Marco Polo como Educador: uma reflexão sobre as cidades de Italo Calvino

por Gustavo Gitti | 14/06/2008 16:38 | Comente!

Texto produzido em Agosto/2004 para a disciplina “Sociologia da Educação”, ministrada pela Prof. Dra. Flávia Schilling, no curso de Pedagogia da USP.

Apresentação

Livro \A proposta sugerida para este trabalho foi a de escolher uma das cidades da obra As Cidades Invisíveis, de Italo Calvino, e imaginar como seria o processo de educação nesta cidade, sob a perspectiva da Sociologia. Ora, uma obra-prima como esta nos possibilita um total descentramento, uma desidentificação radical de nossos padrões e modos de ser, e nos abre para uma perspectiva mais abrangente do que seria a Educação. A definição de educação como a relação entre ensino/aprendizado não se aplica, por exemplo, a uma cidade hipotética onde o objetivo seria desaprender, onde todos nasceriam sabendo muitas coisas. Tanto o meio acadêmico quanto o senso comum são vítimas desta visão limitada de Educação, de modo que é importante lembrarmos do fato de que nossa visão de Educação implica em uma visão de mundo e, principalmente, implica na maneira como (co)construímos o mundo – os limites de nossa concepção de educação são os limites dos mundos que podemos criar.

Considerando tais reflexões, conclui que se fosse escolhida apenas uma cidade, minha imaginação criaria um mundo não tão distante do atual, e o exercício do descentramento não ocorreria. Optei, portanto, por um percurso que me levasse de cidade a cidade, em um esforço de desidentificação para vislumbrar uma Educação que abarcasse tais territórios.

Originalmente o título era “Marco Polo como Sociólogo”, sendo que minha intenção seria desdobrar a obra de Calvino em algumas paisagens sociológicas que desvelariam novos horizontes em Educação. Com “Marco Polo como Educador” não faço exatamente o contrário, mas em vez de derivar a Educação da Sociologia de forma rigorosa em uma longa cadeia argumentativa, deixo-as surgirem juntas num movimento poético único que emana da intersecção de minha mente com a obra de Calvino.

Na primeira parte, é delineada uma visão de sociologia para abrir espaço a uma concepção de cidade como uma miríade de realidades consensuais (mundos compartilhados), no sentido coletivo; e como uma das infinitas realidades costurada em meio a multidões de seres, no sentido particular, individual; formando cidades dentro de cidades dentro de cidades, mundos dentro de mundos dentro de mundos… Na segunda parte, percorro as cidades descrevendo minhas próprias interpretações. Na última parte, esboço uma Educação que contemple todas estas cidades, esclarecendo por que Marco Polo seria um excelente educador…

Uma Sociologia dos Mundos

“De uma cidade não aproveitamos as suas sete ou setenta e sete maravilhas, mas as respostas que dá as nossas perguntas.” (Calvino, p. 44)

Italo CalvinoCom Calvino [foto ao lado], podemos trabalhar com a metáfora do sujeito como pergunta incessante e do objeto como resposta construtora de realidades. Os objetos que surgem à percepção são as respostas que o real fornece às nossas indagações. Como diria Merleau-Ponty, precursor da virada cognitiva, as coisas não se apresentam a nós, mas somos nós, antes, que nos apresentamos às coisas. O real é uma vasta gama de espectros fractais que se reconfiguram à medida que nos colocamos diante dos fenômenos.

Porém, isto não significa um Idealismo filosófico, mas apenas a transcendência pós-moderna do Realismo, que considerava a realidade como pré-definida e independente do sujeito. Esta estruturação não-dual da relação entre sujeito e objeto se reflete em uma Sociologia menos ousada do que as primeiras teorias sobre a sociedade, já que hoje sabemos da impossibilidade de uma teoria social completa e todo-abrangente:

“— Quando conhecer todos os emblemas [cidades] — perguntou a Marco —, conseguirei possuir o meu império, finalmente? E o veneziano: — Não creio: nesse dia, Vossa Alteza será um emblema entre os emblemas.” (Calvino, p. 26)

Tal impossibilidade não é efeito da complexidade do objeto sociológico, pois isto seria ainda mais uma interpretação realista, mas de nossa posição imersa ao mundo, de nossa presença encarnada no mundo, do fato de sermos mais um emblema, mais um sujeito entre sujeitos, mais uma perspectiva entre perspectivas.

