One day…

por Gustavo Gitti | 12/02/2007 9:17 | Comente!

“The burdens of life and woman never seem to end. Yet, there is no need to look forward to one day (when they will end) because, even now, your life’s tasks and your woman’s moods do not actually limit your freedom in any way. In this moment, you are as free, deep, and relaxed as you can allow yourself to be.”

“Os fardos da vida e das mulheres nunca parecem acabar. Ainda assim, não há necessidade de ansiarmos por “aquele dia” (quando eles acabarão) pois, até mesmo agora, as tarefas de sua vida e os humores de sua mulher não limitam sua liberdade de modo algum. Neste momento, você é tão livre, profundo e relaxado quanto você se permite ser.” [tradução livre]

David Deida

Bolero e Click

por Gustavo Gitti | 12/09/2006 9:40 | Comente!

“He’s always chasing the pot of gold, but when he gets there, at the end of the day, it’s just corn flakes.” (fala do personagem Morty, no filme Click)

Há uns tempos eu desisti de tentar viver uma vida completa e socialmente adequada: pós-gradução, trabalho rentável, casa na praia e 2 filhos. Não que eu não queira tudo isso (quero muito, especialmente os filhos), mas eu desisti de gastar minha vida tentando viver essa vida. “At the end of the day, it’s just corn flakes”. E então eu comecei a viver, simplesmente.

David Deida diz que de todos os momentos, tudo o que resta ao fim, tudo o que lembramos de fato, é a abertura que fomos — ou seja, o quanto estávamos abertos, livres, inundados de amor. Tudo o mais passa: sentimentos, sensações, pessoas, pensamentos, eventos. O que importa na vida é a abertura.

Foram anos até que eu começasse a viver. No início do ano comecei a focar mais em práticas de abertura. Em vez de só fazer faculdade e trabalhar para algum dia ser feliz, foquei em práticas que fossem elas mesmas expressões de felicidade (como um jogo gostoso, que nunca têm sentido fora de si mesmo). Por isso, hoje sou um sortudo. Não mereço, mas sou aquele cara que teve uma segunda chance (várias), como no Click, e pode agora morrer a qualquer momento com um sorriso no rosto.

Nesse final de semana tive um dos momentos mais belos de minha vida. Foi só uma música lenta, um bolero olho no olho com a mulher da minha vida. Poderia morrer logo depois e tudo teria valido a pena, tudo faria sentido. Em um momento de amor e abertura, os medos colapsam, as esperanças derretem. Ficamos só nós e o horizonte de nós mesmos.

Escrevo aqui com o desejo de que todos possam viver mais do que isso, várias vezes em uma só vida. Escrevo aqui sabendo que um dia morrerei, mas confio nesse amor que nunca nasceu e que segue intocado pela morte de todos os seres. Na verdade, somos isso: abertura e amor.

Hoje eu amo, e nesse amor lentamente me libero de mim mesmo. Um dia conseguirei não ser mais eu.

Aniversário

por Gustavo Gitti | 24/07/2006 8:45 | Comente!

Cabeça esfregada no lençol. Você acorda e lembra que os outros disseram que é seu aniversário. Você quer acreditar mas não se recorda de ter nascido nesse dia ou em qualquer outro. E assim passa o dia: como qualquer outro. Você levanta, toma banho, vai trabalhar, se cansa. Volta para casa e enfia a cabeça, esfregando no lençol. Você quer só 5 minutos para você. Olhos fechados, ouvindo a própria respiração pela primeira vez no dia, se espreguiçando sem se mover. Segundos assim e sua namorada vem reclamar, dizer que está atrasado para o jantar, que 5 minutos é muito, que você tem de tomar banho, que assim não dá.

5 minutos é muito mesmo. Sua vida não é sua. Sua vida não é para você. Não é por acaso que não lembra de ter nascido. Você não quis nascer, quiseram por você. Você vive para os outros e é assim que tem de ser. O jantar, aliás, não envolve sua comida preferida e nem será naquele restaurante que você estava querendo tanto conhecer. O jantar é para sua família. Seu trabalho é para a empresa. Suas ações, para os outros.

Antes de levantar, você pede um carinho e começa a contar a única coisa do dia que não foi completamente esquecida. E quem quer saber do seu dia? Você está aqui para ouvir. Coloque-se em seu lugar. Triste seria se você conseguisse o que deseja, se vivesse para si mesmo, se você mesmo lembrasse de seu aniversário, se houvesse comemoração.

