Self-made man

por Gustavo Gitti | 22/12/2006 15:18 | Comente!

Em uma sociedade que valoriza o self-made man (o cara que começa vendendo cachorro-quente e vira empresário bilionário), minha vida atua conforme uma lógica completamente oposta. Todas as coisas que dão certo para mim aparecem quando eu não me coloco na posição de self-made man, quando não faço esforço algum. Pelo contrário, quando ajo como self-made man, quando sou EU quem faz as coisas, minhas estatísticas internas mostram que em 90% dos casos eu me dou mal.

Se eu quero saber se estou tomando a decisão certa, basta que eu me pergunte: “Você fez algum esforço? Essa foi uma idéia exclusivamente sua? Tudo surgiu de você?”. Se a resposta for positiva, é melhor eu tomar cuidado…

Não fiz esforço algum e nem me dediquei para as grandes coisas que surgiram na minha vida. O emprego atual (estou lá há 4 anos) foi indicação de um amigo. Nem precisei levar currículo, me cadastrar na Catho ou participar de processos seletivos. A namorada atual (mais de 4 anos) veio até mim e quis ficar comigo mesmo quando eu fazia tudo errado para afastá-la. Sem esforço algum, no self-made man.

A casa onde morei por 2 anos foi encontrada por um amigo. O apartamento onde estou agora não fui eu quem achou. Não, a minha exaustiva procura não deu em nada. Um dia uma amiga me liga e passa o telefone de uma conhecida (que ela não via há tempos, mas esbarrou na rua). Eu ligo e em uma semana o apê é meu. Sem burocracia, sem esforço.

Lama Samten diz que se quisermos andar rápido, é melhor andar devagar. Ele ensina que devemos nos posicionar e deixar que o universo gire. Eu não tenho essa sabedoria, mas confio que seja assim. Por enquanto, está dando certo, justamente porque o curso das coisas não depende de mim, não está na minha mão. Tudo seguirá bem enquanto eu não estiver no controle, enquando eu não for dono de minha vida, enquanto nenhum self-made man existir por aqui.

Sobre Chão e Nuvens: Lost e o sentido da vida

por Gustavo Gitti | 22/11/2006 18:49 | Comente!

“Me, well, I’m a man of faith. Do you really think all this… is an accident? That we, a group of strangers survived, many of us with just superficial injuries? Do you think we crashed on this place by coincidence, especially this place? We were brought here for a purpose, for a reason, all of us. Each one of us was brought here for a reason.”

“The island. The island brought us here. This is no ordinary place, you’ve seen that, I know you have. But the island chose you, too, Jack. It’s destiny.”

(Falas do personagem Locke, na série Lost)

Acabei de assistir novamente ao último episódio da segunda temporada da série Lost (não se preocupem: “no spoilers ahead”). É fascinante observar a relação de cada personagem com os mistérios da ilha. Ao se perguntarem sobre o significado de tudo, eles se mostram caricaturas perfeitas dos seres humanos. Cada um de nós acredita com todas as forças em algum roteiro, em algum sentido, em uma mitologia pessoal que nos conforta e encaixa todas as peças perdidas em nossa mente, todos os retalhos de nossa história. Nós não só acreditamos que algo de fato aconteceu, mas agimos defendendo tal crença (observe os personagens Locke e Eko diante do contador).

Uma das coisas que gosto nos teóricos do neodarwinismo, como Daniel Dennett, é essa total ausência de télos, de sentido último, de finalidade. Não há Deus, não há natureza humana, não há ponto de referência algum, segurança alguma, fundamento nenhum. Não há nenhum princípio eterno, nada transcendente. Estamos sós, estamos jogados no mundo, estamos lost. É quase um existencialismo com bases biológicas. É quase um Budismo, mas sem as terceira e quarta nobres verdades (sem 90% do Budismo) – ensinamentos que focam a liberdade por meio da percepção da luminosidade e vacuidade dos fenômenos.

Se você observar o tecido social se movimentando, verá que cada um está buscando fazer sua própria revolução, cada um tentando fazer sua história, obter sucesso, etc. Justificamos nossas ações com nosso télos pessoal (o sentido da vida imanente às nossas crenças). Queremos ser PhDs, ganhar muito dinheiro, ter muito tempo livre e ser respeitados e amados. Basicamente é esse nosso objetivo. Gastamos todas as nossas energias nesse processo. Nossas metas e os caminhos que nos levam até elas são definidos por nosso télos, nosso sentido último para a existência. Fazemos um grande e incessante esforço para negar nossa condição lost e construir castelos de areia em cima de nosso auto-engano. Sem querer, viramos prisioneiros de nosso próprio destino, fechados em nossa microrevolução, condenados a repetição de scripts pré-fabricados coerentes com o sentido da vida que acreditamos ser concreto.

