por Gustavo Gitti | 29/07/2005 18:49 |
Estava lendo “Dead Words, Living Words, and Healing Words: The Disseminations of Dogen and Eckhart“, do filósofo David R. Loy.
Um trecho bastante interessante é este aqui:
“Like Heidegger, Dogen converts nouns into verbs and uses them to predicate the same noun, in order to say, e.g., “the sky skys the sky.” This allows him to escape the subject-predicate dualism of language and point out that, for example, spring “passes without anything outside itself.”
Tradução livre (sou péssimo nisso, me desculpem):
“Como Heidegger, Dogen converte nomes em verbos e usa-os para ‘predicar’ [atribuir predicados a] os mesmos nomes, de modo a dizer, por exemplo, “a nuvem nuveia a nuvem” [o exemplo original, com "céu" é intraduzível ao português]. Isso o permite escapar do dualismo sujeito-predicado e a afirmar que, por exemplo, a primavera “passa sem nada fora de si mesma.”
Para quem não conhece, Dogen é considerado o maior mestre do zen japonês. Mais sobre David Loy aqui.
A questão que por muito tempo me interessou é o “feitiço” (como colocou Wittgenstein) que a linguagem exerce sobre a nossa percepção. Dizemos, por exemplo, que “O Fulano fez isso”. Sujeito + Ação (verbo). E esta estrutura lingüística acaba formando a estrutura cognitiva pela qual percebemos os fenômenos: “Eu fiz aquilo”; “Eu estou com raiva”; “Ele fez isso comigo”…
Mas será mesmo que conseguimos encontrar um sujeito puro, que executa as ações e que recebe emoções (raiva, etc.)? Pois em todos os momentos, sem exceção, o sujeito está agindo e está com determinadas emoções. Eu nunca consigo me encontrar livre de ações ou de emoções (e esta análise poderia se aplicar a todos os aspectos). Estou sempre agindo. Estou sempre com certas qualidades. Há, então, algum ser por trás de mim? E se há, há outro ser por trás deste ser?
Enfim, estes questionamentos acabam nos conduzindo ao óbvio: eu sou inseparável de minhas ações, justamente porque elas não são “minhas” ações. O mais correto seria dizer: eu sou as “ações agindo”, sou o próprio processo de agir. Se estou olhando, sou o olhar. Se como, sou o comer. Se ouço, sou o ouvir.
E quanto às emoções? Eu tenho raiva? E quem é este “eu” que “fica” com raiva (como se existisse exterior a ela)? Não seria eu mesmo a raiva? Quando sinto raiva, não sou eu mesmo a própria raiva?
Se aplicarmos o mesmo raciocínio aos substantivos, chegaremos à mesma conclusão. Existe mesmo a chuva? Existe o beijo? Existe o vôo? Pois o que acontece de fato é o chover, o beijar e o voar. Não há substantivos no mundo, só verbos. E nem mesmo verbos, eu diria. Os verbos acabam se solidificando em substantivos (o “morrer”, o “viver”, etc.). Pois o que existe são ações, sem sujeito, só ações.
O curioso é que dentro do domínio das ações, no mundo manifesto, as “ações” se relacionam e dizem “eu fiz isso”, “eu sou assim”… Isto é, os substantivos e sujeitos existem relativamente. Tanto que EU, e não qualquer outro, estou enviando este post!
Alan Watts, no seu “The Way of Zen” — não publicado no Brasil (edição portuguesa: “O Budismo Zen”) –, diz (ao se referir às convenções da linguagem):
“Para vermos quão arbitrárias podem ser estas convenções, tomemos, por exemplo, a pergunta: “Que acontece ao meu punho (nome-objecto) quando abro a mão?” O objecto desaparece miraculosamente porque um elemento do discurso, geralmente atribuído a uma coisa, ocultava afinal um acção! Em Inglês, as diferenças entre coisas e acções são claramente, se bem que nem sempre logicamente, distintas, mas um grande número de palavras chinesas são indistintamente utilizadas para substantivos e verbos — razão pela qual quem pensa em chinês terá pouca dificuldade em ver que os objectos são também acontecimentos, que o nosso mundo é mais um conjunto de processos que de entidades.”
