“Não é apropriado perguntar a um budista: “qual é o propósito da vida?” porque isto sugere que em algum lugar fora daqui, talvez em uma caverna ou no topo de uma montanha, existe um propósito último. Esta questão sugere que nós poderíamos decodificar o segredo estudando com santos vivos, lendo livros, ou dominando práticas esotéricas.
Budistas não acreditam que há um deus criador, e não tem este conceito de que o sentido da vida foi, ou precisa ser, definido. Uma pergunta mais adequada para fazer a um budista é simplesmente “o que é vida?”. Do nosso entendimento sobre impermanência, a resposta poderia ser óbvia: “vida é um grande conjunto de fenômenos reunidos, e assim vida é impermanência”. É uma mudança constante, uma coleção de experiências transitórias. E mesmo que existam miríades de formas de vida, uma coisa todos temos em comum, que é que nenhum ser vivo deseja sofrer. Todos nós queremos ser felizes, desde presidentes e bilionários a formigas trabalhadoras, abelhas e borboletas.
É claro que, a definição de “sofrimento” e “felicidade” difere muito entre as formas de vida, mesmo dentro do relativamente pequeno reino humano. A definição de sofrimento para uns é a definição de felicidade para outros e vice-vesa.
Mesmo para um único indivíduo, a definição de felicidade e sofrimento flutua. Um leve-emotivo momento de flerte pode repentinamente mudar quando alguém deseja um relacionamento mais sério; esperança se torna em medo. Quando você é uma criança na praia, fazer castelos de areia é felicidade. Quando adolescente, olhar as garotas de bikini e os garotos surfistas com peitos grandes é felicidade. Na meia-idade, dinheiro e carreira são felicidade. E quando você está nos oitenta, colecionar vasos de cerâmica é felicidade. Para muitos, abastecer estas infinitas e sempre-mutáveis definições é o “propósito da vida”.
–Dzongsar Khyentse Rinpoche, in What makes you not a budhist
Ela está fazendo 100 anos. Peguei um trechinho de entrevista na TV. Veja só a sabedoria dessa dakini (ser feminino lúcido que dança em meio aos fenômenos, no céu, no espaço fundamental):
“Eu adoro a vida porque é tudo mentira. É tudo falso, mentira. Nós somos feito disso, de porra! É nojento, melado, cheira mal… Qualquer um jogaria fora, mas Deus foi lá e fez a gente.”
Eu concordo: é tudo belo porque é tudo mentira e é tudo lindo porque é tudo porra.
Em um de seus workshops mais recentes, David Deida disse:
“No one cares about you, except you, and you shouldn’t.”
Perfect, huh?
Eu diria que a modéstia e a humildade não existem, se eu não conhecesse o Marcio, amigo meu. É impressionante como todos nós possuímos de alguma forma o que Oscar Wilde tão bem caricaturou:
“Exitem dois tipos de mulheres: as que são loucas por mim e as que não me conhecem.”
“Se tudo que é bom dura pouco, eu já deveria ter morrido há muito tempo.”
“Eu não sou arrogante. Simplesmente sou melhor que você!”
“Eu não me amo, me invejo.”
“Frequentemente, tenho longas conversas comigo mesmo. E sou tão inteligente que algumas vezes não entendo uma palavra do que estou dizendo.”
Na lista Transconhecimento, surgiu a idéia de que a prática espiritual e a meditação se resumem em transcender o ego. Abaixo minha resposta:
O irônico é que saber disso tudo é (quase) inútil. Só não é totalmente inútil porque o *início* da visão *começa* a nos levar a *talvez* tentar *um dia* experimentar de fato a meditação. E o início da meditação começa a nos levar a talvez tentar um dia experimentar de fato a ação lúcida no mundo.
Esse início (ou tentativa) já basta para percebermos que a coisa não é bem assim. “Transcender o ego” é bonito, mas vago. Transcender o orgulho é mais específico, por exemplo. Juntar-se aos outros quando eles humilham você, eis uma instrução mais direta. E por aí vai…
Nossos venenos mentais, obstáculos e condicionamentos (apesar de não serem “nossos” propriamente) impedem uma vida livre, sábia, alegre e compassiva. O caminho não é só de um passo: “Transcend your ego, there is God: a 4-day workshop to complete enlightenment!”.
