por Gustavo Gitti | 13/02/2011 22:05 |
A bola passa entre as pernas do goleiro nos 45 minutos do segundo tempo da final da Copa do Mundo no Brasil. O pior frango que se pode tomar. Derrota suprema. Milhares de pessoas na arquibancada chorando por sua causa, xingando, vaiando. Centenas de milhões de pessoas em todo o país. Desoladas, decepcionadas. Humilhação completa.
Usar um exemplo caricato é uma das melhores formas de abrir a visão para lidarmos com traições, abandonos, rejeições, demissões, mortes, perdas, despejos, humilhações, fracassos em geral. Derrotas e vitórias só valem dentro dos limites de cada jogo onde surgem. Não são absolutas, não são grande coisa.
Por mais doloroso que seja um frango, ele tem seu limite na identidade do goleiro, ele só existe dentro dos referenciais e horizontes de sentido de um jogo específico. Além do jogo, além do goleiro, não há sofrimento algum.
Nós nunca somos, de fato, goleiros, maridos, designers, bateristas, mães… As vitórias das identidades que incorporamos nunca nos satisfazem. As derrotas nunca nos aniquilam por completo.
Se as únicas felicidades, alegrias e prazeres que conhecemos vêm de pequenas vitórias dentro de jogos, sempre tentamos vencê-los de novo, mesmo que isso signifique anos de derrota, muito sofrimento, desconforto, tristeza, dor. “Por que você continua aqui nesse estádio, se está sangrando e só perde?”. “Aqui eu vivi minha maior felicidade. Talvez eu vença de novo, basta eu não errar novamente onde errei. Da próxima vez vai dar certo”.
Em vez de descobrir outra fonte de alegria e felicidade, nos esforçamos para nos dar bem, apostamos todas as fichas na vitória, desejamos ganhar e evitamos a derrota ao máximo.
Melhor admitir logo de saída que vamos perder todos os jogos e que nenhuma vitória vai se sustentar ou nos satisfazer.
Nossos jogos são relacionamentos, trabalhos, projetos, locais. É desnecessário listá-los. Eles são os mundos nos quais achamos que somos alguém, nos quais encontramos sentido e andamos com um horizonte, nos quais fazemos planejamentos, temos metas, sonhos, nos quais queremos ser bem sucedidos, reconhecidos, elogiados…
Como viver dentro dos jogos de outro modo, além de sucesso e fracasso? Como repousar na liberdade que constrói todas as identidades que fomos, somos e seremos? Como cultivar uma mente e um corpo cuja estabilidade não dependa dos movimentos de cada jogo que encenamos? Como tomar um frango e sorrir, sem precisar se justificar, sem tentar consertar, apenas por perceber que a derrota não existe fora do estádio?
por Gustavo Gitti | 02/11/2007 10:45 |
“Nada passa, nunca; tudo o que acontece é indelével. Acrescento: sobretudo os amores, por mais que acabem, continuam vivendo, subterrâneos, dentro de nós, porque, bem ou mal, são essas as vivências que mais nos formaram e transformaram.”
“De qualquer forma, mais que a lembrança, os rastros do passado sempre assombram o presente e o futuro. Quando decretamos novos começos, ilusórios ou não, nem por isso conseguimos apagar nossa história: podemos apenas contá-la mais uma vez, quem sabe revisá-la ou corrigi-la, para pior ou para melhor.”
Contardo, ah o Contardo… Isso me lembrou de dois ensinamentos que já ouvi do Lama Samten: “todas as relações são eternas” (você não rompe uma relação, apenas a transforma) e “é possível alterar o passado” (ele é tão insubstancial quanto o futuro). Falei um pouco sobre isso aqui: “Como liberar o passado”.
por Gustavo Gitti | 05/07/2007 11:49 |
Momentos de depressão ou êxtase, quando você se dá bem ou se dá mal… É tudo como no sexo: em cima ou embaixo, você se fode de qualquer jeito.