O sociólogo com suas teorias faz perguntas ao mundo e vê realidades com resposta. As respostas surgem como mundos aparentemente exteriores, sendo que suas perguntas ajudam a (co)construir o próprio mundo que ele descreve. Sua postura não é passiva, de pura observação distanciada, mas ativa, modelando enquanto vê, formatando enquanto relata, objetivando ao subjetivar. Além disso, os relatos sociológicos que descrevem o olhar do sociólogo invadem os olhos de outras pessoas e elas são levadas às mesmas perguntas sobre a realidade e, por conseqüência, a mundos similares. É assim que, ao descrever um mundo, o sociólogo acaba por construi-lo.

Mundos sobre mundos, entrelaçamento entre indivíduo e sociedade, entre singular e coletividades (sempre “coletividades”, nunca “coletividade”), a cidade é este mundo inexistente que contém e acolhe todos os mundos produzidos em seu seio.

O paradoxo da constituição de qualquer sociedade é bem ilustrado por Calvino:

Marco Polo descreve uma ponte, pedra por pedra. — Mas qual é a pedra que sustenta a ponte?, pergunta Kublai Khan. — A ponte não é sustentada por esta ou aquela pedra, responde Marco, mas pela curva do arco que estas formam. Kublai Khan permanece em silêncio, refletindo. Depois acrescenta: — Por que falar das pedras? Só o arco me interessa. Polo responde: — Sem pedras o arco não existe. (Calvino, p. 79)

A cidade não é construída por nenhum dos sujeitos, nem por a soma deles, mas ao mesmo tempo não construída por nada que não seja estes mesmos sujeitos. A sociedade não é a soma de pessoas, nem mesmo algo além das pessoas. Imanência pura, a sociedade (e a cidade) é o solo intersubjetivo (cultura, língua, valores, hábitos) e também os artefatos e construções interobjetivas (prédios, indústrias, máquinas, materiais) que produzem e são produzidas pelos sujeitos. Este círculo recursivo não contém início: produzimos aquilo que nos produz, somos subjetivados por aquilo que objetivamos.

É dentro desta sociologia dos mundos que vamos agora explorar as cidades de Calvino, que são cidades que povoamos a cada dia, não apenas em nossa imaginação, mas como realidades concretas que ainda não acessamos por não compartilharmos com força suficiente…

As Cidades

“Jamais se deve confundir uma cidade com o discurso que a descreve.” (Calvino, p. 59)

Antes de adentrar o universo de Calvino, vamos analisar brevemente a seguinte afirmação de Foucault: “A ficção [arte] consiste não em fazer ver o invisível, mas em fazer ver até que ponto é invisível a invisibilidade do visível”.

À luz da exposição anterior, podemos perceber que Foucault descarta a postura realista (“não em fazer ver o invisível”), como se houvesse uma parte do real pré-definida e oculta, e coloca o desafio da arte no esforço em mostrar o quanto tomamos a realidade como algo evidente e natural, o quanto cremos em um mundo sólido fixo diante de nós. Daí o aparente absurdo da frase: “até que ponto é invisível a invisibilidade”. Até que ponto não percebemos o caráter onírico, espectral e caleidoscópio da realidade, ou, pelo outro lado: até que ponto estamos cegos para o caráter aberto e não-definido do mundo, até que ponto abdicamos de nossa liberdade criativa. Foucault não só afirma que o real é invisível (“invisibilidade do visível”), como qualquer pensador pós-kantiano, mas que tal fato nos é desconhecido. O papel da arte seria, assim, apontar para esta nossa cegueira, iluminá-la e retirar a evidência de nossas percepções usuais. Entretanto, esse movimento de forma alguma é negativo, destruidor de qualquer possibilidade de visão, mas positivo, pois nos impele ao vórtice criador de realidades e nos confirma a possibilidade de criar mundos diferentes. Apontando para a insubstancialidade do real, uma obra de arte modela o mundo de forma inédita e nos convida a modelá-lo também.

Eis a seguir mundos não imaginários, não fantásticos, mas mundos que já existem e nos povoam a todo momento…

Tamara

Tamara é, por excelência, a cidade dos símbolos. Cada coisa significa e aponta para outra coisa, que por sua vez aponta para outra coisa, num ciclo em que não há objetos em lugar algum, apenas simulacros, apenas simulações de realidade. “A tira bordada na testa significa elegância, a liteira dourada, poder” (p. 18). Tamara é, na verdade, o discurso sobre Tamara, uma ideologia toda encadeada que se propõe como realidade: “enquanto você acredita estar visitando Tamara, não faz nada além de registrar os nomes com os quais ela define a si própria”.