O que poucos percebem é que se alguém for bem-sucedido nesse caminho, será apenas um entre trilhões de seres que conseguiram chegar até o fim de seus castelinhos de areia, até o último ornamento, até a última torre, antes da próxima onda derrubar tudo. Seres que continuaram insatisfeitos e morreram ainda se esforçando para não ver que seus castelos eram de areia. Nossos télos pessoais não nos levam a lugar algum e não contribuem em nada para aqueles que não compartilham dele. Se eles ainda nos fizessem felizes… Mas nós mesmos somos os principais prejudicados: “Quando eu comprar meu apartamento, aí sim as coisas vão melhorar e eu vou poder relaxar e curtir a vida”; “Quando acabar a semana de provas, ficarei mais aliviado”; “Quando eu arranjar um bom trabalho, aí sim!”. Eu já ouvi inúmeros “aí sim” e alguns “agora sim!” que não duraram mais de uma semana. Você já conheceu alguém que disse “agora sim!” e ficou, simplesmente ficou aliviado por meses seguidos?

Se pudéssemos analisar cada momento, detalhada e exaustivamente como um cientista, veríamos que nossa vida não tem sentido algum. Nossa revolução pessoal é completamente dispensável. Nessa postura sem saída, começamos a não mais colocar tanta energia em nossa busca por um sentido, tantas movimentações para conseguirmos nosso sucesso. Qual o sentido então para viver? Devemos todos nos suicidar? Essas duas perguntas mostram bem o quanto sentimos que precisamos de um sentido para viver, de um chão seguro para andar. O suicídio é também motivado por algum télos. Sem télos pessoal, sem frustração. Qual o sentido em se suicidar? O verdadeiro cético não se mata. Ele sorri.

E então, do existencialismo cortante, do neodarwinismo cru, da ausência de chão budista, pode naturalmente surgir uma disposição incessante. Como não estou tão focado em realizar meus sonhos samsáricos, posso olhar para fora e observar cada ser em seu trajeto rumo à felicidade, seguindo seu télos pessoal. Antes não tínhamos tempo nem energia para ajudar os outros. Agora temos tempo, energia, mãos e olhos — estamos finalmente disponíveis. Tal energia vem do alívio de superar o esforço, abandonar o constante auto-engano e simplesmente tocar a areia de nossos castelos e sentir as nuvens sob nossos pés. O que antes era chão definido, agora é nuvem que toma várias formas. O chão tinha a face de nossos medos e essa contração amedrontada era a base de nosso télos. As nuvens têm a forma de nossos sonhos. A ausência de chão nos libera para sonhar na medida em que nos desperta para a natureza onírica de nossa vida, para a textura deliciosa da areia de nossos castelos, para o frescor do mar que vem nos derrubar.

Aprendemos lentamente, como um bebê, a pronunciar: “O que eu posso oferecer?”. Imbricada em outras, aí sim nossa vida ganhará sentido — não apenas um, mas vários. Na ilha de Lost, vemos Locke agindo de acordo com sua crença em um fundamento e sempre buscando um sentido para sua vida, o significado real da ilha. O que aconteceria se ele acordasse para a ausência de fundação, para a inexistência de um significado último? Libertando-se de suas próprias memórias, de sua coerência interna que impulsionava suas ações, ele poderia se interessar pelas memórias dos outros, por suas histórias, coerências e ações. Para acordar e levantar, ele não mais precisaria pensar que a ilha é um milagre e que há um destino. Ele, como nós, não precisa de um chão para andar. Bastam nuvens para sonhar. E ele sonharia com sorrisos na face de todos os ilhados, não porque é esse o sentido último da ilha mas simplesmente porque esse é um bom sonho, uma imagem que o faz sorrir também. Locke não mais sairia em busca de seu destino, mas buscaria se inserir positivamente em cada destino sendo perseguido pelos seres ao seu redor. Em cada inserção, em cada conexão estabelecida, novos mundos surgiriam, novas formas das nuvens, novos sonhos sustentados coletivamente. Sua vida, enfim, seria enriquecida naturalmente, sem a necessidade alguma de sucesso, fama ou dinheiro. Na ilha de Lost é mais fácil entender que o sentido de uma vida surgirá sempre em sua conexão com outra.