por Gustavo Gitti | 15/03/2007 16:33 |
Todos os interessados, olhem bem e ouçam com atenção, se puderem, porque desconfio que já não terei vontade de repetir outras vezes: “Eu não sei!”. De fato. Não sei agora e não sei se soube qualquer coisa em algum outro momento. Além disso eu sinto, finalmente, que não saber pode ser uma boa coisa. A partir de agora, vejam, sou um Caeiro deitado ao comprido na erva, olhos fechados, apaixonado, silente e flamejante, sabedor feliz da verdade! Sou, agora mesmo (seja lá quando for isso!) um Piñera transformado em ilha, rosas nos olhos e areia no peito em perfeita e intocada paz, sussurrando baixinho, quase em silêncio, quase sorrindo, evanescente, logo antes de ser desfeito: “Era assim a verdade?!”.–Fábio Rodrigues
por Gustavo Gitti | 23/02/2007 17:41 |
O fato é que não sabemos nada. E mesmo a posição humilde do “só sei que nada sei” também não se sustenta. Ambas são puro orgulho ou carência – e qualquer desses venenos só surgem porque desejamos camuflar nossa cegueira básica. Como ensina David Loy, temos medo de perceber a ausência de um “eu” central e por isso nos esforçamos para ser e existir. O mesmo com nosso conhecimento e nossas certezas internas. Temos medo de reconhecer nossa ignorância suprema e então caímos em visões particulares (a “só sei que nada sei” é uma delas, aliás).
Nós nos equilibramos em certezas e incertezas. Oscilamos entre saber e não saber. Mas mesmo com certezas e saberes, o fato é que não sabemos nada. Não sabemos sequer o que sabemos: escovar os dentes, conversar, escrever, trabalhar, olhar, andar. Sabemos muito, sim, e justamente por sabermos cada coisa é que não sabemos nada. Analise cada crença interna e verá que são todas grandes e complicados equívocos. Somos bêbados batendo cabeças. Não chegaremos a lugar algum.
Eu tenho dificuldade até em respirar, que é a ação na qual eu deveria ter a maior experiência. Imagine andar, falar, me comunicar. Imagine então pensar, sentir, amar. Imagine então viver… Eu respiro apenas durante 1% do meu dia. Isso nos dias em que eu respiro. Na maioria deles, eu tensiono o corpo e sigo contraído o dia todo. Uma vez no mês respiro fundo e lembro: “Como é bom isso!”.
Como não conheço a satisfação de uma vida cheia de respiração, busco sorvetes caros, chocolates, seriados, filmes, checar emails, livros, músicas, mulheres, diversão. E como não sei sequer ter prazer com a respiração, consumo toneladas de doces, conversas, palavras, sons e nada sinto. Toda ignorância é uma forma de anestesia.
Por que mesmo eu checo meus emails mais de uma vez por minuto mesmo quando estou concentrado fazendo outras coisas? Por que mesmo eu limpo minha lixeira e caixa de spam mais de uma vez a cada dez minutos? Será que eu realmente acredito que algum dia chegará um email que mudará minha vida? Qual o fim desse ciclo de insatisfação?
Qualquer fala ou decisão radical em relação a isso é perda de tempo. Qualquer certeza, qualquer incerteza, qualquer posição é estéril. Só nos resta a escuta.
Silenciosamente prestamos atenção aos sons do mundo. Sem descansar, sem vacilar, olhamos tudo, ouvimos cada movimento. Não é possível aprender nada, pois aprender é tentar falar enquanto se ouve. Apenas nos abrimos para o caos do mundo, sem poder sequer afirmar certezas ou incertezas e, pior, sem poder sequer deixar de lançar afirmações.
E então escrevemos em blogs, silenciosamente, oferecendo nossa escuta – e não nossa fala – ao outro. Oferecemos a espacialidade da nossa boca calada. Oferecemos o que não temos. Nossa ausência é o melhor presente e é, na verdade, nossa verdadeira presença.
O fato é que não sabemos nada.
por Gustavo Gitti | 02/02/2007 20:05 |
O que você faria se encontrasse o responsável por todos os males, crimes, injustiças e catástrofes da humanidade?
A garrafa de whisky custava exatos 199 reais. Um dos meninos olhou, tateou e se afastou. O outro, irritado, meteu a mão, aproximou do limite da prateleira e deixou ali. “Vai, pega!”. Mas ele mesmo foi e pegou. Na fila do caixa, diante de todos, sem tentar esconder, ele colocou a garrafa embaixo da camiseta e andou lentamente para fora do supermercado. Pelo menos umas cinco pessoas viram tudo acontecer de perto e fingiram uma aparente ingenuidade. Quem se camuflava e se escondia ali eram os cidadãos da classe média e não os ladrões! Eles me pediram licença, eu hesitei, abri espaço e esperei os dois saírem para avisar um funcionário. Pensei que seria melhor eles se darem mal agora com um whisky do que futuramente com uma vida em mãos. Fui para casa lembrando dos olhos do menino que pegou a garrafa, assustado com qualquer pessoa ao redor, tomado pelo medo e pela certeza de que, sim, as coisas podem dar errado, bem errado, e que não há nenhuma justiça suprema nos protegendo.
