por Gustavo Gitti | 08/12/2004 18:51 |
Minha namorada frequentemente me faz sentir aquela trilogia que rasga a todos nós:
1) Desejo de ser compassivo (compaixão aqui no sentido budista): como eu posso vê-la em seu melhor e oferecer o espaço de minha percepção para expandir sua liberdade? Ou, como ensina o imperativo ético de Von Foerster, como posso agir de forma a aumentar as possibilidades, os modos de ser, as paisagens dela.
2) Ignorância/Impotência: Sou contaminado por ondas de ignorância que me fazem agir cegamente, causando sofrimento aos seres. Misturada ao desejo de compaixão, a ignorância me faz sentir impotente, perpetuamente frustrado, incapaz.
3) Coragem: Ainda assim (ou melhor: justamente devido à combinação dos dois itens acima), surge uma coragem como que vinda de lugar nenhum — inexplicável, por ser coletiva e impessoal. Uma coragem que não supera a impotência, mas utiliza-a; que não o torna iluminado, mas o faz agir mesmo em meio à escuridão.
O que é frequente com minha namorada às vezes surge também para todos os seres (veja como somos medíocres!). É realmente um desafio abrir-se à coragem, pois o sentimento de ignorância/frustração é tão grande que dissolve a compaixão (que não era muita, mas só um desejo de possui-la) e nos joga novamente para o ciclo que existe antes mesmo de termos qualquer desejo de compaixão.
Ficamos neste ciclo de justificativas e auto-afirmações quase todo o tempo. Somente algumas vezes emergimos um pouco e sentimos um desejo (quase que com aquela certeza absoluta de “estar fazendo a coisa certa”) de ser um pouco melhor, de assumir a responsabilidade por nossa liberdade e de admitir que somos, sim, importantes a pelo menos uma pessoa, e podemos, sim, aumentar a liberdade, o campo de ação, dos seres ao nosso redor. Esse é o item 1 acima.
Se nossa mente não foi estabilizada por alguma prática meditativa, logo que tal desejo surge, imediatamente nos sentimos frustrados e impotentes. Segue-se uma série de justificativas: a mente tenta se enganar, dando vários argumentos sobre como é difícil viver, etc.
Só então, se tivermos sorte, somos inundados de uma coragem autêntica. Autêntica pois não vem de nós. É aquilo que faz você agir sem motivo algum, sem razão alguma, nem mesmo por bondade. É aquilo que te deixa livre em meio a qualquer situação conflituosa. E então você age com o que tem, faz o melhor que pode e descobre o óbvio: todo mundo já está fazendo o melhor que pode, e sempre todos somente farão o melhor que podem.
Tal abordagem, longe do pessimismo, é extremamente benéfica pois perdoa os seres a priori, antes mesmo de alguém fazer alguma merda. Para mim, o maior ensinamento de Cristo aconteceu quando ele estava sendo crucificado: “Pai, perdoai-os: eles não sabem o que fazem”. O que atualmente, num viés budista, ficaria assim: “Cara, desencana que eles estão confusos”.
Concluindo: Sim, sou medíocre. Mesmo sem sentir compaixão, tenho o desejo de senti-la. Às vezes, quero livrar-me da ignorância. E, bem raramente, surge em mim uma coragem que me faz agir mesmo sem compaixão, mesmo sem ser sábio – mas que tem o mérito de me livrar da impotência. A ignorância só faz mal sem coragem. Com coragem, agimos como se fossemos livres e expandimos mais um pouco nossa estreita identidade, abarcando um pouco mais o corpo do outro, entendendo um pouco mais o mundo do outro e ficando um pouco mais lúcido para não entrar cego no ciclo de novo.
por Gustavo Gitti | 21/08/2004 15:26 |
Eu gosto de mesclar a idéia de mundos consensuais de Maturana com a holarquia de visões de Wilber. Isso nos livra de: 1) interpretações relativistas (“no fundo, todas as visões são iguais” em vez de “todas as visões são igualmente válidas”), comuns no discurso pós-moderno devido à percepção da ausência de fundamento último no Kosmos; 2) interpretações equivocadas do modelo de Wilber (“um nível é melhor do que outro PORQUE KEN WILBER DIZ ASSIM” em vez de “um nível é melhor do que o outro porque o transcende e inclui”).
Ora, por que o mundo de Hitler é pior do que o mundo de Gandhi? Não, não podemos nem mesmo trazer à tona o sofrimento das pessoas, nem valores éticos, nem nada disso, pelo simples fato de que cada explicação desta é baseada em um suposto fundamento último.
Mas temos de provar que Hitler é melhor do que Gandhi, pois caso contrário isso seria puro relativismo cego. O que fazer então?
O casamento de Maturana com Wilber sugere a seguinte resposta:
A visão de A só é melhor do que a visão de B quando a visão de B, os fenômenos de seu mundo e, principalmente, o sujeito B estão inclusos (pertencem) ao mundo de A – i.e, são vistos, legitimados e explicados por A; e quando o contrário não acontece.