Esse “transcender o ego” não é sempre mesmo. Há pelo menos dois níveis para ele e mesmo o segundo não é final, é apenas a superação de algo mais sutil, longe da iluminação. Os dois níveis a que me refiro são bem exemplificados por duas citações:
“How does one transcend himself; how does he open himself to new possibility? By realizing the truth of his situation, by dispelling the lie of his character, by breaking his spirit out of its conditioned prison. The enemy, for Kierkegaard as for Freud, is the Oedipus complex. The child has built up strategies and techniques for keeping his self-esteem in the face of the terror of his situation. These techniques become an armor that holds the person prisoner. The very defenses that he needs in order to move about with self-confidence and self-esteem become his lifelong trap. In order to transcend himself he must break down that which he needs in order to live. Like Lear he must throw off all his “cultural lendings” and stand naked in the storm of life. Kierkegaard had no illusions about man’s urge to freedom. He knew how comfortable people were inside the prison of their character defenses. Like many prisoners they are comfortable in their limited and protected routines, and the idea of a parole into the wide world of chance, accident, and choice terrifies them.” –Ernest Becker, no excelente Denial of Death (aliás, leiam esse livro!).
“The main point of any spiritual practice is to step out of the bureaucracy of ego. This means stepping out of ego’s constant desire for a higher, more spiritual, more transcendental version of knowledge, religion, virtue, judgment, comfort, or whatever it is that the particular ego is seeking. One must step out of spiritual materialism.” –Chogyam Trungpa, no igualmente excelente Cutting Through Spiritual Materialism.
No primeiro nível, há uma liberação existencial das amarras sociais, daquilo que fizeram de nós. Esse grau de liberdade é maravilhoso, mas é só isso: um grau de liberdade. Nesse ponto ainda temos orgulho, raiva, etc.
No segundo nível, a pessoa já está praticando por um bom tempo, mas sempre sob o fundo do materialismo espiritual (tendência que Trungpa diagnosticou em seus alunos americanos hippies e hoje isso se aplica ainda mais). Transcender o ego é liberar a noção de esperança pela iluminação, de conforto e de um conhecimento supremo. Depois disso, há muita prática ainda. ;-)
Mesmo depois da iluminação, há a prática. Na verdade, ela é o começo da prática! Buda sentou por 6 anos de modo obstinado, mas sua verdadeira prática aconteceu quando ele levantou e passou décadas ensinando a liberação para as pessoas.
Para nós também. Sentar é bom, mas a prática autêntica está nas outras 23h de nosso dias. Eis um ótimo koan: quando se levanta, para onde você vai?
“Nós não percebemos que nunca de fato existiu uma história de amor. Olhe para suas relações passadas e tente lembrá-las com nitidez… O que há é o detalhe, somente ele, no limite do imperceptível, quase não existindo, antes mesmo do real – o detalhe. Ele nunca se mostra totalmente e não conseguimos apontá-lo ou delimitá-lo com certeza. Para os leitores de Borges, uma imagem: coloque dois detalhes lado a lado; se você começar a prestar atenção em um, nunca mais conseguirá olhar para o outro, sequer saberá qual deles você notou primeiro ou que eram originalmente dois.”
Mais aqui neste blog sobre relacionamentos.

“Transcendence restores humor. Spirit restores humor. Suddenly, smiling returns. Too many representatives from too many movements – even many good movements, such as feminism, environmentalism, meditation, spiritual studies – seem to lack humor altogether. In other words, they lack lightness, they lack a distance from themselves, a distance from the ego and its grim game of forcing others to conform to its contours.” –Ken Wilber, in One Taste.
Essa é uma das coisas mais engraçadas que eu já vi… ;-)
É de certa forma uma homenagem ao KW a la Ken Wilber, inspirada nos fatos sobre Chuck Norris. Veja essas por exemplo:
- Ken Wilber can go from ego to nondual in 3.9 seconds.
- The first time Ken Wilber went to the dentist, he opened his mouth, and his dentist saw the entire universe.
- Ken Wilber is finishing up an Integral re-working of the entire Oxford Dictionary, Encyclopedia Brittanica, Tripitaka, Wikipedia, and Bible. This took him 2 months, a little longer than he would have liked, but he thinks that it may be his best work yet.
- In an argument between Wittgenstein, Aurobindo, and Richard Dawkins, Ken Wilber would win.