Semana passada assisti ao genial Babel, fruto da mesma parceria (Alejandro González Iñárritu e Guillermo Arriaga) que gerou o igualmente excelente 21 Grams. Babel (no spoilers ahead, podem ler despreocupados) é ainda mais deserto e sem esperança do que seu antecessor. Um longo repouso na dor, uma meditação analítica sobre o sofrimento e sua insubstancialidade, sobre a culpa e sua inexistência. Ao contrário do que enfatizou a mídia, a força do filme não está em discutir culturas e barreiras ou a interdepedência dos tecidos humanos (tão bem explicitada por filmes como Crash, Magnolia ou pelo próprio 21 grams). É algo muito mais simples: nos comovemos ao perceber como as coisas, inevitavelmente, dão errado e como não há ninguém para culpar.
Em Magnolia, aliás, há uma cena emblemática: um dos personagens gasta todo seu dinheiro para colocar aparelho nos dentes e pouco tempo depois cai com a boca no chão, quebrando toda a arcada superior. Well, shit happens, e simplesmente não há nenhuma saída para isso. Para além do pessimismo (que esconde uma esperança das coisas darem certo), essa é uma perspectiva liberadora pois nos força a repousar na incerteza. Com ela em mente, é possível se livrar das características de filhos mimados que confiam em um pai e mãe superiores e encontrar uma saída que seja verdadeiramente autônoma e transcendental, além do domínio dos fenômenos, além do alcance da merda. É a base, por exemplo, da Acceptance and Commitment Therapy – ACT (lê-se como “ação” em inglês, não como sigla), desenvolvida por Steven Hayes, psicólogo e professor da Univerdade de Nevada. Para tal treinamento de liberdade, temos de enfrentar aquilo do qual fugimos e contemplar detalhadamente a face do mal.
O menino do mercado poderia ter se desesperado e matado uma mulher. Seu marido culparia o menino, a desigualdade social, a economia, os seguranças do mercado, Deus ou a si mesmo (por ter levado a esposa aquele dia para as compras)? O marido poderia matar o menino logo em seguida. Quem você culparia? Isso ocorre todos os dias e não é nenhum absurdo que seja assim. Babel mostra o que aconteceria se investigássemos cada crime, cada morte, cada injustiça, cada atrocidade e encontrássemos, enfim, o grande culpado por tudo. No filme, temos a chance de olhá-lo nos olhos.
Pois saibam que a fonte de toda negatividade, o centro do mal, o criminoso supremo que Hitler mal conseguiu imitar, é um menino marroquino que ri, se masturba, se apaixona e sente o vento de braços e poros abertos. E, antes que perguntem, não estou brincando, sendo irônico ou querendo dizer outra coisa. Isso não é uma metáfora. O centro do mal é um menino. É ele o responsável por todas as mortes, roubos, desastres, catástrofes, problemas, seqüestros, bombas e acidentes afins. O filme também nos oferece a oportunidade, inédita, de matá-lo. Nós com uma metralhadora e ele de braços para cima assumindo em voz alta todos os crimes já ocorridos em todos os tempos e espaços humanidade afora.
Infelizmente não conseguimos (podemos, mas não desejamos) matar o menino. Ele é por demais bom. Sua natureza não é má. Ao olhar a fragilidade e docilidade do menino, eis que algo que se torna óbvio: o centro do mal não existe. Não temos sequer um inimigo a combater senão nossa própria cegueira em ver inimigos em todo lugar! Voltando ao argumento da saída transcendental, agora é fácil entender que temos de parar de buscar um local seguro que não seja atingido pelo mal. Haverá mal onde houver cegueira: ele nos perseguirá até o topo da montanha encantada da felicidade.
A saída é encontrar o menino que incessantemente aponta para nossa natureza livre e luminosa, que desde sempre está além de qualquer negatividade, além de bem e mal, intocada pela merda. No mundo construído do “shit happens”, cada coisa nasce e morre, cada coisa sofre e se desespera, enquanto nossa verdadeira natureza assume e desconstrói todos os pecados, perdoa a si mesma logo de saída e sorri para cada desastre ao ver que todos ali estão livres das bombas, que seus verdadeiros corpos não nasceram e não serão destruídos. Somos, cada um de nós, o menino que se masturba e se apaixona. Quem, então, poderemos culpar?