Tamara é o nosso mundo quando o vemos pelos olhos de uma ideologia. Por outro lado, não será verdade que estamos sempre em Tamara, mesmo quando nos libertamos de uma ideologia e criamos nós mesmos o sentido da existência?

Zoé

A cidade mais plástica da obra de Calvino, Zoé tem em qualquer de seus pontos a potência de ser qualquer lugar: “em todos os pontos da cidade, alternadamente, pode-se dormir, fabricar ferramentas, cozinhar, acumular moedas de ouro, despir-se” (p. 34). Ela é, por assim dizer, a cidade-mãe, a cidade que dá origem a todas as cidades – a cidade virtual que se atualiza incessantemente em infinitas cidades.

Poderíamos dizer que quanto mais uma determinada cidade se aproxima da plasticidade de Zoé, mais rica e virtuosa ela se torna, mais possibilidades abre a seus sujeitos para suas construções intersubjetivas (cultura, arte, pensamento) e interobjetivas (casas, edifícios, salas, objetos, produtos). Pelo interior da cidade, poderíamos dizer que quanto mais os sujeitos se tornam “cidadãos de Zoé”, mais eles se transformam em seres virtuosos, expandindo suas identidades e suas potências de ser, saber e conviver.

Zirma

Zirma é o que nossa cidade se transforma após assistirmos a um noticiário na televisão. Uma cena singular, de um evento único, é explicitada, repetida e reencenada até que nossa cidade fique repleta de cenas assim. E não apenas em nossa imaginação: a repetição é, sobretudo, ontológica. A televisão cria realidades na medida em que reforça alguns padrões de comportamento e ignora outros. A televisão “repete os símbolos para que a cidade comece a existir” (p. 23).

Olívia

Em Olívia, Marco Polo nos ensina muito sobre a qualidade espectral das cidades e sobre nosso poder e liberdade de atuação. Primeiro ele nos diz que “jamais de deve confundir uma cidade com o discurso que a descreve” (Calvino, p. 59). Isso fica claro com o que já exploramos neste trabalho, pois a cidade, no sentido amplo, é a condição de possibilidade dos discursos, visões e perspectivas, e ao mesmo tempo, no sentido restrito, é ela mesma estes discursos, visões e perspectivas. Portanto, Calvino parece se referir ao sentido amplo de cidade. Porém, logo em seguida, conclui: “A mentira não está no discurso, mas nas coisas” (Calvino, p. 59). Kant afirmou que a coisa-em-si não pode ser acessada, mas os pensadores pós-modernos deram um passo além: a coisa-em-si não existe. As coisas, nelas mesmas, são “mentiras”, ou seja, não significam nada, não são discurso algum. Somos nós que fazemos delas “verdades”, objetos significantes, realidades vivenciadas, por meio de nossos questionamentos, por meio de nosso olhar interrogativo. A falta de fundamento último do real é ela mesma o fundamento de nossa liberdade, de nossa ação criativa no mundo. A cidade não está definida, não está fechada em lugar algum, é uma “mentira” nela mesma: cabe a nós defini-la em mil verdades e realidades.

Maurília

“Para não decepcionar os habitante, é necessário que o viajante louve a cidade dos cartões-postais e prefira-a à atual” (Calvino, p. 30). Maurília é a cidade do passado. Seu presente tem como único papel ser uma janela ao passado e referência para comparação com a outra cidade nostálgica. Por ser cega para o seu próprio presente, “algumas vezes cidades diferentes sucedem-se no mesmo solo e com o mesmo nome, nascem e morrem sem se conhecer, incomunicáveis entre si”. Maurília é vítima de um autismo coletivo e é aquilo que qualquer cidade se torna quando sua referência ontológica é exterior, heterônoma, quando o poder é projetado para longe, seja no passado, no futuro, ou em algum outro fantasma.

Ousaríamos afirmar que quanto mais uma cidade se esforça por explicitar seu passado por imagens, objetos, fotos, objetos (os cartões-postais de Marília), menos este passado está incorporado neste presente, menos ela se desenvolveu, menos ela aprendeu com seu passado.

Zaíra

Zaíra é o contrário de Maurília. Se em uma o presente é vazio e fantasmagórico, sempre apontando para um passado que não mais existe, a outra faz o passado viver incorporado no presente, que é cada vez denso de experiências e possibilidades vivenciadas. O passado não está em iconografias, mas imerso e constituinte de cada fato presente.