A pergunta de Watts daria uma ótima resposta à tradicional pergunta “O que acontece depois da Morte?”.
Se usarmos o conceito de Kosmos (a totalidade de tudo o que é, incluindo os fenômenos em todas as suas dimensões) como proposto por Wilber para se diferenciar de “cosmos” (a dimensão física dos fenômenos), e se tomarmos tudo o que existe como ações sem substantivos, chegaremos a uma quase poética percepção: o que chamamos de seres e coisas são gestos do Kosmos. Cachorro: o Kosmos cachorrando. Pedra: o Kosmos pedrando. O Kosmos, em sua infinita abertura (livre de atributos ou condicionamentos), vira homem, vaca, livro, vento, chuva, computador…
Nosso mundo condicionado expressa a liberdade do Kosmos. Nossa verdadeira natureza é livre de todos os condicionamentos.
O Kosmos, por ser a natureza vazia de todas as naturezas, pode assumir a natureza de cão e a isso chamamos “cachorro”. Pode assumir a natureza humana, e a isso chamamos de “homem” (ou “mulher”). Pode assumir a natureza de vento…
Em infinitas ações, “isto” constrói a si mesmo e vivencia a si mesmo de infinitos modos. E este mundo é isto. A auto-contemplação do Kosmos.
E este momento também é isto. A auto-contemplação do Kosmos.
E este post é isto…
Por toda a Eternidade, só houve isto. E nada mais.
…
Em profunda reverência a tudo que me rodeia,
Gustavo
por Gustavo Gitti | 09/07/2005 1:33 |
Tento listar abaixo algumas qualidades da postura integral, como concebida por Ken Wilber, pensando sob a perspectiva da compaixão (no sentido budista) e da ética (no sentido utilizado por Varela e Maturana).
Dividirei, de forma didática, o processo em alguns movimentos (que não seguem uma ordem necessária) para que nós possamos conversar sobre nossa prática e sobre os detalhes da visão integral. Convido a todos para que possamos compartilhar experiências e contribuir para o nosso entendimento e prática da postura integral.
1. Podemos dizer que adotamos a postura integral no exato momento em que percebemos que diante de miríades de filosofias, práticas, teorias, ideologias, crenças, modos de ser, condutas, comportamentos, não devemos nos perguntar qual delas é a correta, mas qual a natureza do Kosmos que possibilita o surgimento de todas elas. Cito Wilber: “…the only really interesting question is not why poststructuralism is right and structuralism is wrong, but what kind of universe allows both of those practices to arise in the first place?”. Quando fazemos tal pergunta, colocamos nosso corpo em um estado de abertura integral.
2. Tentando sempre associar sabedoria e compaixão (uma não existe sem a outra), prosseguimos tentando trazer benefício aos seres. Nesse sentido, ao encontrar seres agindo de forma confusa, cega, dissociamos o ser de sua visão, ou o ser de seu nível de consciência dominante — a discordância, de seres, passa a ser de níveis. A ajuda só é possível, como nos ensina o Budismo, se reconhecemos incessantemente a natureza livre dos seres. Ou mesmo no cristianismo, a confusão, a ignorância e o mal são vistos como ausência de Luz, ou como a face de Deus que se esqueceu de si mesmo. Se olharmos para os seres assim, fica fácil criticar a visão e possibilitar a morte naquele nível e um renascimento em um nível superior, mais abrangente e compassivo. A visão integral nos dá este tipo de confiança na natureza das coisas.
“…a compaixão, o desejo que os seres realizem sua natureza interna e se livrem de suas complicações. Essencialmente é o desejo que o outro supere suas dificuldades e possa melhorar. Atenção: compaixão é diferente de “pena”. Quando temos pena, estamos validando a imagem que a pessoa faz de si mesmo, e justamente por isso ela está mal. Compaixão é reconhecer no outro a sua natureza estável, perfeita, de luz, sua condição verdadeira, quebrando o encanto dos jogos que estão produzindo as complicações.”