“Sob o ponto de vista convencional, não negamos o bem e o mal, noção que consideramos verdadeira. Mas afirmamos que, sob o ponto de vista absoluto, sob uma visão última, não há um centro do mal. O que existe, sob o ponto de vista absoluto, é a compreensão de que a nossa natureza não pode ser afetada pelas circunstâncias que afetam nossas identidades e nosso corpo. Portanto, sob o ponto de vista da natureza última, não há nada que nos derrube, nos afete, nos destrua. Olhando em qualquer direção, não vamos localizar uma origem de mal, vamos ver apenas uma natureza ilimitada vitoriosa, que não pode ser atingida. É uma perspectiva muito importante, pois não vamos trabalhar com a noção de que há um centro do mal, ou que há um complô que deseja afundar o navio, ou que as pessoas querem a infelicidade ou querem justamente o sofrimento. Não vamos trabalhar com essa noção. Isso não é muito simples, pois esta noção de exclusão, de mal, está muito arraigada dentro de nós — a idéia de que precisamos de uma espada ou um revólver e assim tudo vai ficar melhor.” –Lama Padma Samten
* Texto publicado na revista de pensamento budista Bodisatva nº 15.
por Gustavo Gitti | 22/11/2006 18:49 |

“Me, well, I’m a man of faith. Do you really think all this… is an accident? That we, a group of strangers survived, many of us with just superficial injuries? Do you think we crashed on this place by coincidence, especially this place? We were brought here for a purpose, for a reason, all of us. Each one of us was brought here for a reason.”
“The island. The island brought us here. This is no ordinary place, you’ve seen that, I know you have. But the island chose you, too, Jack. It’s destiny.”
(Falas do personagem Locke, na série Lost)
Acabei de assistir novamente ao último episódio da segunda temporada da série Lost (não se preocupem: “no spoilers ahead”). É fascinante observar a relação de cada personagem com os mistérios da ilha. Ao se perguntarem sobre o significado de tudo, eles se mostram caricaturas perfeitas dos seres humanos. Cada um de nós acredita com todas as forças em algum roteiro, em algum sentido, em uma mitologia pessoal que nos conforta e encaixa todas as peças perdidas em nossa mente, todos os retalhos de nossa história. Nós não só acreditamos que algo de fato aconteceu, mas agimos defendendo tal crença (observe os personagens Locke e Eko diante do contador).
Uma das coisas que gosto nos teóricos do neodarwinismo, como Daniel Dennett, é essa total ausência de télos, de sentido último, de finalidade. Não há Deus, não há natureza humana, não há ponto de referência algum, segurança alguma, fundamento nenhum. Não há nenhum princípio eterno, nada transcendente. Estamos sós, estamos jogados no mundo, estamos lost. É quase um existencialismo com bases biológicas. É quase um Budismo, mas sem as terceira e quarta nobres verdades (sem 90% do Budismo) – ensinamentos que focam a liberdade por meio da percepção da luminosidade e vacuidade dos fenômenos.
Se você observar o tecido social se movimentando, verá que cada um está buscando fazer sua própria revolução, cada um tentando fazer sua história, obter sucesso, etc. Justificamos nossas ações com nosso télos pessoal (o sentido da vida imanente às nossas crenças). Queremos ser PhDs, ganhar muito dinheiro, ter muito tempo livre e ser respeitados e amados. Basicamente é esse nosso objetivo. Gastamos todas as nossas energias nesse processo. Nossas metas e os caminhos que nos levam até elas são definidos por nosso télos, nosso sentido último para a existência. Fazemos um grande e incessante esforço para negar nossa condição lost e construir castelos de areia em cima de nosso auto-engano. Sem querer, viramos prisioneiros de nosso próprio destino, fechados em nossa microrevolução, condenados a repetição de scripts pré-fabricados coerentes com o sentido da vida que acreditamos ser concreto.
O que poucos percebem é que se alguém for bem-sucedido nesse caminho, será apenas um entre trilhões de seres que conseguiram chegar até o fim de seus castelinhos de areia, até o último ornamento, até a última torre, antes da próxima onda derrubar tudo. Seres que continuaram insatisfeitos e morreram ainda se esforçando para não ver que seus castelos eram de areia. Nossos télos pessoais não nos levam a lugar algum e não contribuem em nada para aqueles que não compartilham dele. Se eles ainda nos fizessem felizes… Mas nós mesmos somos os principais prejudicados: “Quando eu comprar meu apartamento, aí sim as coisas vão melhorar e eu vou poder relaxar e curtir a vida”; “Quando acabar a semana de provas, ficarei mais aliviado”; “Quando eu arranjar um bom trabalho, aí sim!”. Eu já ouvi inúmeros “aí sim” e alguns “agora sim!” que não duraram mais de uma semana. Você já conheceu alguém que disse “agora sim!” e ficou, simplesmente ficou aliviado por meses seguidos?