Se o fenômeno X é real e perfeitamente possível no seu mundo, e não o é no meu, o seu mundo é um pouco maior do que o meu. Se sua visão explica (abre possibilidade) para os fenômenos do meu mundo (você me legitima), mas minha visão não explica os fenômenos do seu mundo (eu não te legitimo, apenas o incluo em uma categoria qualquer comum a mim, como “louco!”), então sua visão é mais integral do que a minha.
(Explorando um pouco mais a idéia de “abrir possibilidades”: pelo argumento acima é fácil perceber que uma visão evolui na medida que ela se aproxima do solo causal de todas as visões, ou que um ser e seu mundo evoluem na medida em que se aproxima do solo causal de todos os seres e mundos. Isto é, quanto mais integral é uma visão, mais ela é pura abertura, mais ela deixa espaço para os infinitos modos de ser surgirem no seio do Kosmos. O modelo mais integral é aquele que é um modelo explicativo para o maior número de visões, fenômenos, seres e mundos. Por exemplo: eu consigo derivar a teoria de Maturana das obras de Wilber? Sim. Eu consigo derivar a teoria de Maturana das obras do Richard Dawkins? Não. Logo, neste quesito, Wilber é mais integral do que Dawkins. Isto não é só para debates acadêmicos. É uma questão de compaixão. Quanto mais eu abro, mais seres eu abraço. Eu consigo derivar a minha vida da sua visão, ou melhor eu existo completamente para você? Essa é a grande questão!)
Este é, penso eu, um modo inteligente de se pensar as relações entre os vários mundos dos sujeitos e suas visões sobre o Kosmos.
Agora, sim, a frase da Maturana faz sentido: devemos dialogar para abraçar o mundo do outro, expandindo nossa identidade e criando vários mundos compartilhados.
por Gustavo Gitti | 21/08/2004 14:00 |
“Se sabemos que nosso mundo é sempre o mundo que construímos com outros, toda vez que nos encontramos em contradição ou oposição a outro ser humano com que desejamos conviver, nossa atitude não poderá ser a de reafirmar o que vemos do nosso próprio ponto de vista e, sim, a de considerar que nosso ponto de vista é resultado de um acoplamento estrutural dentro de um domínio experiencial tão válido como o de nosso oponente, ainda que o dele nos pareça menos desejável. Caberá, portanto, buscar uma perspectiva mais abrangente, de um domínio experiencial em que o outro também tenha lugar e no qual possamos, com ele, construir um mundo.” (Maturana e Varela, 1995, p. 262).
MATURANA, H. R.; VARELA, F. A árvore do conhecimento: as bases biológicas do entendimento humano. Campinas: PSY II, 1995.
por Gustavo Gitti | 03/06/2004 11:56 |
A abordagem integral, na prática, me possibilita duas coisas no diálogo com as pessoas:
1. Dissociar o ser de sua visão, ou o ser de seu “nível” (meme) dominante — a discordância, de seres, passa a ser de níveis. A ajuda só é possível, como nos ensina o Budismo, se reconhecemos incessantemente a natureza livre dos seres. Ou mesmo no cristianismo, a confusão, a ignorância, o mal, é visto como ausência de Luz, ou como a face de Deus que se esqueceu de si mesmo. Se olharmos para os seres assim, fica fácil criticar a visão e possibilitar a morte naquele nível e um renascimento em um nível superior, mais abrangente e compassivo. A visão integral nos dá este tipo de confiança na natureza das coisas.
2. Criar uma maior liberdade ao transitar por várias visões, de modo a se comunicar mais diretamente com o mundo semântico de cada pessoa. Quando você começa a pensar integralmente, você vai entendendo os limites de cada visão e consegue ser mais
compassivo diante de visões menos abrangentes. Ao perceber que cada visão inferior evoluiu para uma superior, você pára de tentar acabar com as visões que você transcendeu e incluiu (“deixou para trás”) e naturalmente ajuda os seres envolvidos a levá-las até o fim. É estupidez matar um bebê simplesmente por ele não saber falar: dê-lhe comida e espere ;-)
Exemplo: ao abandonar a noção de Deus Criador, e abarcar tal visão, você consegue contribuir para a saúde de quem está apegado a esta noção. Você pode, por um momento, pensar deste jeito e atingir mais diretamente os seres. Você, tendo incluído uma visão, pode relativizá-la e mostrar suas limitações. Isto é tremendamente liberador e benéfico, especialmente no mundo em que vivemos, com tantas visões conflitantes.
A abordagem pode parecer nova, mas isso já vem sendo feito há tempos. Este lance de negar, transcender, incluir, e depois ficar livre para transitar é exatamente o que todos os sábios sempre fizeram. O próprio Ken Wilber reconhece isso.
A compaixão suprema somente surgirá quando você transcender todas as visões e ficar livre para entrar e brincar com cada uma delas.