Zaíra e Maurília são os dois extremos para os quais qualquer cidade pode tender em sua relação com o passado.

Anastácia

Anastácia é a sociedade de consumo. É o capitalismo imagético e imediatista. Há propagandas, outdoors, luzes, cartazes espalhados em todos os lugares e todos eles provocam um desejo e uma possibilidade de satisfação imediata. “Nenhum desejo é desperdiçado” (Calvino, p. 16) e muitas vezes o consumo é apenas de imagens, sonhos e simulacros. A propaganda induz um desejo e você já se satisfaz apenas por ver a cena do desejo sendo saciado.

Despina

Despina exemplifica a visão de cidade que vem sendo defendida neste trabalho. “A cidade se apresenta de forma diferente para quem chega por terra ou por mar” (p. 22), ou poderíamos dizer que a cidade se apresenta diferente para cada sujeito, para cada investida de poder, para cada postura.

Marco Polo nos conta que “cada cidade recebe a forma do deserto a que se opõe”, mas não seria verdade afirmar que cada cidade recebe a forma do sujeito a que se opõe? A diversidade de subjetividades cria uma miríade de objetividades – o aspecto positivo, ativo dessa não-dualidade, a liberdade – e a diversidade de objetividades, por sua vez, cria incontáveis subjetividades – e é este o aspecto negativo do poder, o lado passivo, a servidão. Por um lado, construímos a cidade, por outro, a cidade nos constrói.

Fedora

Fedora materializa o que acontece em todas as cidades. As esferas de vidro objetivam os mundos que se escondem na mente de todos os seus habitantes. Os projetos de cidade, as realidades existenciais, as perspectivas de cada ser, as cidades não compartilhadas. Engana-se quem pensa que tais mundos são ilusórios e meramente fantasiosos…

Leandra

Em Leandra acontece o debate oculto em todas as cidades, representado pelos deuses Lares e os Penates. Os Lares eles têm residência fixa, cada um sempre esteve na mesma casa. “Os Penates acreditam ser o espírito da cidade” (p. 75): eles acompanham os moradores e se movem junto com as pessoas. Afinal, o que faz uma cidade é a materialidade objetiva dos Lares ou a energia subjetiva dos Penates?

Irene

Irene é a cidade sem dentro. Ela nunca é vista de dentro, e nunca ninguém consegue adentrá-la. Talvez seja este o resultado da alienação dos sujeitos, da constante atribuição de poder ao exterior: chegará um dia que nossa cidade será Irene, cidade alienada de si mesma, sempre olhando-se de fora sem nunca conseguir encontrar seu ser em si mesmo.

Pentesiléia

O avesso de Irene, Pentesiléia é a cidade em que o “centro está em todos os lugares”. Marco Polo se pergunta: “fora de Pentesiléia, existe um lado de fora?”. Quando seus habitantes incorporam o poder e mergulham na imanência produtora do social, a cidade engloba a si mesmo em um dentro todo abrangente que abarca até mesmo seus exteriores. Pentesiléia invade todas as cidades com a seguinte pergunta: Existe mesmo um fora?

Procópia

Termino minha breve incursão em algumas das cidades de Calvino naquela que é certamente a cidade mais representativa deste trabalho e a metáfora arquetípica de meu pensamento.

A passagem de Marco Polo por Procópia ilustra o processo de emancipação em qualquer cidade imaginável. Em sua primeira estada, nada havia senão objetos, materialidades objetivas. Na segunda vez que esteve por lá, reconheceu um habitante isolado em toda a cidade. E cada vez que passava por lá, sua mente ia desvelando os sujeitos, um a um, que compõem a cidade. Procópia é, na verdade, feita de gente. Não apenas construída por pessoas, mas constituída delas, como sua própria matéria-prima. Procópia é o que surge na mente emancipada, na mente que reconhece o mistério que faz com que subjetividades se vivam objetivamente e objetividades se vivam subjetivamente. Procópia é o que vemos quando percebemos como nunca houve nenhum mundo concreto “lá fora”, mas sempre mundos (co)construídos por nós mesmos, seja atribuindo nosso poder a agentes externos, seja engajando-nos e imergindo na teia do real.

A Educação

“Todo sistema de educação é uma maneira política de manter ou de modificar a apropriação dos discursos, com os saberes e os poderes que eles trazem consigo”. (Foucault, 1970, p. 44)

Tomemos a afirmação de Marco Polo, ao descrever Olívia: “jamais de deve confundir uma cidade com o discurso que a descreve” (Calvino, p. 59). É possível distinguir duas espécies de educadores: os que ensinam discursos e os que ensinam a criar discursos, os que mostram imagens e os que ensinam a ver.