Se pudéssemos analisar cada momento, detalhada e exaustivamente como um cientista, veríamos que nossa vida não tem sentido algum. Nossa revolução pessoal é completamente dispensável. Nessa postura sem saída, começamos a não mais colocar tanta energia em nossa busca por um sentido, tantas movimentações para conseguirmos nosso sucesso. Qual o sentido então para viver? Devemos todos nos suicidar? Essas duas perguntas mostram bem o quanto sentimos que precisamos de um sentido para viver, de um chão seguro para andar. O suicídio é também motivado por algum télos. Sem télos pessoal, sem frustração. Qual o sentido em se suicidar? O verdadeiro cético não se mata. Ele sorri.
E então, do existencialismo cortante, do neodarwinismo cru, da ausência de chão budista, pode naturalmente surgir uma disposição incessante. Como não estou tão focado em realizar meus sonhos samsáricos, posso olhar para fora e observar cada ser em seu trajeto rumo à felicidade, seguindo seu télos pessoal. Antes não tínhamos tempo nem energia para ajudar os outros. Agora temos tempo, energia, mãos e olhos — estamos finalmente disponíveis. Tal energia vem do alívio de superar o esforço, abandonar o constante auto-engano e simplesmente tocar a areia de nossos castelos e sentir as nuvens sob nossos pés. O que antes era chão definido, agora é nuvem que toma várias formas. O chão tinha a face de nossos medos e essa contração amedrontada era a base de nosso télos. As nuvens têm a forma de nossos sonhos. A ausência de chão nos libera para sonhar na medida em que nos desperta para a natureza onírica de nossa vida, para a textura deliciosa da areia de nossos castelos, para o frescor do mar que vem nos derrubar.
Aprendemos lentamente, como um bebê, a pronunciar: “O que eu posso oferecer?”. Imbricada em outras, aí sim nossa vida ganhará sentido — não apenas um, mas vários. Na ilha de Lost, vemos Locke agindo de acordo com sua crença em um fundamento e sempre buscando um sentido para sua vida, o significado real da ilha. O que aconteceria se ele acordasse para a ausência de fundação, para a inexistência de um significado último? Libertando-se de suas próprias memórias, de sua coerência interna que impulsionava suas ações, ele poderia se interessar pelas memórias dos outros, por suas histórias, coerências e ações. Para acordar e levantar, ele não mais precisaria pensar que a ilha é um milagre e que há um destino. Ele, como nós, não precisa de um chão para andar. Bastam nuvens para sonhar. E ele sonharia com sorrisos na face de todos os ilhados, não porque é esse o sentido último da ilha mas simplesmente porque esse é um bom sonho, uma imagem que o faz sorrir também. Locke não mais sairia em busca de seu destino, mas buscaria se inserir positivamente em cada destino sendo perseguido pelos seres ao seu redor. Em cada inserção, em cada conexão estabelecida, novos mundos surgiriam, novas formas das nuvens, novos sonhos sustentados coletivamente. Sua vida, enfim, seria enriquecida naturalmente, sem a necessidade alguma de sucesso, fama ou dinheiro. Na ilha de Lost é mais fácil entender que o sentido de uma vida surgirá sempre em sua conexão com outra.
Chegamos, então, a uma conclusão curiosa: o sentido da vida leva a uma vida sem sentido, e a ausência de sentido da vida leva a uma vida com sentido, uma existência significativa. Isto porque tal sentido transcendental, justamente por não ser sentido algum (vazio de significado, pura abertura), pode se expressar em uma rica multiplicidade de sentidos imanentes, mundanos, o que sacia até mesmo a nossa busca original!
Presos em uma jaula, sem ninguém lá fora, sem nenhum Deus, sem esperança alguma de descobrir o sentido de tudo, segurando apenas a certeza da morte, dois seres se beijam. Na ausência total de chão, nossa condição natural, eles não se matam, não se desesperam, não choram, não se deprimem: eles se beijam. Sem bondade cósmica, quando tudo explode em sangue e nada faz sentido, só nos resta a arte, só nos resta o amor, só nos resta nossa humanidade (não a inata, mas aquela que construímos a cada instante, diriam os existencialistas). Sem chão, restam nuvens sob nossos pés. Sem Deus, restam todos os outros, cada mundo, cada pessoa ao nosso redor. Sem roteiro último, os roteiros dos filmes ficam mais interessantes, mais reais — e o nosso próprio roteiro, em uma lógica inversa, mais interessante por se desvelar mais onírico. Os castelos continuam sendo de areia, mas agora não precisamos xingar as ondas. Podemos nós mesmos pisar em cada torre e sair andando pela praia. Continuamos ilhados, sempre, mas não há necessidade de resgate. Apenas ficamos e sorrimos. “Agora, sim!”…
* Publicado na revista de pensamento budista Bodisatva nº 17.