Conexões

por Gustavo Gitti | 11/03/2006 21:12 | Comente!

Eu já falei sobre isso aqui, mas continuo impressionado com o poder das conexões humanas. É uma delícia simplesmente dançar agarrado, deixando a energia feminina me alimentar, deixando a alma de mulher rodopiar aqui dentro e me implodir saindo como luz e brilho pelos meus olhos fascinados.

Não há nada como uma mulher entregue. Na sua frente, um convite irrecusável, um imã para a consciência impassível masculina. Quanto mais presente e lúcido for um homem, maior será sua atração pelas energias femininas de movimento, dança, música, brilho e encantamento.

Eu gosto de mulheres que são abismos, seres que nos puxam, nos empurram para um mergulho sem volta para dentro de seus corpos, de suas almas. Mulheres entregues nos ensinam não apenas sobre Carpe Diem, mas sobre como viver com a morte ao seu lado, dando o seu melhor a cada segundo como se não fosse haver uma segunda chance. Elas ensinam como penetrar o mundo inteiro através de seu corpo feminino. Primeiro, elas piscam e nos envolvem. Depois, surtam, gritam, se debatem… tudo para testar nossa lucidez, nossa consciência impassível, nossa presença masculina. Elas são deusas e meninas, mestres e alunas.

Mundos inteiros são criados por essa interação entre as energias masculina e feminina. Talvez a conexão (a paixão, o envolvimento, páthos, afeto, a entrega ao outro, o penetrar no outro) seja a principal característica do mundo humano.

Postura Integral – Sabedoria, compaixão e ética

por Gustavo Gitti | 09/07/2005 1:33 | Comente!

Tento listar abaixo algumas qualidades da postura integral, como concebida por Ken Wilber, pensando sob a perspectiva da compaixão (no sentido budista) e da ética (no sentido utilizado por Varela e Maturana).

Dividirei, de forma didática, o processo em alguns movimentos (que não seguem uma ordem necessária) para que nós possamos conversar sobre nossa prática e sobre os detalhes da visão integral. Convido a todos para que possamos compartilhar experiências e contribuir para o nosso entendimento e prática da postura integral.

1. Podemos dizer que adotamos a postura integral no exato momento em que percebemos que diante de miríades de filosofias, práticas, teorias, ideologias, crenças, modos de ser, condutas, comportamentos, não devemos nos perguntar qual delas é a correta, mas qual a natureza do Kosmos que possibilita o surgimento de todas elas. Cito Wilber: “…the only really interesting question is not why poststructuralism is right and structuralism is wrong, but what kind of universe allows both of those practices to arise in the first place?”. Quando fazemos tal pergunta, colocamos nosso corpo em um estado de abertura integral.

2. Tentando sempre associar sabedoria e compaixão (uma não existe sem a outra), prosseguimos tentando trazer benefício aos seres. Nesse sentido, ao encontrar seres agindo de forma confusa, cega, dissociamos o ser de sua visão, ou o ser de seu nível de consciência dominante — a discordância, de seres, passa a ser de níveis. A ajuda só é possível, como nos ensina o Budismo, se reconhecemos incessantemente a natureza livre dos seres. Ou mesmo no cristianismo, a confusão, a ignorância e o mal são vistos como ausência de Luz, ou como a face de Deus que se esqueceu de si mesmo. Se olharmos para os seres assim, fica fácil criticar a visão e possibilitar a morte naquele nível e um renascimento em um nível superior, mais abrangente e compassivo. A visão integral nos dá este tipo de confiança na natureza das coisas.

“…a compaixão, o desejo que os seres realizem sua natureza interna e se livrem de suas complicações. Essencialmente é o desejo que o outro supere suas dificuldades e possa melhorar. Atenção: compaixão é diferente de “pena”. Quando temos pena, estamos validando a imagem que a pessoa faz de si mesmo, e justamente por isso ela está mal. Compaixão é reconhecer no outro a sua natureza estável, perfeita, de luz, sua condição verdadeira, quebrando o encanto dos jogos que estão produzindo as complicações.”
Lama Samten