Chegamos, então, a uma conclusão curiosa: o sentido da vida leva a uma vida sem sentido, e a ausência de sentido da vida leva a uma vida com sentido, uma existência significativa. Isto porque tal sentido transcendental, justamente por não ser sentido algum (vazio de significado, pura abertura), pode se expressar em uma rica multiplicidade de sentidos imanentes, mundanos, o que sacia até mesmo a nossa busca original!

Presos em uma jaula, sem ninguém lá fora, sem nenhum Deus, sem esperança alguma de descobrir o sentido de tudo, segurando apenas a certeza da morte, dois seres se beijam. Na ausência total de chão, nossa condição natural, eles não se matam, não se desesperam, não choram, não se deprimem: eles se beijam. Sem bondade cósmica, quando tudo explode em sangue e nada faz sentido, só nos resta a arte, só nos resta o amor, só nos resta nossa humanidade (não a inata, mas aquela que construímos a cada instante, diriam os existencialistas). Sem chão, restam nuvens sob nossos pés. Sem Deus, restam todos os outros, cada mundo, cada pessoa ao nosso redor. Sem roteiro último, os roteiros dos filmes ficam mais interessantes, mais reais — e o nosso próprio roteiro, em uma lógica inversa, mais interessante por se desvelar mais onírico. Os castelos continuam sendo de areia, mas agora não precisamos xingar as ondas. Podemos nós mesmos pisar em cada torre e sair andando pela praia. Continuamos ilhados, sempre, mas não há necessidade de resgate. Apenas ficamos e sorrimos. “Agora, sim!”…

* Publicado na revista de pensamento budista Bodisatva nº 17.

Lady in the Water: a magia do sonho coletivo

por Gustavo Gitti | 04/09/2006 1:42 | Comente!

A Dama na Água

“As pessoas estão presas, mas quando nós as vemos presas nós as aprisionamos, damos nascimento a elas como pessoas presas. Mas elas não estão presas! Elas pensam que estão presas e eu também penso que elas estão presas. Por isso, nós não permitimos que elas surjam livres.

Então o primeiro passo é vermos aqueles seres livres. Quando desenvolvemos essa visão, nós vemos a devastação do karma, porque nós, de modo geral, olhamos as outras pessoas e as aprisionamos com nossos olhares. Nós não permitimos lugares às pessoas, não damos nascimentos de liberdade para elas. Nós congelamos elas. Nós vemos a devastação do que significa dar nascimento inferior aos outros, e a devastação que isso causa para nós porque tentamos aprisionar o outro à nossa visão e ele anda, e aí temos sofrimentos no meio de tudo isso.

Nós vemos como é maravilhoso agora nós olharmos essas pessoas todas e agora nós vamos dar nascimento elevado para eles. Ou seja, eles podem, eles têm qualidades, todos eles têm a natureza de liberdade, eles podem fazer diferente do que estão fazendo. Nós começamos a pensar também assim. Não só vemos a paisagem, como na nossa mente começamos a raciocionar e podemos até dar sugestões, facilitar coisas, para aquele ser comece a se manifestar segundo essas qualidades que nós negávamos.

Então, quando nós damos esse nascimento sutil a partir de uma paisagem que inclua o outro de uma forma elevada, tudo se transforma.”

Lama Padma Samten

[No spoilers para quem ainda não assistiu, leia sem receios]

Uns adolescentes rindo na fileira de trás. Não sei se tiravam sarro do filme ou de mim, que chorava. Esse é o espírito de Lady in the Water, o novo do M. Night Shyamalan. Se você aceita ser criança e se está acostumado a viver mitos, o filme se desenvolve como uma obra-prima. Se vive factualmente como um adulto comum, não há envolvimento e as cenas mais significativas passam a ser as mais engraçadas, clichês patéticos, ridiculamente inverossímeis.

O roteiro do filme é baseado em uma história que o diretor contava para seus filhos. Virou livro. Assim como em seus outros filmes, o tema espiritual é bastante claro e pode ser interpretado tanto por um viés mais judaico-cristão quanto por um olhar budista. “Propósito”, “missão na Terra”, “destino”, diriam alguns cristãos ou alguns kardecistas. Mas prefiro pensar que o filme fala algo mais simples ainda: como um ser pode adentrar uma pequena comunidade e instalar ali a magia da liberdade e um espaço de acolhimento e de amor – aqui entendido como a capacidade de ver as qualidades positivas dos outros e desejar que elas aflorem.