–Lama Samten
3. Durante esse treinamento diário, criamos uma maior liberdade ao transitar por várias visões, de modo a se comunicar mais diretamente com o mundo semântico de cada pessoa. Quando você começa a pensar integralmente, você vai entendendo os limites de cada visão e consegue ser mais compassivo diante de visões menos abrangentes. Ao perceber que cada visão inferior evoluiu para uma superior, você pára de tentar acabar com as visões que você transcendeu e incluiu (“deixou para trás”) e naturalmente ajuda os seres envolvidos a levá-las até o fim. É estupidez matar um bebê simplesmente por ele não saber falar: dê-lhe comida e espere ;-)
Exemplo: ao abandonar a noção de Deus Criador pessoal, e abarcar tal visão, você consegue contribuir para a saúde de quem está apegado a esta noção. Você pode, por um momento, pensar deste jeito e atingir mais diretamente os seres. Você, tendo incluído uma visão, pode relativizá-la e mostrar suas limitações. Isto é tremendamente liberador e benéfico, especialmente no mundo em que vivemos, com tantas visões conflitantes.
A abordagem pode parecer nova, mas isso já vem sendo feito há tempos. Negar, transcender, incluir, e depois ficar livre para transitar é exatamente o que todos os sábios sempre fizeram. O próprio Ken Wilber reconhece isso.
A compaixão suprema somente surgirá quando você transcender todas as visões e ficar livre para entrar e brincar com cada uma delas.
“Sabedoria é transcender as perspectivas, compaixão é abraçá-las todas.”–Ken Wilber
4. Percebemos, portanto, uma nova dimensão da ética. O imperativo ético de Heinz von Foerster (um dos fundadores da Cibernética, amigo de Humberto Maturana) é “aja sempre de modo a aumentar o número de escolhas”, de possibilidades. Por reconhecermos que cada ser sustenta um mundo com sua presença, co-constrói uma realidade conosco, optamos pela ação mais inteligente, sintetizada no imperativo de Foerster: aja sempre de modo a aumentar o espaço de liberdade dos outros. Aja de modo a expandir a liberdade dos outros. Ou ainda: construa um mundo cuja amplidão abrace, forneça espaço, legitime, o máximo dos modos de ser do outro, o máximo das visões, do mundo, dos sentidos do outro.
Em uma recente entrevista (Revista Bodisatva, n. 12), Lama Samten disse:
“Vemos surgir diante de nós um amigo e surgimos como amigo diante do outro. Nascemos e damos nascimento ao outro. É um nascimento positivo. [...] Precisamos dar nascimentos positivos às outras pessoas e precisamos ter nascimentos positivos.”
Termino com uma fala de Ken Wilber, no qual percebemos que ética, sabedoria e compaixão são inseparáveis:
“…cultural solidarity is how all sentient beings touch each other from within; it is the felt interior of all exterior systems; it is the heart of why we are in this together, endlessly; it is the face of God when he can no longer stand being alone; it is the exuberance of the Goddess when she dances naked for all to see–the mystery where two souls touch each other and know that they have done so, which points unmistakably to the secret meaning of any “we”: the Spirit that hides itself in the heart of each I, begins to find itself by finding other I’s.”
por Gustavo Gitti | 26/03/2005 1:37 |
Você já se olhou no espelho enquanto chorava? Já viu o caminho das lágrimas? Sua boca tremendo, aquela sensação de ter o coração maior que o corpo, águas saindo sei lá de onde…
O que é o choro? Contração da alma, pele virada do avesso, grito silencioso? De onde vem esta sensação? Você já se observou chorando? Há coisa mais bonita do que rir ao chorar? Rir de tão belo. Chorar de tão belo…
Nós temos de fazer carinho em nós mesmos. Somos otários, inúteis, nadas ambulantes, sozinhos, jogados, sem identidade. Somos uma legião de cegos, uns batendo nos outros, uns gritando com os outros. Existencialismo cru. Sem saída, sem esperanças, sem nem mesmo medo.