3. Durante esse treinamento diário, criamos uma maior liberdade ao transitar por várias visões, de modo a se comunicar mais diretamente com o mundo semântico de cada pessoa. Quando você começa a pensar integralmente, você vai entendendo os limites de cada visão e consegue ser mais compassivo diante de visões menos abrangentes. Ao perceber que cada visão inferior evoluiu para uma superior, você pára de tentar acabar com as visões que você transcendeu e incluiu (“deixou para trás”) e naturalmente ajuda os seres envolvidos a levá-las até o fim. É estupidez matar um bebê simplesmente por ele não saber falar: dê-lhe comida e espere ;-)

Exemplo: ao abandonar a noção de Deus Criador pessoal, e abarcar tal visão, você consegue contribuir para a saúde de quem está apegado a esta noção. Você pode, por um momento, pensar deste jeito e atingir mais diretamente os seres. Você, tendo incluído uma visão, pode relativizá-la e mostrar suas limitações. Isto é tremendamente liberador e benéfico, especialmente no mundo em que vivemos, com tantas visões conflitantes.

A abordagem pode parecer nova, mas isso já vem sendo feito há tempos. Negar, transcender, incluir, e depois ficar livre para transitar é exatamente o que todos os sábios sempre fizeram. O próprio Ken Wilber reconhece isso.

A compaixão suprema somente surgirá quando você transcender todas as visões e ficar livre para entrar e brincar com cada uma delas.

“Sabedoria é transcender as perspectivas, compaixão é abraçá-las todas.”–Ken Wilber

4. Percebemos, portanto, uma nova dimensão da ética. O imperativo ético de Heinz von Foerster (um dos fundadores da Cibernética, amigo de Humberto Maturana) é “aja sempre de modo a aumentar o número de escolhas”, de possibilidades. Por reconhecermos que cada ser sustenta um mundo com sua presença, co-constrói uma realidade conosco, optamos pela ação mais inteligente, sintetizada no imperativo de Foerster: aja sempre de modo a aumentar o espaço de liberdade dos outros. Aja de modo a expandir a liberdade dos outros. Ou ainda: construa um mundo cuja amplidão abrace, forneça espaço, legitime, o máximo dos modos de ser do outro, o máximo das visões, do mundo, dos sentidos do outro.

Em uma recente entrevista (Revista Bodisatva, n. 12), Lama Samten disse:

“Vemos surgir diante de nós um amigo e surgimos como amigo diante do outro. Nascemos e damos nascimento ao outro. É um nascimento positivo. [...] Precisamos dar nascimentos positivos às outras pessoas e precisamos ter nascimentos positivos.”

Termino com uma fala de Ken Wilber, no qual percebemos que ética, sabedoria e compaixão são inseparáveis:

“…cultural solidarity is how all sentient beings touch each other from within; it is the felt interior of all exterior systems; it is the heart of why we are in this together, endlessly; it is the face of God when he can no longer stand being alone; it is the exuberance of the Goddess when she dances naked for all to see–the mystery where two souls touch each other and know that they have done so, which points unmistakably to the secret meaning of any “we”: the Spirit that hides itself in the heart of each I, begins to find itself by finding other I’s.”

Closer again

por Gustavo Gitti | 03/03/2005 18:29 | Comente!

“Viver e amar é viver e amar. Nesta tarefa, não pode haver tempo para checagens. Não há espaço para a filosofia.”

Paulo Ghiraldelli Jr. em seu texto mais curto, mais cortante e mais brutal. Eu fico relendo, relendo… o que está aqui realmente me desestrutura.

Sobre o tal do “sexo tântrico”

por Gustavo Gitti | 22/01/2005 1:43 | Comente!

Sexo TântricoUm tópico na comunidade “Tantra Brasil” no Orkut:

“No sexo tantrico o homem aprende a desenvolver um prazer constante durante a relação, e não apenas no momento da ejaculação. Se o praticante está tendo prazer durante toda a relação, a ejaculação se torna desnecessária. Além disso, como é amplamente conhecido, quando o homem ejacula ele perde sua Shakti ou Energia Manifesta. Eu tenho uma questão: quando o homem ejacula na mulher, a energia desprendida no ato fica com a mulher? Eu penso que sim, mas queria ouvir outras opiniões.”

Minha resposta:

Quando ejaculamos, trazemos ao nível biológico o que estava no nível sutil (já pensou em como é possível produzir uma nova vida?), e portanto a mulher não recebe a energia original de nós, apenas o líquido mesmo. Ela também, quando tem um orgasmo (ou vários), perde sua energia.