Assim como Sinais não era sobre extraterrestres e A Vila não tinha nada a ver com isolamento social, A Dama na Água também não é uma história sobre ninfas e monstros. É um ensinamento para que possamos agir com liberdade de visão, reconhecer qualidades nos outros e trabalhar para que elas se desenvolvam.

Em vez de propósito pré-definido, os seres possuem apenas configurações cármicas (o simples fato de ser homem ou mulher é um deles). Curiosamente, é justamente desses condicionamentos, inicialmente aprisionantes, que nascerão os meios hábeis específicos para nossa atuação no mundo. Se hoje sou um esquizofrênico, quando curado terei muita habilidade para tratar loucos. Se hoje lidero com facilidade minha gangue de traficantes, amanhã poderei liderar um projeto pela paz. Ou seja, quando a lucidez passar por seu corpo e mente, haverá apenas um Buda como você — e o mundo precisa urgentemente de todas as nossas habilidades inundadas de sabedoria e compaixão.

Nosso propósito não está definido, já diziam os existencialistas. Temos de nos observar e perceber quais são nossas habilidades e como podemos servir a essa inteligência que faz as coisas funcionarem, a esse amor que faz as galáxias girarem e as abelhas polinizarem as flores. “O que eu tenho a oferecer?” parece ser a pergunta-chave para nos abrir ao mundo e para que o mundo se abra a nós. Quando direcionado com um olhar ao outro (“O que ele pode oferecer?”), é também a pergunta que o faz irradir o seu melhor, e cujas respostas o abrem para nós e para ele mesmo.

O percurso do filme deixa claro que nossas histórias não fazem sentido nelas mesmas e, principalmente, que nossas habilidades e identidades são inúteis dentro de nossa própria história! Nossos sonhos individuais são estéreis e fadados à decadência. Nossas histórias e nossas habilidades são parte de um sonho coletivo; temos apenas de trazê-lo à tona, encarnar o mito.

Vivemos uma vida com sentido na medida em que nos conectamos com os outros usando o melhor de nós e quando, com nossa simples presença, fazemos surgir o melhor de cada um. Nossas mãos são a sabedoria. Nossa pele, a compaixão.

Em uma das falas finais do filme, vemos que salvamos a vida do outro quando a acolhemos, percebendo o que ela pode vir a ser e ajudando o outro a nascer dentro desse novo sonho mais elevado, mais virtuoso. Podemos nos salvar uns aos outros, infiltrar magia por todo lado e nos entregarmos a novos mitos, como crianças brincando de faz-de-conta. A natureza onírica e insubstancial do real nos permite isso: que imaginemos, fantasiemos e criemos uns aos outros, como que em uma inverossímel fábula na qual todos desejam acreditar.

* Publicado na revista de pensamento budista Bodisatva nº 16.

Aniversário

por Gustavo Gitti | 24/07/2006 8:45 | Comente!

Cabeça esfregada no lençol. Você acorda e lembra que os outros disseram que é seu aniversário. Você quer acreditar mas não se recorda de ter nascido nesse dia ou em qualquer outro. E assim passa o dia: como qualquer outro. Você levanta, toma banho, vai trabalhar, se cansa. Volta para casa e enfia a cabeça, esfregando no lençol. Você quer só 5 minutos para você. Olhos fechados, ouvindo a própria respiração pela primeira vez no dia, se espreguiçando sem se mover. Segundos assim e sua namorada vem reclamar, dizer que está atrasado para o jantar, que 5 minutos é muito, que você tem de tomar banho, que assim não dá.

5 minutos é muito mesmo. Sua vida não é sua. Sua vida não é para você. Não é por acaso que não lembra de ter nascido. Você não quis nascer, quiseram por você. Você vive para os outros e é assim que tem de ser. O jantar, aliás, não envolve sua comida preferida e nem será naquele restaurante que você estava querendo tanto conhecer. O jantar é para sua família. Seu trabalho é para a empresa. Suas ações, para os outros.

Antes de levantar, você pede um carinho e começa a contar a única coisa do dia que não foi completamente esquecida. E quem quer saber do seu dia? Você está aqui para ouvir. Coloque-se em seu lugar. Triste seria se você conseguisse o que deseja, se vivesse para si mesmo, se você mesmo lembrasse de seu aniversário, se houvesse comemoração.