Em Zemrude, onde “é o humor de quem olha que dá a forma à cidade” (p. 64), educar é apenas apontar para as formas que já foram modeladas ou é ensinar a dar forma, ensinar a criar formas, a criar Zemrudes diversas?

As crianças, em geral, crescem em um mundo que se apresenta como definido e pronto. Elas aprendem como as coisas são, e dificilmente como vieram a ser deste e não de outro modo. Todos nós nascemos inicialmente em Tamara, a cidade que diz “tudo o que você deve pensar”. Antes de tentar ensinar algo a uma criança, o professor deve se perguntar: que mundo é este o nosso que possibilita o surgimento de Tamara? Como eu posso ensinar a olhar para além de Tamara, e como mostrar que Tamara é condicionada e foi algo construído?

Em Olívia e Tamara, entendemos que a educação para a emancipação, em qualquer cidade possível, é sempre a passagem da passividade pré-kantiana – terreno fértil para ideologias que se passam pela realidade como ela é – para a atividade pós-kantiana, que por dissolver a idéia de coisa-em-si, enfraquece as ideologias. As pessoas devem se descobrir como agentes construtores de realidades, cidades e mundos.

Em Leandra, seria a Educação a educação dos Lares sobre os Penates, da cidade sobre os sujeitos, ou a educação dos Penates para os Penates, de sujeitos para sujeitos, reconhecendo a predominância do sujeito criador sobre a cidade? Educação para adequação e reprodução ou Educação para transformação?

O professor, ele mesmo, deve passar por este processo de libertação para conseguir orientar seus alunos. Tal emancipação proposta pela Escola de Frankfurt, por Foucault, por Kant, é bem descrita por Berger e Luckmann em A Construção Social da Realidade:

“Por um momento vê-mo-nos realmente como fantoches. De repente, porém, percebemos uma diferença entre o teatro de bonecos e nosso próprio drama. Ao contrário dos bonecos, temos a possibilidade de interromper nossos movimentos, olhando para o alto e divisando o mecanismo que nos moveu. Este ato constitui o primeiro passo para a liberdade.” (Berger; Luckmann, 1966)

Antes de tentar ensinar algo a uma criança, o professor deve se perguntar que mundo é este o nosso que possibilita o surgimento de Tamara, a cidade dos símbolos, Zirma, a cidade que repete imagens, Maurília, com seu passado desincorporado, Anastácia, a cidade do consumo imediatista, Irene, mundo sem interiores, Fedora, a cidade de projetos…

A arte de formar agentes transformadores para Cloé, Eutrópia, Ercília, Melânia, Eusápia, Pentesiléia, Leônia, Olinda, Raíssa, Zirma, Despina, Dorotéia… À luz da obra de Calvino, não seria esta uma boa definição de Educação?

As coisas são feitas de nuvens. Tenhamos em mente Zoé (a cidade plástica) e Procópia (a cidade feita de gente), e eduquemos nossas crianças não para morar em tais cidades, mas para transformar nossas cidades em enormes Zoés e Procópias…

E o fim da viagem…

“Marco Polo imaginava responder… que, quanto mais se perdia em bairros desconhecidos de cidades distantes, melhor compreendia as outras cidades que havia atravessado para chegar até lá, e reconstituía as etapas de suas viagens, e aprendia a conhecer o porto de onde havia zarpado, e os lugares familiares de sua sua juventude, e os arredores de casa, e uma pracinha de Veneza em que corria quando era criança.” (Calvino, p. 28)

O esforço de descentramento, de desidentificação de nossa própria cidade, nos propicia um novo olhar para a Educação. Imaginando como seria a educação na Tamara, na Procópia, na Otávia, na Ândria de Calvino, acabamos por descobrir como educar nas Tamaras, Procópias, Otávias e Ândrias que já habitamos e que nos habitam.

Marco Polo é, antes de tudo, um educador por excelência. Aquele que mostra os mundos possíveis, os modos de ser que podem ser incorporados por nós, e não aquele que nos fixa no mundo como ele é, pois isto não existe. Ao contar histórias, ele acessa as cidades invisíveis – não inexistentes, não imaginárias, não ilusórias, mas possíveis.

Educação é, sim, iniciação ao mundo. Iniciação ao mundo como potência de mundos, iniciação à fonte das cidades invisíveis e ao poder inerente a todos de construí-las.

