por Gustavo Gitti | 31/07/2007 16:00 |
Falei sobre isso neste post aqui: “Oferecer (para homens)“. Hoje li um artigo do Ricardo Neves, consultor e colunista da Época (by the way, estou lançando o primeiro livro dele em versão digital). Pelo jeito, cada vez mais as pessoas estão se tocando que assim tudo funciona melhor. Veja que perfeito isso (artigo na íntegra):
“Prezado Ricardo: passei por vários empregos até meus 39 anos, quando perdi meu último emprego, na função de gerente de marketing de uma multinacional de turismo. A partir daí, durante vários meses, fiz o processo de sempre: dezenas de currículos enviados, o esforço de contatar toda a minha rede de conhecidos etc. Tudo difícil. Muita rejeição. Afinal, sou velho para o mercado.
Há cerca de dois meses tomei uma decisão diferente. Resolvi pensar não como um desempregado, mas como o gerente de marketing que já fui. Percebi que estava me promovendo como uma mercadoria banal, não como o ser humano produtivo e experiente que sou. Meu currículo mostrava apenas o que muito garoto de 27 anos já tem até de sobra, como MBA e experiência internacional. Decidi então mudar a tática. Usei a internet para pesquisar empresas de que gostava ou aquelas que tinham produtos relacionados a minha experiência. Selecionei inicialmente 20 empresas. Ao final, me concentrei em cinco, uma em cada segmento. Em vez de enviar meu currículo, mandei um e-mail com um estudo de mercado que elaborei para cada empresa. Minha análise incluía novas oportunidades de negócio, brechas que eu antevia em relação aos concorrentes, novos produtos que poderiam ser lançados ou reconfigurados. Junto, seguia minha proposta de trabalho.”
O que aconteceu com o leitor? As cinco empresas contatadas responderam com propostas de trabalho em apenas uma semana. Ele então escolheu uma na qual passou a receber um salário mensal fixo. Mas também começou a prestar serviço para mais duas delas, onde ganha por produção. Com a quarta empresa, mantém contato. Só descartou mesmo a quinta companhia. A empresa que lhe paga salário é francesa, trabalha com software. Está interessada na capacidade do leitor em entender o mercado brasileiro. Nada a ver com turismo, última área em que ele havia trabalhado.
por Gustavo Gitti | 04/06/2007 20:46 |

“O evento visa ampliar na Bahia e nos outros Estados do Brasil o conhecimento, entendimento e ação em e a partir de um olhar biológico-cultural do humano abstraído pelo Dr. Humberto Maturana e a Dra. Ximena Dávila e realizado por eles e sua equipe de colaboradores no Instituto Matríztico do Santiago de Chile no tocante aos relacionamentos entre as pessoas, posto que somos todos seres vivos e seres humanos, seja no âmbito da clínica Psicológica e Terapêutica como também na lida com pequenos e grandes grupos constituídos na área pública e privada do país.”
Fico muito feliz em ver isso acontecendo! Aqui o site do evento.
Maturana é muito mais profundo do que algum dia poderemos imaginar. Ele é um gênio. Veja essa idéia por exemplo: “Os diferentes mundos relacionais, tanto externos como internos, conscientes e inconscientes, que os seres humanos vivemos, surgem no fluir de nosso viver no linguagear como diferentes âmbitos sensório-efetores nos quais se dá a conservação de nosso viver.”
Se eu estivesse na Bahia, já teria me inscrito.
por Gustavo Gitti | 29/05/2007 8:46 |
O Senado está a um passo de aprovar um projeto de lei, de autoria do senador Marcelo Crivella (PRB-RJ), sobrinho de Edir Macedo, fundador da Igreja Universal do Reino de Deus) que incluiria as igrejas entre as beneficiárias do Programa Nacional de Apoio à Cultura (Pronac). Vote contra aqui: Lei Rouanet para “Templos Religiosos” Petition.
por Gustavo Gitti | 14/05/2007 18:55 |

Li essa matéria na Folha e lembrei do retiro que fiz de Vipassana em 2002.
Tem um documentário muito interessante sobre isso chamado Doing Time, Doing Vipassana (disponível no eMule).
Esse tipo de Vipassana é ensinado exatamente da mesma forma em todos os centros de retiro do mundo, de acordo com os ensinamentos de S. N. Goenka. Aqui no Brasil o site oficial é esse: www.portuguese.dhamma.org.