O único presente do dia é um bolo, feito à mão, total carinho. Não se preocupe, porém: você não vai comê-lo sozinho, o bolo seu é de todos. Começa uma depressão quando você percebe que ainda é uma pessoa que precisa de presentes. Só que os anos 70 do Aerosmith estão entrando ouvido adentro e quem mesmo precisa de presentes?

Cantam parabéns e você come o bolo. Você não sente o gosto e não vai conseguir se lembrar dele depois. Isso porque ele foi feito para você e não é assim que funciona. Na sua memória estão as coisas que fez pelos outros. No coração, vivem ainda somente as felicidades que presenciou nas faces diante de você. Aquela sua alegria, que não se refletiu em nenhum outro ser, é facilmente esquecida.

Volta do jantar e encontra o lençol marcado por sua cabeça. Você deita e esquece de você mesmo. Para além da depressão, não ter vida própria é liberação. Um dia você sequer deixará marcas no lençol ou rastros pelo chão. Sem precisar de aniversários, encontrará a alegria insuperável de preocupar-se só em fazer bolos para os outros – e só haverá outros. O sorriso derradeiro virá quando ninguém mais se lembrar de você. Você torce para que isso não demore. Como diz Borges, a meta é o esquecimento.

Conselho para mim mesmo

por Gustavo Gitti | 23/12/2005 19:10 | Comente!

Não há rascunho nem retoque. Viva sem acreditar em segundas chances.

Jogos Mortais: Transcendência na carne

por Gustavo Gitti | 09/11/2005 8:55 | Comente!

Atenção: não há nenhum spoiler abaixo, portanto mesmo aqueles que não viram sequer o primeiro filme podem ler sem preocupação, ainda que sem entender as relações estabelecidas.

Quando eu vi o primeiro filme, imediatamente gostei da abordagem. Já vi outros filmes tratarem da morte em uma perspectiva ampla (Fearless, “Sem Medo de Viver”, é um bom exemplo), mas Jogos Mortais me atraiu por incorporar tal visão sem deixar de apresentar a morte com toda a sua crueldade, violência e muito, muito sangue, é claro.

As duas obras não são tratados sobre a morte e as infinitas formas de executá-la com perfeição e genialidade, mas uma introdução à vida e as incontáveis formas de vivê-la de forma lúcida, com destemor, os dois pés no chão e um olhar que não hesita. Eu não me esqueço do ensinamento de mestre Caeiro: sabedoria é um modo específico de andar com os dois pés.

Mestre também é o articulador dos jogos. Quem o vê como monstro insensível apenas deixa-se cegar pelo seu próprio medo. Atente para seu olhar fixo, sua postura imóvel e sua mente concentrada e compassiva. Se conseguir, tente assistir a Jogos Mortais sem medo, com o coração aberto; sem fixar-se na morte dos seres, mas observando cuidadosamente a destruição de seus obstáculos; sem evitar o sangue e as cenas nojentas, mas contemplando-as a fundo, no limite de cada gota, de cada corte, para compreender a gravidade da confusão humana. A sabedoria do filme é colocar a morte diante de nós. A regra do jogo é somente um ensinamento: transforme-se ou morra.

Saí hoje do cinema com um brilho no olhar. Ou melhor, tudo ao meu redor adquiriu um brilho diferente, uma luminosidade que raramente surge em minha realidade sensorial. Ela permanece e aproveito para escrever enquanto dura. Infelizmente, devido a nossa cegueira habitual, kármica, amanhã quando eu acordar as coisas estarão um pouco mais sólidas e a luminosidade aparecerá como formas concretas.

Enquanto essa abertura segue, porém, eu me vejo agora dentro do filme, dentro do jogo. Estamos, eu e você, no meio de uma sala, ouvindo instruções sóbrias de alguém especialista em meditar sobre a morte, com nossas vidas por um fio. Se isto fosse retórica, recurso poético, eu estaria feliz. No entanto, nós estamos de fato, para além de qualquer ficção, dentro de um jogo mortal (e talvez os cenários dos dois filmes sejam a melhor representação do processo samsárico já produzida pela humanidade!), dentro de uma grande sacanagem, uma irônica e perigosa “pegadinha” cósmica – mas nesse caso, para piorar ainda mais, não há criminoso, culpado, nenhum articulador fora do jogo.

A saída parece estar dentro de nosso olho, para que renunciemos às nossas fixações a objetos e paisagens exteriores, e também atrás de nossa cabeça, em nosso ponto cego, para que os outros possam olhar por nós e nos contar quem somos, para que possamos nos contemplar uns aos outros e adentrar o labirinto de espelhos do real, reconhecendo o outro como um sonhador que constrói conosco esses sonhos intricados, belos e sem saída.