Cada mundo reserva um tipo de ser que surge neste mundo. Cada ser esconde um tipo de mundo que ele faz surgir. Para cada mundo, para cada ser, um sentido da vida, uma explicação, uma teoria, uma fundação, uma saída, um mito de beleza, amor e morte.
Para cada raio na eternidade, um olhar masculino, um corpo brilhante feminino: um encontro, um beijo e a morte. A morte eterniza os momentos e possibilita o amor.
Para cada corpo, uma interioridade. Para cada interior, uma paisagem exterior. Nada de absoluto, nada além das manifestações impermanentes. Samsara, all the way up, all the way down.
Viver é seguir o caminho de uma lágrima. Surgimos da beleza. Rubem Alves estava certo: como é triste a beleza! Quanto mais belo, mais triste. A felicidade é a tristeza suprema – surge quando o olhar está cansado, quase morto, quando nada mais resta além da tristeza.
Sem esperanças, deitados no chão, contemplamos a beleza da manifestação. Tudo tão triste. Tudo tão só. Tudo tão meaningless.
Olhe bem… Você consegue perceber que estamos todos deitados no chão? Você consegue sentir que estamos todos chorando ao ver a tristeza-beleza de cada manifestação, de cada mundo, de cada ser, de cada corpo, de cada fóton que surge espontaneamente sei lá de onde? Espontaneamente como uma lágrima.
Sim, Deus chora sem parar. Deus é o ser mais triste. E cada um de nós… caminhos de uma lágrima…
por Gustavo Gitti | 25/01/2005 22:54 |
Basicamente, o discurso “New Age” se fundamenta em uma certa aversão por estruturas hierárquicas (típica do nível verde da Espiral de Graves/Beck/Wilber), em sua versão saudável (é claro que a hierarquia pode ser terrível em certos casos); e em uma aversão às grandes tradições de sabedoria. É muito comum ver uma pessoa adepta à Nova Era adorar todas as religiões mas não praticar nenhuma por achar tudo muito institucionalizado, preferindo seguir “seu” caminho (aos prazeres de seu confuso ser), fazendo workshops e “vivências” de “reiki xamânico” e “psicologia transpessoal”.
Estas pessoas que alimentam a indústria da Nova Era também criticam a “mente racional” (abaixo Descartes e o cartesianismo patriarcal!), e sustentam esse discurso de que somos “livres para escolher” e que podemos fazer a “nossa síntese”. A Nova Era nos diz: “vá, faça a sua religião, escolha as crenças que gostar mais e que melhor se adequam aos seus gostos e estilos de vida”.
Se eu fumo maconha e uso LSD, fica difícil escolher praticar o Budismo. Então eu fico mesmo com o Xamanismo e compro vários livros para me justificar. Bem-vindo à Nova Era!
Seguir uma tradição é a única saída (há várias tradições, logo vários caminhos) do samsara. Não é isso o que nos contam os livros da Nova Era, mas infelizmente a “nossa religião personalizada” não funcionará. Eu garanto que vários “facilitadores” de vivências, vários “psicólogos transpessoais” vão ganhar muito dinheiro e que no futuro surgirá um novo profissional, o “consultor espiritual” ou um “personal guru”. No entanto, isso de nada adiantará para aqueles que realmente desejam um caminho de sabedoria e compaixão. Para eles, somente as grandes tradições poderão fornecer a metodologia adequada, a disciplina (coisa odiada na Nova Era!) e a experiência, que nos levam à liberação última e o reconhecimento radical da natureza das coisas.
Aproveito também para dar uma dica que considero útil em tempos de “New Age”. Quando encontrar um texto desse estilo, que fala de ciência, filosofia e espiritualidade, verifique se o autor é (1) praticante de alguma tradição espiritual autêntica, se é (2) cientista ou filósofo da ciência e (3) se tem uma boa bagagem filosófica. Se ele não for (1), desconsidere suas idéias sobre espiritualidade, natureza da realidade, etc. Se não for (2), desconfie de suas afirmações “científicas”. E, finalmente, se não for (3), desconfie de cada argumento, de cada frase, de cada palavra.
por Gustavo Gitti | 12/12/2004 1:21 |
“You haven’t met yourself yet. But the advantage to meeting others in the meantime is that one of them may present you to yourself. Examine the nature of everything you observe.”