O único presente do dia é um bolo, feito à mão, total carinho. Não se preocupe, porém: você não vai comê-lo sozinho, o bolo seu é de todos. Começa uma depressão quando você percebe que ainda é uma pessoa que precisa de presentes. Só que os anos 70 do Aerosmith estão entrando ouvido adentro e quem mesmo precisa de presentes?

Cantam parabéns e você come o bolo. Você não sente o gosto e não vai conseguir se lembrar dele depois. Isso porque ele foi feito para você e não é assim que funciona. Na sua memória estão as coisas que fez pelos outros. No coração, vivem ainda somente as felicidades que presenciou nas faces diante de você. Aquela sua alegria, que não se refletiu em nenhum outro ser, é facilmente esquecida.

Volta do jantar e encontra o lençol marcado por sua cabeça. Você deita e esquece de você mesmo. Para além da depressão, não ter vida própria é liberação. Um dia você sequer deixará marcas no lençol ou rastros pelo chão. Sem precisar de aniversários, encontrará a alegria insuperável de preocupar-se só em fazer bolos para os outros – e só haverá outros. O sorriso derradeiro virá quando ninguém mais se lembrar de você. Você torce para que isso não demore. Como diz Borges, a meta é o esquecimento.

Declaração de amor segundo Contardo Calligaris

por Gustavo Gitti | 16/05/2006 11:30 | Comente!

“Ofereço-lhe o que não tenho e que você não quer e não me pede.”

Leia aqui o texto completo.

Relações autênticas

por Gustavo Gitti | 12/05/2006 17:57 | Comente!

Ontem cheguei no prédio e dei boa noite ao Camilo, porteiro do prédio, que conheci há menos de uma semana. Perguntei como ele estava e ele me disse que ia embora amanhã, começar a trabalhar em outro lugar. Conversamos rapidamente e eu desejei tudo de bom para a vida dele.

Provavelmente eu nunca mais o verei nessa vida. Ainda assim, disse: “até mais”. Subi com um sorriso no rosto, feliz meio sem saber por quê. Eis o poder das relações autênticas. Ele de peito aberto, eu sem nenhuma estratégia. Uma conversa simples, olho no olho, um ser reconhecendo o mundo do outro, compartilhando e adentrando, invadindo e abrindo-se. Nada é mais simples, nada é mais leve, nada é mais autêntico.

Conheço gente que passou todo dia pela portaria, viu o Camilo até mais vezes do que eu e ainda assim sequer sabe seu nome nem imagina que ele de um dia para o outro desaparecerá dali.

Se pudéssemos simplesmente sorrir para as pessoas, já teríamos o que Trungpa Rinpoche chamava de “sociedade iluminada”. Falta é interesse e curiosidade pelo mundo do outro… Tendo o mínimo de abertura, surge um sorriso natural e uma vontade sem esforço (e por isso incessante) de se relacionar com os outros. Às vezes acho que o caminho é simples assim.

David Deida – For Her

por Gustavo Gitti | 03/05/2006 13:42 | Comente!

“Eventually, you are only willing to settle for a man whose heart-opening guidance you trust more than yours. You are only willing to settle for a man to whom you can surrender, knowing that through his sure claim, divine love guides you open more deeply and consistently than you have been able to open yourself.”

David Deida, in Dear Lover.

Para você, mulher

por Gustavo Gitti | 15/03/2006 3:18 | Comente!

MulherEu baixo milhares de músicas da Internet (literalmente milhares!), leio textos dos mais diversos pensadores obscuros, vejo todos os filmes que posso, vou a todos os lugares, sutis ou densos, em busca de uma ínfima parte de seu brilho, tentando reproduzir a beleza espantosa que se apresenta a mim toda vez que eu acordo e você, ainda de olhos fechados, se oferece para mim com seus braços, com seu corpo – uma mulher completa fingindo-se bebê, fingindo-se incompleta.

O mundo é essa ilusão criada por você mesma, somente pelo prazer em me ver completamente perdido, perambulando por todas as experiências possíveis, para ao final me deparar com a percepção cristalina de que sempre estive imerso em seu corpo, deitado em nossa cama, sonhando com mundos, com seres, imaginando detalhamente cada uma das formas de te conquistar, cada uma das formas pelas quais você poderia se manifestar e cada uma das formas pelas quais eu poderia te enlaçar.

É esse o verdadeiro Big Bang. E toda a minha vida é só mais um devaneio desse cara que agora deita ao seu lado na cama.