Quando eu fiz, um monge beneditino dormia ao meu lado. Era cristão, mas adorava meditar. Era o quinto retiro dele! De fato, a técnica é ensinada de modo não-sectário e o próprio Goenka fala sobre isso:
“This can be practiced by one and all. Everyone faces the problem of suffering. it is a universal disease which requires a universal remedy–not a sectarian one. When one suffers from anger, it is not a Buddhist anger, Hindu anger, or Christian anger. Anger is anger. When one become agitated as a result of this anger, this agitation is not Christian, or Hindu, or Buddhist. The malady is universal. The remedy must also be universal.”
por Gustavo Gitti | 02/02/2007 20:05 |
O que você faria se encontrasse o responsável por todos os males, crimes, injustiças e catástrofes da humanidade?
A garrafa de whisky custava exatos 199 reais. Um dos meninos olhou, tateou e se afastou. O outro, irritado, meteu a mão, aproximou do limite da prateleira e deixou ali. “Vai, pega!”. Mas ele mesmo foi e pegou. Na fila do caixa, diante de todos, sem tentar esconder, ele colocou a garrafa embaixo da camiseta e andou lentamente para fora do supermercado. Pelo menos umas cinco pessoas viram tudo acontecer de perto e fingiram uma aparente ingenuidade. Quem se camuflava e se escondia ali eram os cidadãos da classe média e não os ladrões! Eles me pediram licença, eu hesitei, abri espaço e esperei os dois saírem para avisar um funcionário. Pensei que seria melhor eles se darem mal agora com um whisky do que futuramente com uma vida em mãos. Fui para casa lembrando dos olhos do menino que pegou a garrafa, assustado com qualquer pessoa ao redor, tomado pelo medo e pela certeza de que, sim, as coisas podem dar errado, bem errado, e que não há nenhuma justiça suprema nos protegendo.
Semana passada assisti ao genial Babel, fruto da mesma parceria (Alejandro González Iñárritu e Guillermo Arriaga) que gerou o igualmente excelente 21 Grams. Babel (no spoilers ahead, podem ler despreocupados) é ainda mais deserto e sem esperança do que seu antecessor. Um longo repouso na dor, uma meditação analítica sobre o sofrimento e sua insubstancialidade, sobre a culpa e sua inexistência. Ao contrário do que enfatizou a mídia, a força do filme não está em discutir culturas e barreiras ou a interdepedência dos tecidos humanos (tão bem explicitada por filmes como Crash, Magnolia ou pelo próprio 21 grams). É algo muito mais simples: nos comovemos ao perceber como as coisas, inevitavelmente, dão errado e como não há ninguém para culpar.
Em Magnolia, aliás, há uma cena emblemática: um dos personagens gasta todo seu dinheiro para colocar aparelho nos dentes e pouco tempo depois cai com a boca no chão, quebrando toda a arcada superior. Well, shit happens, e simplesmente não há nenhuma saída para isso. Para além do pessimismo (que esconde uma esperança das coisas darem certo), essa é uma perspectiva liberadora pois nos força a repousar na incerteza. Com ela em mente, é possível se livrar das características de filhos mimados que confiam em um pai e mãe superiores e encontrar uma saída que seja verdadeiramente autônoma e transcendental, além do domínio dos fenômenos, além do alcance da merda. É a base, por exemplo, da Acceptance and Commitment Therapy – ACT (lê-se como “ação” em inglês, não como sigla), desenvolvida por Steven Hayes, psicólogo e professor da Univerdade de Nevada. Para tal treinamento de liberdade, temos de enfrentar aquilo do qual fugimos e contemplar detalhadamente a face do mal.
O menino do mercado poderia ter se desesperado e matado uma mulher. Seu marido culparia o menino, a desigualdade social, a economia, os seguranças do mercado, Deus ou a si mesmo (por ter levado a esposa aquele dia para as compras)? O marido poderia matar o menino logo em seguida. Quem você culparia? Isso ocorre todos os dias e não é nenhum absurdo que seja assim. Babel mostra o que aconteceria se investigássemos cada crime, cada morte, cada injustiça, cada atrocidade e encontrássemos, enfim, o grande culpado por tudo. No filme, temos a chance de olhá-lo nos olhos.