“Você ainda não encontrou você mesmo. Mas a vantagem de encontrar outros no meio tempo é que alguém talvez possa lhe apresentar para você mesmo. Examine a natureza de tudo o que você observa.” [tradução livre]
A frase acima é de um dos personagens do filme WAKING LIFE, de Richard Linklater. Mesmo fora do contexto do filme (sonhos, bardo, etc), é um bom aviso para qualquer um de nós.
A cada momento, somos um espectro que surge na mente de outros seres. Surgimos para eles de um modo completamente diferente do que somos para nós mesmos. Como explica Heinz von Foerster, do mesmo modo que todos os seres são “alucinações” de nossa mente, nós também somos “alucinações” na mente de outros.
O fantástico nestas percepções é a ausência de um solo seguro, de onde teríamos uma visão privilegiada das coisas (“God view”), da definição de nossa identidade e da realidade em que vivemos. Mas tal segurança não acontece. A realidade aparentemente estável e as percepções aparentemente semelhantes dos seres surgem tão somente devido ao compartilhamento de domínios cognitivos e de mundos vivenciais — o que no Budismo chamaríamos de “karma em comum”.
Humberto Maturana segue na mesma linha quando propõe a ousada teoria de que até mesmo as verdades científicas são fruto de domínios consensuais, de compartilhamento de mundos e percepções. Francisco Varela integrou tais abordagens com os ensinamentos de Nagarjuna (ver A MENTE INCORPORADA) e teve belíssimos insights sobre ética, por exemplo.
A sacada deles desdobra-se em algumas possibilidades interessantes na conexão com os outros:
1) A sabedoria consistiria, então, em não solidificar as identidades dos outros, dado que os seres existem para nós na medida que os percebemos ativamente (a teoria da “enaction” de Varela). Dessa forma, abrimos espaço em nossa percepção para que o outro possa se expandir, aumentar seus modos de ser, sua plasticidade e sua identidade.
2) Como não há nada sólido em mim, nada me impede de agir diante de você com o objetivo de causar transformações internas à sua mente. E é isso o que um mestre faz com toda a autoridade. Sabendo que é um espectro em nossa mente, um bom mestre age de forma a causar um conflito em nosso mundo interior (seja cutucando um preconceito, uma repressão, etc) e permanece ao nosso lado para que nós nos reconstruamos neste processo de abertura ao infinito.
3) Quando estiver conversando com alguém, olhe fundo nos olhos da pessoa e imagine que ali está um outro “serzinho”, como você, formando uma imagem mental de você mesmo. Tenha isso em mente e você automaticamente trará abertura e liberdade para esta conexão. Além de “liberar” a outra pessoa, ampliar sua potência de ser, você mesmo acabará sentindo a liberdade de poder ser alguém totalmente novo naquele momento, de uma hora para a outra.
4) Cada mundo, cada ser que observa este mundo e cada visão que este ser tem deste mundo surgem de um processo delusivo, de escolha de percepção: para ser algo, o Kosmos deixa de ser tudo. A ignorância é simplesmente manter-se identificado com uma visão específica, quando somos na verdade aquele que vê. Em um diálogo, a discordância surge, na maioria das vezes, quando não legitimamos a visão e o mundo do outro. A única discordância saudável seria a desapegada, que surge apenas como um modo de tocar e aumentar o corpo e o mundo do outro.
5) Nosso conhecimento, quanto mais se torna rizomático, fractal e sofisticado, mais se transforma em algo sutil, onírico e inexistente. Parece que todo conhecimento evolui para uma certa postura, uma certa configuração do corpo, e vira saber incorporado. Saber é saber encarnado, a própria qualidade expansiva da consciência em suas entranhas e nervuras. Eu vejo que todo conhecimento é fingimento, que todo especialista é um ator supremo e que nada resta senão a sabedoria, que não é conhecimento algum, mas uma certa maneira de andar com os dois pés, como dizia o mestre Alberto Caeiro.