Se há um fim para o percurso educativo ou se há um fim para as viagens de Marco Polo, ele será como descrito pelo poeta T.S. Eliot: “… e o fim de nossa viagem será chegar ao lugar de onde partimos. E conhecê-lo então pela primeira vez.”

Bibliografia

  • BERGER, Peter; LUCKMANN, Thomas (1966). A construção social da realidade. Petropólis: Vozes.
  • CALVINO, Italo. As Cidades Invisíveis. (Tradução: Diogo Mainardi). São Paulo: Companhia das Letras, 1998.
  • FOUCAULT, Michel (1970). A Ordem do Discurso. 8.ed. São Paulo: Loyola, 1996.

Sobre o detalhe

por Gustavo Gitti | 22/05/2007 17:26 | Comente!

“Nós não percebemos que nunca de fato existiu uma história de amor. Olhe para suas relações passadas e tente lembrá-las com nitidez… O que há é o detalhe, somente ele, no limite do imperceptível, quase não existindo, antes mesmo do real – o detalhe. Ele nunca se mostra totalmente e não conseguimos apontá-lo ou delimitá-lo com certeza. Para os leitores de Borges, uma imagem: coloque dois detalhes lado a lado; se você começar a prestar atenção em um, nunca mais conseguirá olhar para o outro, sequer saberá qual deles você notou primeiro ou que eram originalmente dois.”

Mais aqui neste blog sobre relacionamentos.

Hai-kais não tradicionais

por Gustavo Gitti | 27/03/2007 10:08 | Comente!

Escrevi isso há um bom tempo… ;-)


Nas montanhas prenhes
o universo agradece:
Plantação de nuvem.

A fêmea apanha
O macho bate:
Suco de uva!

“A maçã de Newton
subiu ao chão”
Albert Einstein.

Éden

Vê, pega e põe na boca
A maçã se come
e vira homem.

Palavra verdadeira
aquela que fura o papel.
E atrás, o real

A aranha gentil
agratece a presa:
mosaico labiríntico.

Os olhos se tocam
As mãos se olham
Mágica do nariz.

Novo post no blog "Não dois, não um"

por Gustavo Gitti | 10/03/2007 19:30 | Comente!

“Nós podemos restringir as emoções, pensamentos e movimentos corporais do outro somente com nossos olhos.”

“É porque mudamos constantemente que ficamos juntos. Ou seja, eu gosto do outro não precisamente pelo que ele é mas por aquilo nele que se transforma nos vários que o habitam. É a liberdade de um que se conecta com a liberdade do outro.”

“Minha teimosia ama a falta de argumentação do outro. Meu orgulho ama o complexo de inferioridade do outro. Esse conjunto de arpões constitui um casamento entre carências e medos. É por isso que aqui o ódio está a um passo do amor, como ensina a sabedoria popular: minha teimosia o ama enquanto ele não a confronta, meu orgulho o ama enquanto ele não o destrói, meu medo o ama enquanto ele me mantém segura e confortável.”

Mais no blog http://nao2nao1.blogspot.com

Bulhufas

por Gustavo Gitti | 23/02/2007 17:41 | Comente!

O fato é que não sabemos nada. E mesmo a posição humilde do “só sei que nada sei” também não se sustenta. Ambas são puro orgulho ou carência – e qualquer desses venenos só surgem porque desejamos camuflar nossa cegueira básica. Como ensina David Loy, temos medo de perceber a ausência de um “eu” central e por isso nos esforçamos para ser e existir. O mesmo com nosso conhecimento e nossas certezas internas. Temos medo de reconhecer nossa ignorância suprema e então caímos em visões particulares (a “só sei que nada sei” é uma delas, aliás).

Nós nos equilibramos em certezas e incertezas. Oscilamos entre saber e não saber. Mas mesmo com certezas e saberes, o fato é que não sabemos nada. Não sabemos sequer o que sabemos: escovar os dentes, conversar, escrever, trabalhar, olhar, andar. Sabemos muito, sim, e justamente por sabermos cada coisa é que não sabemos nada. Analise cada crença interna e verá que são todas grandes e complicados equívocos. Somos bêbados batendo cabeças. Não chegaremos a lugar algum.