Além disso, é preciso lembrar que Shakti é diferente de Prana. Enquanto o segundo é energia do nível biológico-emocional-corporal (o nível 2 no modelo de Ken Wilber), equivalendo ao “ki” japonês e ao “chi” chinês; o primeiro (shakti) é toda a energia da manifestação do Kosmos, todas as formas, as luzes, os objetos, etc. Nesse sentido, Shakti faz amor com Shiva (a consciência informe, o espelho, o espaço no qual Shakti surge, os olhos para os quais Shakti dança), o aspecto masculino do universo. Shakti = imanência. Shiva = transcendência. Leia mais sobre isso nos livros de Ken Wilber.

No mais, prossigamos com nossa prática espiritual nos atos sexuais também. Apenas isso.

“Sexo tântrico” é para quem pratica “tantra” e isso é algo bastante raro – destina-se apenas a praticantes avançados. De forma simples, o sexo tântrico seria a mais alta forma de prática do tantra (aplicado à energia mais forte, que mais nos desequilibra, a sexual). E a prática do tantra seria, por si só, a mais alta forma de prática espiritual (trabalhar com a sabedoria inata das energias negativas, com a sabedoria a priori da não-dualidade). Portanto, o sexo é o supra-sumo do tantra, que é o supra-sumo da espiritualidade. Deu para entender por que é impossível começar diretamente pelo sexo?

Meu conselho para os curiosos aqui [do Orkut] ou aqueles que pensam praticar o tal do “sexo tântrico” é: abandone esta terminologia e contente-se com sua prática medíocre. Nós todos precisamos ainda aprender a trabalhar com energias menos fortes, como a raiva, a preguiça, o orgulho. O sexo é para mestres.

Quer ser espiritual? Seja. Quer fazer sexo? Faça. Consegue segurar a ejaculação por 4 horas? Isso é tão difícil. Mas não venha me dizer que pratica “sexo tântrico”…

Cuidado com os De Roses que existem por aí… Prática espiritual séria é outra coisa.

Paixão, conexão, presença, amor

por Gustavo Gitti | 21/01/2005 1:34 | Comente!

“Apaixonar-se é fácil, e até mesmo permanecer apaixonado não é tão difícil; nossa solidão enquanto humanos é o suficiente para que isso seja assim. Mas é árdua a procura por um companheiro através de cuja presença constante nos tornemos naturalmente a pessoa que desejamos ser.”–Anna Louise Strong

Sobre compaixão, impotência e coragem

por Gustavo Gitti | 08/12/2004 18:51 | Comente!

Minha namorada frequentemente me faz sentir aquela trilogia que rasga a todos nós:

1) Desejo de ser compassivo (compaixão aqui no sentido budista): como eu posso vê-la em seu melhor e oferecer o espaço de minha percepção para expandir sua liberdade? Ou, como ensina o imperativo ético de Von Foerster, como posso agir de forma a aumentar as possibilidades, os modos de ser, as paisagens dela.

2) Ignorância/Impotência: Sou contaminado por ondas de ignorância que me fazem agir cegamente, causando sofrimento aos seres. Misturada ao desejo de compaixão, a ignorância me faz sentir impotente, perpetuamente frustrado, incapaz.

3) Coragem: Ainda assim (ou melhor: justamente devido à combinação dos dois itens acima), surge uma coragem como que vinda de lugar nenhum — inexplicável, por ser coletiva e impessoal. Uma coragem que não supera a impotência, mas utiliza-a; que não o torna iluminado, mas o faz agir mesmo em meio à escuridão.

O que é frequente com minha namorada às vezes surge também para todos os seres (veja como somos medíocres!). É realmente um desafio abrir-se à coragem, pois o sentimento de ignorância/frustração é tão grande que dissolve a compaixão (que não era muita, mas só um desejo de possui-la) e nos joga novamente para o ciclo que existe antes mesmo de termos qualquer desejo de compaixão.