Pois saibam que a fonte de toda negatividade, o centro do mal, o criminoso supremo que Hitler mal conseguiu imitar, é um menino marroquino que ri, se masturba, se apaixona e sente o vento de braços e poros abertos. E, antes que perguntem, não estou brincando, sendo irônico ou querendo dizer outra coisa. Isso não é uma metáfora. O centro do mal é um menino. É ele o responsável por todas as mortes, roubos, desastres, catástrofes, problemas, seqüestros, bombas e acidentes afins. O filme também nos oferece a oportunidade, inédita, de matá-lo. Nós com uma metralhadora e ele de braços para cima assumindo em voz alta todos os crimes já ocorridos em todos os tempos e espaços humanidade afora.
Infelizmente não conseguimos (podemos, mas não desejamos) matar o menino. Ele é por demais bom. Sua natureza não é má. Ao olhar a fragilidade e docilidade do menino, eis que algo que se torna óbvio: o centro do mal não existe. Não temos sequer um inimigo a combater senão nossa própria cegueira em ver inimigos em todo lugar! Voltando ao argumento da saída transcendental, agora é fácil entender que temos de parar de buscar um local seguro que não seja atingido pelo mal. Haverá mal onde houver cegueira: ele nos perseguirá até o topo da montanha encantada da felicidade.
A saída é encontrar o menino que incessantemente aponta para nossa natureza livre e luminosa, que desde sempre está além de qualquer negatividade, além de bem e mal, intocada pela merda. No mundo construído do “shit happens”, cada coisa nasce e morre, cada coisa sofre e se desespera, enquanto nossa verdadeira natureza assume e desconstrói todos os pecados, perdoa a si mesma logo de saída e sorri para cada desastre ao ver que todos ali estão livres das bombas, que seus verdadeiros corpos não nasceram e não serão destruídos. Somos, cada um de nós, o menino que se masturba e se apaixona. Quem, então, poderemos culpar?
“Sob o ponto de vista convencional, não negamos o bem e o mal, noção que consideramos verdadeira. Mas afirmamos que, sob o ponto de vista absoluto, sob uma visão última, não há um centro do mal. O que existe, sob o ponto de vista absoluto, é a compreensão de que a nossa natureza não pode ser afetada pelas circunstâncias que afetam nossas identidades e nosso corpo. Portanto, sob o ponto de vista da natureza última, não há nada que nos derrube, nos afete, nos destrua. Olhando em qualquer direção, não vamos localizar uma origem de mal, vamos ver apenas uma natureza ilimitada vitoriosa, que não pode ser atingida. É uma perspectiva muito importante, pois não vamos trabalhar com a noção de que há um centro do mal, ou que há um complô que deseja afundar o navio, ou que as pessoas querem a infelicidade ou querem justamente o sofrimento. Não vamos trabalhar com essa noção. Isso não é muito simples, pois esta noção de exclusão, de mal, está muito arraigada dentro de nós — a idéia de que precisamos de uma espada ou um revólver e assim tudo vai ficar melhor.” –Lama Padma Samten
* Texto publicado na revista de pensamento budista Bodisatva nº 15.
por Gustavo Gitti | 09/07/2005 1:33 |
Tento listar abaixo algumas qualidades da postura integral, como concebida por Ken Wilber, pensando sob a perspectiva da compaixão (no sentido budista) e da ética (no sentido utilizado por Varela e Maturana).
Dividirei, de forma didática, o processo em alguns movimentos (que não seguem uma ordem necessária) para que nós possamos conversar sobre nossa prática e sobre os detalhes da visão integral. Convido a todos para que possamos compartilhar experiências e contribuir para o nosso entendimento e prática da postura integral.
1. Podemos dizer que adotamos a postura integral no exato momento em que percebemos que diante de miríades de filosofias, práticas, teorias, ideologias, crenças, modos de ser, condutas, comportamentos, não devemos nos perguntar qual delas é a correta, mas qual a natureza do Kosmos que possibilita o surgimento de todas elas. Cito Wilber: “…the only really interesting question is not why poststructuralism is right and structuralism is wrong, but what kind of universe allows both of those practices to arise in the first place?”. Quando fazemos tal pergunta, colocamos nosso corpo em um estado de abertura integral.
2. Tentando sempre associar sabedoria e compaixão (uma não existe sem a outra), prosseguimos tentando trazer benefício aos seres. Nesse sentido, ao encontrar seres agindo de forma confusa, cega, dissociamos o ser de sua visão, ou o ser de seu nível de consciência dominante — a discordância, de seres, passa a ser de níveis. A ajuda só é possível, como nos ensina o Budismo, se reconhecemos incessantemente a natureza livre dos seres. Ou mesmo no cristianismo, a confusão, a ignorância e o mal são vistos como ausência de Luz, ou como a face de Deus que se esqueceu de si mesmo. Se olharmos para os seres assim, fica fácil criticar a visão e possibilitar a morte naquele nível e um renascimento em um nível superior, mais abrangente e compassivo. A visão integral nos dá este tipo de confiança na natureza das coisas.