Eu tenho dificuldade até em respirar, que é a ação na qual eu deveria ter a maior experiência. Imagine andar, falar, me comunicar. Imagine então pensar, sentir, amar. Imagine então viver… Eu respiro apenas durante 1% do meu dia. Isso nos dias em que eu respiro. Na maioria deles, eu tensiono o corpo e sigo contraído o dia todo. Uma vez no mês respiro fundo e lembro: “Como é bom isso!”.

Como não conheço a satisfação de uma vida cheia de respiração, busco sorvetes caros, chocolates, seriados, filmes, checar emails, livros, músicas, mulheres, diversão. E como não sei sequer ter prazer com a respiração, consumo toneladas de doces, conversas, palavras, sons e nada sinto. Toda ignorância é uma forma de anestesia.

Por que mesmo eu checo meus emails mais de uma vez por minuto mesmo quando estou concentrado fazendo outras coisas? Por que mesmo eu limpo minha lixeira e caixa de spam mais de uma vez a cada dez minutos? Será que eu realmente acredito que algum dia chegará um email que mudará minha vida? Qual o fim desse ciclo de insatisfação?

Qualquer fala ou decisão radical em relação a isso é perda de tempo. Qualquer certeza, qualquer incerteza, qualquer posição é estéril. Só nos resta a escuta.

Silenciosamente prestamos atenção aos sons do mundo. Sem descansar, sem vacilar, olhamos tudo, ouvimos cada movimento. Não é possível aprender nada, pois aprender é tentar falar enquanto se ouve. Apenas nos abrimos para o caos do mundo, sem poder sequer afirmar certezas ou incertezas e, pior, sem poder sequer deixar de lançar afirmações.

E então escrevemos em blogs, silenciosamente, oferecendo nossa escuta – e não nossa fala – ao outro. Oferecemos a espacialidade da nossa boca calada. Oferecemos o que não temos. Nossa ausência é o melhor presente e é, na verdade, nossa verdadeira presença.

O fato é que não sabemos nada.

Polirritimia

por Gustavo Gitti | 03/02/2007 23:01 | Comente!

Tocando uma polirritimia 5:3 (ciclo de 15) na bateria. Meu amigo toca uma 4:3 (ciclo de 12). Gravado na minha antiga casa, em Nov/2005, e enviado para o criador deste método. Mais informações no meu blog sobre ritmo: www.takadime.com

Babel e o Centro do Mal

por Gustavo Gitti | 02/02/2007 20:05 | Comente!

BabelO que você faria se encontrasse o responsável por todos os males, crimes, injustiças e catástrofes da humanidade?

A garrafa de whisky custava exatos 199 reais. Um dos meninos olhou, tateou e se afastou. O outro, irritado, meteu a mão, aproximou do limite da prateleira e deixou ali. “Vai, pega!”. Mas ele mesmo foi e pegou. Na fila do caixa, diante de todos, sem tentar esconder, ele colocou a garrafa embaixo da camiseta e andou lentamente para fora do supermercado. Pelo menos umas cinco pessoas viram tudo acontecer de perto e fingiram uma aparente ingenuidade. Quem se camuflava e se escondia ali eram os cidadãos da classe média e não os ladrões! Eles me pediram licença, eu hesitei, abri espaço e esperei os dois saírem para avisar um funcionário. Pensei que seria melhor eles se darem mal agora com um whisky do que futuramente com uma vida em mãos. Fui para casa lembrando dos olhos do menino que pegou a garrafa, assustado com qualquer pessoa ao redor, tomado pelo medo e pela certeza de que, sim, as coisas podem dar errado, bem errado, e que não há nenhuma justiça suprema nos protegendo.

Semana passada assisti ao genial Babel, fruto da mesma parceria (Alejandro González Iñárritu e Guillermo Arriaga) que gerou o igualmente excelente 21 Grams. Babel (no spoilers ahead, podem ler despreocupados) é ainda mais deserto e sem esperança do que seu antecessor. Um longo repouso na dor, uma meditação analítica sobre o sofrimento e sua insubstancialidade, sobre a culpa e sua inexistência. Ao contrário do que enfatizou a mídia, a força do filme não está em discutir culturas e barreiras ou a interdepedência dos tecidos humanos (tão bem explicitada por filmes como Crash, Magnolia ou pelo próprio 21 grams). É algo muito mais simples: nos comovemos ao perceber como as coisas, inevitavelmente, dão errado e como não há ninguém para culpar.