Ficamos neste ciclo de justificativas e auto-afirmações quase todo o tempo. Somente algumas vezes emergimos um pouco e sentimos um desejo (quase que com aquela certeza absoluta de “estar fazendo a coisa certa”) de ser um pouco melhor, de assumir a responsabilidade por nossa liberdade e de admitir que somos, sim, importantes a pelo menos uma pessoa, e podemos, sim, aumentar a liberdade, o campo de ação, dos seres ao nosso redor. Esse é o item 1 acima.

Se nossa mente não foi estabilizada por alguma prática meditativa, logo que tal desejo surge, imediatamente nos sentimos frustrados e impotentes. Segue-se uma série de justificativas: a mente tenta se enganar, dando vários argumentos sobre como é difícil viver, etc.

Só então, se tivermos sorte, somos inundados de uma coragem autêntica. Autêntica pois não vem de nós. É aquilo que faz você agir sem motivo algum, sem razão alguma, nem mesmo por bondade. É aquilo que te deixa livre em meio a qualquer situação conflituosa. E então você age com o que tem, faz o melhor que pode e descobre o óbvio: todo mundo já está fazendo o melhor que pode, e sempre todos somente farão o melhor que podem.

Tal abordagem, longe do pessimismo, é extremamente benéfica pois perdoa os seres a priori, antes mesmo de alguém fazer alguma merda. Para mim, o maior ensinamento de Cristo aconteceu quando ele estava sendo crucificado: “Pai, perdoai-os: eles não sabem o que fazem”. O que atualmente, num viés budista, ficaria assim: “Cara, desencana que eles estão confusos”.

Concluindo: Sim, sou medíocre. Mesmo sem sentir compaixão, tenho o desejo de senti-la. Às vezes, quero livrar-me da ignorância. E, bem raramente, surge em mim uma coragem que me faz agir mesmo sem compaixão, mesmo sem ser sábio – mas que tem o mérito de me livrar da impotência. A ignorância só faz mal sem coragem. Com coragem, agimos como se fossemos livres e expandimos mais um pouco nossa estreita identidade, abarcando um pouco mais o corpo do outro, entendendo um pouco mais o mundo do outro e ficando um pouco mais lúcido para não entrar cego no ciclo de novo.

Postura integral

por Gustavo Gitti | 03/06/2004 11:56 | Comente!

A abordagem integral, na prática, me possibilita duas coisas no diálogo com as pessoas:

1. Dissociar o ser de sua visão, ou o ser de seu “nível” (meme) dominante — a discordância, de seres, passa a ser de níveis. A ajuda só é possível, como nos ensina o Budismo, se reconhecemos incessantemente a natureza livre dos seres. Ou mesmo no cristianismo, a confusão, a ignorância, o mal, é visto como ausência de Luz, ou como a face de Deus que se esqueceu de si mesmo. Se olharmos para os seres assim, fica fácil criticar a visão e possibilitar a morte naquele nível e um renascimento em um nível superior, mais abrangente e compassivo. A visão integral nos dá este tipo de confiança na natureza das coisas.

2. Criar uma maior liberdade ao transitar por várias visões, de modo a se comunicar mais diretamente com o mundo semântico de cada pessoa. Quando você começa a pensar integralmente, você vai entendendo os limites de cada visão e consegue ser mais

compassivo diante de visões menos abrangentes. Ao perceber que cada visão inferior evoluiu para uma superior, você pára de tentar acabar com as visões que você transcendeu e incluiu (“deixou para trás”) e naturalmente ajuda os seres envolvidos a levá-las até o fim. É estupidez matar um bebê simplesmente por ele não saber falar: dê-lhe comida e espere ;-)

Exemplo: ao abandonar a noção de Deus Criador, e abarcar tal visão, você consegue contribuir para a saúde de quem está apegado a esta noção. Você pode, por um momento, pensar deste jeito e atingir mais diretamente os seres. Você, tendo incluído uma visão, pode relativizá-la e mostrar suas limitações. Isto é tremendamente liberador e benéfico, especialmente no mundo em que vivemos, com tantas visões conflitantes.

A abordagem pode parecer nova, mas isso já vem sendo feito há tempos. Este lance de negar, transcender, incluir, e depois ficar livre para transitar é exatamente o que todos os sábios sempre fizeram. O próprio Ken Wilber reconhece isso.

A compaixão suprema somente surgirá quando você transcender todas as visões e ficar livre para entrar e brincar com cada uma delas.