“…a compaixão, o desejo que os seres realizem sua natureza interna e se livrem de suas complicações. Essencialmente é o desejo que o outro supere suas dificuldades e possa melhorar. Atenção: compaixão é diferente de “pena”. Quando temos pena, estamos validando a imagem que a pessoa faz de si mesmo, e justamente por isso ela está mal. Compaixão é reconhecer no outro a sua natureza estável, perfeita, de luz, sua condição verdadeira, quebrando o encanto dos jogos que estão produzindo as complicações.”
–Lama Samten
3. Durante esse treinamento diário, criamos uma maior liberdade ao transitar por várias visões, de modo a se comunicar mais diretamente com o mundo semântico de cada pessoa. Quando você começa a pensar integralmente, você vai entendendo os limites de cada visão e consegue ser mais compassivo diante de visões menos abrangentes. Ao perceber que cada visão inferior evoluiu para uma superior, você pára de tentar acabar com as visões que você transcendeu e incluiu (“deixou para trás”) e naturalmente ajuda os seres envolvidos a levá-las até o fim. É estupidez matar um bebê simplesmente por ele não saber falar: dê-lhe comida e espere ;-)
Exemplo: ao abandonar a noção de Deus Criador pessoal, e abarcar tal visão, você consegue contribuir para a saúde de quem está apegado a esta noção. Você pode, por um momento, pensar deste jeito e atingir mais diretamente os seres. Você, tendo incluído uma visão, pode relativizá-la e mostrar suas limitações. Isto é tremendamente liberador e benéfico, especialmente no mundo em que vivemos, com tantas visões conflitantes.
A abordagem pode parecer nova, mas isso já vem sendo feito há tempos. Negar, transcender, incluir, e depois ficar livre para transitar é exatamente o que todos os sábios sempre fizeram. O próprio Ken Wilber reconhece isso.
A compaixão suprema somente surgirá quando você transcender todas as visões e ficar livre para entrar e brincar com cada uma delas.
“Sabedoria é transcender as perspectivas, compaixão é abraçá-las todas.”–Ken Wilber
4. Percebemos, portanto, uma nova dimensão da ética. O imperativo ético de Heinz von Foerster (um dos fundadores da Cibernética, amigo de Humberto Maturana) é “aja sempre de modo a aumentar o número de escolhas”, de possibilidades. Por reconhecermos que cada ser sustenta um mundo com sua presença, co-constrói uma realidade conosco, optamos pela ação mais inteligente, sintetizada no imperativo de Foerster: aja sempre de modo a aumentar o espaço de liberdade dos outros. Aja de modo a expandir a liberdade dos outros. Ou ainda: construa um mundo cuja amplidão abrace, forneça espaço, legitime, o máximo dos modos de ser do outro, o máximo das visões, do mundo, dos sentidos do outro.
Em uma recente entrevista (Revista Bodisatva, n. 12), Lama Samten disse:
“Vemos surgir diante de nós um amigo e surgimos como amigo diante do outro. Nascemos e damos nascimento ao outro. É um nascimento positivo. [...] Precisamos dar nascimentos positivos às outras pessoas e precisamos ter nascimentos positivos.”
Termino com uma fala de Ken Wilber, no qual percebemos que ética, sabedoria e compaixão são inseparáveis:
“…cultural solidarity is how all sentient beings touch each other from within; it is the felt interior of all exterior systems; it is the heart of why we are in this together, endlessly; it is the face of God when he can no longer stand being alone; it is the exuberance of the Goddess when she dances naked for all to see–the mystery where two souls touch each other and know that they have done so, which points unmistakably to the secret meaning of any “we”: the Spirit that hides itself in the heart of each I, begins to find itself by finding other I’s.”
por Gustavo Gitti | 26/06/2005 6:01 |
O imperativo ético de Heinz von Foerster (um dos fundadores da Cibernética, amigo de Humberto Maturana) é “aja sempre de modo a aumentar o número de escolhas”, de possibilidades. Aja sempre de modo a aumentar o espaço de liberdade dos outros. Aja de modo a expandir a liberdade dos outros. Ou ainda: construa um mundo cuja amplidão abrace, forneça espaço, legitime, o máximo dos modos de ser do outro, o máximo das visões, do mundo, dos sentidos do outro.