa-se cegar pelo seu próprio medo. Atente para seu olhar fixo, sua postura imóvel e sua mente concentrada e compassiva. Se conseguir, tente assistir a Jogos Mortais sem medo, com o coração aberto; sem fixar-se na morte dos seres, mas observando cuidadosamente a destruição de seus obstáculos; sem evitar o sangue e as cenas nojentas, mas contemplando-as a fundo, no limite de cada gota, de cada corte, para compreender a gravidade da confusão humana. A sabedoria do filme é colocar a morte diante de nós. A regra do jogo é somente um ensinamento: transforme-se ou morra.
Saí hoje do cinema com um brilho no olhar. Ou melhor, tudo ao meu redor adquiriu um brilho diferente, uma luminosidade que raramente surge em minha realidade sensorial. Ela permanece e aproveito para escrever enquanto dura. Infelizmente, devido a nossa cegueira habitual, kármica, amanhã quando eu acordar as coisas estarão um pouco mais sólidas e a luminosidade aparecerá como formas concretas.
Enquanto essa abertura segue, porém, eu me vejo agora dentro do filme, dentro do jogo. Estamos, eu e você, no meio de uma sala, ouvindo instruções sóbrias de alguém especialista em meditar sobre a morte, com nossas vidas por um fio. Se isto fosse retórica, recurso poético, eu estaria feliz. No entanto, nós estamos de fato, para além de qualquer ficção, dentro de um jogo mortal (e talvez os cenários dos dois filmes sejam a melhor representação do processo samsárico já produzida pela humanidade!), dentro de uma grande sacanagem, uma irônica e perigosa “pegadinha” cósmica – mas nesse caso, para piorar ainda mais, não há criminoso, culpado, nenhum articulador fora do jogo.
A saída parece estar dentro de nosso olho, para que renunciemos às nossas fixações a objetos e paisagens exteriores, e também atrás de nossa cabeça, em nosso ponto cego, para que os outros possam olhar por nós e nos contar quem somos, para que possamos nos contemplar uns aos outros e adentrar o labirinto de espelhos do real, reconhecendo o outro como um sonhador que constrói conosco esses sonhos intricados, belos e sem saída.
Saída sem saída, pois Jogos Mortais é transcendência pela angústia existencial, espiritualidade virando a pele do avesso, sabedoria que surge quando retiramos e reviramos nossos globos oculares.
por Gustavo Gitti | 18/10/2005 10:18 |
Tanto Ken Wilber quanto as tradições de sabedoria enfatizam nossa natureza além de vida e morte. Por isso, Wilber dedicou tão pouco papel para o tema “reencarnação”. O foco de Wilber e o foco último da prática espiritual não é este.
Temos, em resumo, três níveis de ensinamentos que correspondem a três níveis de compreensão e implicam em três níveis de prática.
1. Se você consegue compreender a noção de não-nascido, melhor. Não perca tempo com teorias sobre reencarnação ou renascimento. Tais processos serão óbvios e naturais a partir da compreensão do não-nascido. Pratique para desvelar sua natureza além de tempo e espaço, além de vida e morte e aja no mundo de forma a trazer à tona esta mesma natureza não-nascida nos seres. Esta é a prática mais eficaz e corresponde aos níveis causal e não-dual, no modelo de Wilber. Como ensina os mestres budistas: “qual a sua face antes de seus pais nascerem?”.
2. Se “não-nascido” é um conceito que não faz sentido para você, não tem problema. Você pode reconhecer que as ações que você pratica nesta vida repercutirão karmicamente formando novos seres de acordo com as tendências e hábitos e modos de ser que você teve nesta vida. Agindo desta maneira, sua ética estará baseada no nível sutil (o que é realmente maravilhoso). Esta compreensão de renascimento corresponde ao nível sutil de Wilber, com a compreensão de vacuidade.
3. Se “renascimento” parece muito abstrato, você pode trabalhar com a idéia de “reencarnação”. Este seria o nível sutil sem a compreensão de vacuidade, pois tomamos os seres de forma sólida, como identidades fixas que seguem reencarnando. A ética é do nível sutil também, mas a não compreensão da vacuidade dificulta um pouco as ações benéficas, pois você terá um pouco mais de dificuldade em desvincular o ser de sua confusão, em ver a liberdade não-nascida em cada ser. Mas ainda assim, tal ética é bastante sofisticada pois reconhece uma continuação da experiência, da existência.
Se você puder praticar 1, melhor. Este é o foco desta lista, dos escritos de Wilber e dos ensinamentos mais importantes das grandes tradições. Se puder o 2, ótimo! Se puder o 3, maravilha!
Validando todas as práticas (princípio 1 de Wilber: não-exclusão), eu não discordo de ninguém quanto a este tema. Regressão, vidas passadas, projeção astral, tudo isto tem espaço em um Kosmos que nada nega, que é pleno de infinitas (quantidade) realidades infinitas (qualidade).
Validando todas as práticas, vislumbramos um modelo desenvolvimentista (princípio 2 de Wilber: desdobramento) que coloque as visões em perspectiva, em uma holarquia de mundos, teorias e práticas, das menos abrangentes, sábias e compassivas às mais abrangentes, sábias e compassivas.
Validando todas as práticas (p1), pensando dentro de um modelo integral desenvolvimentista (p2), percebemos como cada uma delas faz surgir um mundo tão real quanto o nosso (princípio 3: enaction, atuação). E, principalmente, percebemos cada vez mais que isto só é possível devido à natureza insubstancial, vasta, livre de caracteristicas, do Universo.
Sendo assim, sem nenhum atributo, não-definido, sem face, sem essência nem existência inerente (vacuidade), o Kosmos pode se tornar qualquer coisa, incorporar qualquer atributo, qualquer definição, qualquer face (luminosidade). Da união desses dois aspectos, vacuidade e luminosidade, surgem todos os seres, todos os mundos, todos os fenômenos, todas as realidades vivenciadas que, vistas por fora, são sonhos, mas vistas por dentro são experiência de realidade, reais, sólidas e concretas — daí o sofrimento dos seres.
Que todos aqui possam fazer este caminho de dentro para fora, da solidez à compreensão efetiva da vacuidade e luminosidade, e depois (em algumas tradições, durante o caminho) incessantemente ajudar os seres, não só relativamente — transformando pesadelos em bons sonhos — mas de forma absoluta: ajudando-os a acordar.