Em Magnolia, aliás, há uma cena emblemática: um dos personagens gasta todo seu dinheiro para colocar aparelho nos dentes e pouco tempo depois cai com a boca no chão, quebrando toda a arcada superior. Well, shit happens, e simplesmente não há nenhuma saída para isso. Para além do pessimismo (que esconde uma esperança das coisas darem certo), essa é uma perspectiva liberadora pois nos força a repousar na incerteza. Com ela em mente, é possível se livrar das características de filhos mimados que confiam em um pai e mãe superiores e encontrar uma saída que seja verdadeiramente autônoma e transcendental, além do domínio dos fenômenos, além do alcance da merda. É a base, por exemplo, da Acceptance and Commitment Therapy – ACT (lê-se como “ação” em inglês, não como sigla), desenvolvida por Steven Hayes, psicólogo e professor da Univerdade de Nevada. Para tal treinamento de liberdade, temos de enfrentar aquilo do qual fugimos e contemplar detalhadamente a face do mal.

O menino do mercado poderia ter se desesperado e matado uma mulher. Seu marido culparia o menino, a desigualdade social, a economia, os seguranças do mercado, Deus ou a si mesmo (por ter levado a esposa aquele dia para as compras)? O marido poderia matar o menino logo em seguida. Quem você culparia? Isso ocorre todos os dias e não é nenhum absurdo que seja assim. Babel mostra o que aconteceria se investigássemos cada crime, cada morte, cada injustiça, cada atrocidade e encontrássemos, enfim, o grande culpado por tudo. No filme, temos a chance de olhá-lo nos olhos.

Pois saibam que a fonte de toda negatividade, o centro do mal, o criminoso supremo que Hitler mal conseguiu imitar, é um menino marroquino que ri, se masturba, se apaixona e sente o vento de braços e poros abertos. E, antes que perguntem, não estou brincando, sendo irônico ou querendo dizer outra coisa. Isso não é uma metáfora. O centro do mal é um menino. É ele o responsável por todas as mortes, roubos, desastres, catástrofes, problemas, seqüestros, bombas e acidentes afins. O filme também nos oferece a oportunidade, inédita, de matá-lo. Nós com uma metralhadora e ele de braços para cima assumindo em voz alta todos os crimes já ocorridos em todos os tempos e espaços humanidade afora.

Infelizmente não conseguimos (podemos, mas não desejamos) matar o menino. Ele é por demais bom. Sua natureza não é má. Ao olhar a fragilidade e docilidade do menino, eis que algo que se torna óbvio: o centro do mal não existe. Não temos sequer um inimigo a combater senão nossa própria cegueira em ver inimigos em todo lugar! Voltando ao argumento da saída transcendental, agora é fácil entender que temos de parar de buscar um local seguro que não seja atingido pelo mal. Haverá mal onde houver cegueira: ele nos perseguirá até o topo da montanha encantada da felicidade.

A saída é encontrar o menino que incessantemente aponta para nossa natureza livre e luminosa, que desde sempre está além de qualquer negatividade, além de bem e mal, intocada pela merda. No mundo construído do “shit happens”, cada coisa nasce e morre, cada coisa sofre e se desespera, enquanto nossa verdadeira natureza assume e desconstrói todos os pecados, perdoa a si mesma logo de saída e sorri para cada desastre ao ver que todos ali estão livres das bombas, que seus verdadeiros corpos não nasceram e não serão destruídos. Somos, cada um de nós, o menino que se masturba e se apaixona. Quem, então, poderemos culpar?

“Sob o ponto de vista convencional, não negamos o bem e o mal, noção que consideramos verdadeira. Mas afirmamos que, sob o ponto de vista absoluto, sob uma visão última, não há um centro do mal. O que existe, sob o ponto de vista absoluto, é a compreensão de que a nossa natureza não pode ser afetada pelas circunstâncias que afetam nossas identidades e nosso corpo. Portanto, sob o ponto de vista da natureza última, não há nada que nos derrube, nos afete, nos destrua. Olhando em qualquer direção, não vamos localizar uma origem de mal, vamos ver apenas uma natureza ilimitada vitoriosa, que não pode ser atingida. É uma perspectiva muito importante, pois não vamos trabalhar com a noção de que há um centro do mal, ou que há um complô que deseja afundar o navio, ou que as pessoas querem a infelicidade ou querem justamente o sofrimento. Não vamos trabalhar com essa noção. Isso não é muito simples, pois esta noção de exclusão, de mal, está muito arraigada dentro de nós — a idéia de que precisamos de uma espada ou um revólver e assim tudo vai ficar melhor.” –Lama Padma Samten

* Texto publicado na revista de pensamento budista Bodisatva nº 15.