Saída sem saída, pois Jogos Mortais é transcendência pela angústia existencial, espiritualidade virando a pele do avesso, sabedoria que surge quando retiramos e reviramos nossos globos oculares.

Reencarnação

por Gustavo Gitti | 18/10/2005 10:18 | Comente!

Tanto Ken Wilber quanto as tradições de sabedoria enfatizam nossa natureza além de vida e morte. Por isso, Wilber dedicou tão pouco papel para o tema “reencarnação”. O foco de Wilber e o foco último da prática espiritual não é este.

Temos, em resumo, três níveis de ensinamentos que correspondem a três níveis de compreensão e implicam em três níveis de prática.

1. Se você consegue compreender a noção de não-nascido, melhor. Não perca tempo com teorias sobre reencarnação ou renascimento. Tais processos serão óbvios e naturais a partir da compreensão do não-nascido. Pratique para desvelar sua natureza além de tempo e espaço, além de vida e morte e aja no mundo de forma a trazer à tona esta mesma natureza não-nascida nos seres. Esta é a prática mais eficaz e corresponde aos níveis causal e não-dual, no modelo de Wilber. Como ensina os mestres budistas: “qual a sua face antes de seus pais nascerem?”.

2. Se “não-nascido” é um conceito que não faz sentido para você, não tem problema. Você pode reconhecer que as ações que você pratica nesta vida repercutirão karmicamente formando novos seres de acordo com as tendências e hábitos e modos de ser que você teve nesta vida. Agindo desta maneira, sua ética estará baseada no nível sutil (o que é realmente maravilhoso). Esta compreensão de renascimento corresponde ao nível sutil de Wilber, com a compreensão de vacuidade.

3. Se “renascimento” parece muito abstrato, você pode trabalhar com a idéia de “reencarnação”. Este seria o nível sutil sem a compreensão de vacuidade, pois tomamos os seres de forma sólida, como identidades fixas que seguem reencarnando. A ética é do nível sutil também, mas a não compreensão da vacuidade dificulta um pouco as ações benéficas, pois você terá um pouco mais de dificuldade em desvincular o ser de sua confusão, em ver a liberdade não-nascida em cada ser. Mas ainda assim, tal ética é bastante sofisticada pois reconhece uma continuação da experiência, da existência.

Se você puder praticar 1, melhor. Este é o foco desta lista, dos escritos de Wilber e dos ensinamentos mais importantes das grandes tradições. Se puder o 2, ótimo! Se puder o 3, maravilha!

Validando todas as práticas (princípio 1 de Wilber: não-exclusão), eu não discordo de ninguém quanto a este tema. Regressão, vidas passadas, projeção astral, tudo isto tem espaço em um Kosmos que nada nega, que é pleno de infinitas (quantidade) realidades infinitas (qualidade).

Validando todas as práticas, vislumbramos um modelo desenvolvimentista (princípio 2 de Wilber: desdobramento) que coloque as visões em perspectiva, em uma holarquia de mundos, teorias e práticas, das menos abrangentes, sábias e compassivas às mais abrangentes, sábias e compassivas.

Validando todas as práticas (p1), pensando dentro de um modelo integral desenvolvimentista (p2), percebemos como cada uma delas faz surgir um mundo tão real quanto o nosso (princípio 3: enaction, atuação). E, principalmente, percebemos cada vez mais que isto só é possível devido à natureza insubstancial, vasta, livre de caracteristicas, do Universo.

Sendo assim, sem nenhum atributo, não-definido, sem face, sem essência nem existência inerente (vacuidade), o Kosmos pode se tornar qualquer coisa, incorporar qualquer atributo, qualquer definição, qualquer face (luminosidade). Da união desses dois aspectos, vacuidade e luminosidade, surgem todos os seres, todos os mundos, todos os fenômenos, todas as realidades vivenciadas que, vistas por fora, são sonhos, mas vistas por dentro são experiência de realidade, reais, sólidas e concretas — daí o sofrimento dos seres.

Que todos aqui possam fazer este caminho de dentro para fora, da solidez à compreensão efetiva da vacuidade e luminosidade, e depois (em algumas tradições, durante o caminho) incessantemente ajudar os seres, não só relativamente — transformando pesadelos em bons sonhos — mas de forma absoluta: ajudando-os a acordar.