6) Conexão. Se somos seres de desejo, se nosso mundo é o que mais vivencia a insatisfação, é porque somos, antes de tudo, seres de conexão. Quem já teve uma conversa além do tempo, ou quem já passou por aquele momento de poder falar de dentro do outro, de poder sorrir de dentro do outro, por dentro de seus olhos, de tocar a alma do outro e ter a inabalável certeza de que o outro sente exatamente a mesma conexão (como diz Ken Wilber: “the mystery where two souls touch each other and know that they have done so“)… estas pessoas estavam comigo chorando na sala do cinema. Estas pessoas estão comigo agora, enquanto escrevo este breve relato. Estas pessoas são um dos poucos motivos pelos quais eu morrerei feliz: saber que a conexão nunca cessará. Pois o amor que se sustenta na eternidade não é o amor entre duas pessoas, mas simplesmente o amor impessoal. Estas pessoas me ensinam que a conexão é sempre a mesma, em suas mil formas, e que o sentido de uma vida surgirá sempre em sua conexão com outra.
7) Sabedoria e compaixão brotam dessas experiências com a conexão que temos com os seres. São eles nosso verdadeiro espelho, e nós, como espelhos também, podemos contribuir para que o jogo fique ainda mais interessante.
por Gustavo Gitti | 08/12/2004 18:51 |
Minha namorada frequentemente me faz sentir aquela trilogia que rasga a todos nós:
1) Desejo de ser compassivo (compaixão aqui no sentido budista): como eu posso vê-la em seu melhor e oferecer o espaço de minha percepção para expandir sua liberdade? Ou, como ensina o imperativo ético de Von Foerster, como posso agir de forma a aumentar as possibilidades, os modos de ser, as paisagens dela.
2) Ignorância/Impotência: Sou contaminado por ondas de ignorância que me fazem agir cegamente, causando sofrimento aos seres. Misturada ao desejo de compaixão, a ignorância me faz sentir impotente, perpetuamente frustrado, incapaz.
3) Coragem: Ainda assim (ou melhor: justamente devido à combinação dos dois itens acima), surge uma coragem como que vinda de lugar nenhum — inexplicável, por ser coletiva e impessoal. Uma coragem que não supera a impotência, mas utiliza-a; que não o torna iluminado, mas o faz agir mesmo em meio à escuridão.
O que é frequente com minha namorada às vezes surge também para todos os seres (veja como somos medíocres!). É realmente um desafio abrir-se à coragem, pois o sentimento de ignorância/frustração é tão grande que dissolve a compaixão (que não era muita, mas só um desejo de possui-la) e nos joga novamente para o ciclo que existe antes mesmo de termos qualquer desejo de compaixão.
Ficamos neste ciclo de justificativas e auto-afirmações quase todo o tempo. Somente algumas vezes emergimos um pouco e sentimos um desejo (quase que com aquela certeza absoluta de “estar fazendo a coisa certa”) de ser um pouco melhor, de assumir a responsabilidade por nossa liberdade e de admitir que somos, sim, importantes a pelo menos uma pessoa, e podemos, sim, aumentar a liberdade, o campo de ação, dos seres ao nosso redor. Esse é o item 1 acima.
Se nossa mente não foi estabilizada por alguma prática meditativa, logo que tal desejo surge, imediatamente nos sentimos frustrados e impotentes. Segue-se uma série de justificativas: a mente tenta se enganar, dando vários argumentos sobre como é difícil viver, etc.
Só então, se tivermos sorte, somos inundados de uma coragem autêntica. Autêntica pois não vem de nós. É aquilo que faz você agir sem motivo algum, sem razão alguma, nem mesmo por bondade. É aquilo que te deixa livre em meio a qualquer situação conflituosa. E então você age com o que tem, faz o melhor que pode e descobre o óbvio: todo mundo já está fazendo o melhor que pode, e sempre todos somente farão o melhor que podem.
Tal abordagem, longe do pessimismo, é extremamente benéfica pois perdoa os seres a priori, antes mesmo de alguém fazer alguma merda. Para mim, o maior ensinamento de Cristo aconteceu quando ele estava sendo crucificado: “Pai, perdoai-os: eles não sabem o que fazem”. O que atualmente, num viés budista, ficaria assim: “Cara, desencana que eles estão confusos”.
Concluindo: Sim, sou medíocre. Mesmo sem sentir compaixão, tenho o desejo de senti-la. Às vezes, quero livrar-me da ignorância. E, bem raramente, surge em mim uma coragem que me faz agir mesmo sem compaixão, mesmo sem ser sábio – mas que tem o mérito de me livrar da impotência. A ignorância só faz mal sem coragem. Com coragem, agimos como se fossemos livres e expandimos mais um pouco nossa estreita identidade, abarcando um pouco mais o corpo do outro, entendendo um pouco mais o mundo do outro e ficando um pouco mais lúcido para não entrar cego no ciclo de novo.
por Gustavo Gitti | 21/08/2004 15:26 |
Eu gosto de mesclar a idéia de mundos consensuais de Maturana com a holarquia de visões de Wilber. Isso nos livra de: 1) interpretações relativistas (“no fundo, todas as visões são iguais” em vez de “todas as visões são igualmente válidas”), comuns no discurso pós-moderno devido à percepção da ausência de fundamento último no Kosmos; 2) interpretações equivocadas do modelo de Wilber (“um nível é melhor do que outro PORQUE KEN WILBER DIZ ASSIM” em vez de “um nível é melhor do que o outro porque o transcende e inclui”).
Ora, por que o mundo de Hitler é pior do que o mundo de Gandhi? Não, não podemos nem mesmo trazer à tona o sofrimento das pessoas, nem valores éticos, nem nada disso, pelo simples fato de que cada explicação desta é baseada em um suposto fundamento último.
Mas temos de provar que Hitler é melhor do que Gandhi, pois caso contrário isso seria puro relativismo cego. O que fazer então?
O casamento de Maturana com Wilber sugere a seguinte resposta:
A visão de A só é melhor do que a visão de B quando a visão de B, os fenômenos de seu mundo e, principalmente, o sujeito B estão inclusos (pertencem) ao mundo de A – i.e, são vistos, legitimados e explicados por A; e quando o contrário não acontece.
Se o fenômeno X é real e perfeitamente possível no seu mundo, e não o é no meu, o seu mundo é um pouco maior do que o meu. Se sua visão explica (abre possibilidade) para os fenômenos do meu mundo (você me legitima), mas minha visão não explica os fenômenos do seu mundo (eu não te legitimo, apenas o incluo em uma categoria qualquer comum a mim, como “louco!”), então sua visão é mais integral do que a minha.
(Explorando um pouco mais a idéia de “abrir possibilidades”: pelo argumento acima é fácil perceber que uma visão evolui na medida que ela se aproxima do solo causal de todas as visões, ou que um ser e seu mundo evoluem na medida em que se aproxima do solo causal de todos os seres e mundos. Isto é, quanto mais integral é uma visão, mais ela é pura abertura, mais ela deixa espaço para os infinitos modos de ser surgirem no seio do Kosmos. O modelo mais integral é aquele que é um modelo explicativo para o maior número de visões, fenômenos, seres e mundos. Por exemplo: eu consigo derivar a teoria de Maturana das obras de Wilber? Sim. Eu consigo derivar a teoria de Maturana das obras do Richard Dawkins? Não. Logo, neste quesito, Wilber é mais integral do que Dawkins. Isto não é só para debates acadêmicos. É uma questão de compaixão. Quanto mais eu abro, mais seres eu abraço. Eu consigo derivar a minha vida da sua visão, ou melhor eu existo completamente para você? Essa é a grande questão!)
Este é, penso eu, um modo inteligente de se pensar as relações entre os vários mundos dos sujeitos e suas visões sobre o Kosmos.
Agora, sim, a frase da Maturana faz sentido: devemos dialogar para abraçar o mundo do outro, expandindo nossa identidade e criando vários mundos compartilhados.