Lady in the Water: a magia do sonho coletivo

por Gustavo Gitti | 04/09/2006 1:42 | Comente!

A Dama na Água

“As pessoas estão presas, mas quando nós as vemos presas nós as aprisionamos, damos nascimento a elas como pessoas presas. Mas elas não estão presas! Elas pensam que estão presas e eu também penso que elas estão presas. Por isso, nós não permitimos que elas surjam livres.

Então o primeiro passo é vermos aqueles seres livres. Quando desenvolvemos essa visão, nós vemos a devastação do karma, porque nós, de modo geral, olhamos as outras pessoas e as aprisionamos com nossos olhares. Nós não permitimos lugares às pessoas, não damos nascimentos de liberdade para elas. Nós congelamos elas. Nós vemos a devastação do que significa dar nascimento inferior aos outros, e a devastação que isso causa para nós porque tentamos aprisionar o outro à nossa visão e ele anda, e aí temos sofrimentos no meio de tudo isso.

Nós vemos como é maravilhoso agora nós olharmos essas pessoas todas e agora nós vamos dar nascimento elevado para eles. Ou seja, eles podem, eles têm qualidades, todos eles têm a natureza de liberdade, eles podem fazer diferente do que estão fazendo. Nós começamos a pensar também assim. Não só vemos a paisagem, como na nossa mente começamos a raciocionar e podemos até dar sugestões, facilitar coisas, para aquele ser comece a se manifestar segundo essas qualidades que nós negávamos.

Então, quando nós damos esse nascimento sutil a partir de uma paisagem que inclua o outro de uma forma elevada, tudo se transforma.”

Lama Padma Samten

[No spoilers para quem ainda não assistiu, leia sem receios]

Uns adolescentes rindo na fileira de trás. Não sei se tiravam sarro do filme ou de mim, que chorava. Esse é o espírito de Lady in the Water, o novo do M. Night Shyamalan. Se você aceita ser criança e se está acostumado a viver mitos, o filme se desenvolve como uma obra-prima. Se vive factualmente como um adulto comum, não há envolvimento e as cenas mais significativas passam a ser as mais engraçadas, clichês patéticos, ridiculamente inverossímeis.

O roteiro do filme é baseado em uma história que o diretor contava para seus filhos. Virou livro. Assim como em seus outros filmes, o tema espiritual é bastante claro e pode ser interpretado tanto por um viés mais judaico-cristão quanto por um olhar budista. “Propósito”, “missão na Terra”, “destino”, diriam alguns cristãos ou alguns kardecistas. Mas prefiro pensar que o filme fala algo mais simples ainda: como um ser pode adentrar uma pequena comunidade e instalar ali a magia da liberdade e um espaço de acolhimento e de amor – aqui entendido como a capacidade de ver as qualidades positivas dos outros e desejar que elas aflorem.

Assim como Sinais não era sobre extraterrestres e A Vila não tinha nada a ver com isolamento social, A Dama na Água também não é uma história sobre ninfas e monstros. É um ensinamento para que possamos agir com liberdade de visão, reconhecer qualidades nos outros e trabalhar para que elas se desenvolvam.

Em vez de propósito pré-definido, os seres possuem apenas configurações cármicas (o simples fato de ser homem ou mulher é um deles). Curiosamente, é justamente desses condicionamentos, inicialmente aprisionantes, que nascerão os meios hábeis específicos para nossa atuação no mundo. Se hoje sou um esquizofrênico, quando curado terei muita habilidade para tratar loucos. Se hoje lidero com facilidade minha gangue de traficantes, amanhã poderei liderar um projeto pela paz. Ou seja, quando a lucidez passar por seu corpo e mente, haverá apenas um Buda como você — e o mundo precisa urgentemente de todas as nossas habilidades inundadas de sabedoria e compaixão.

Nosso propósito não está definido, já diziam os existencialistas. Temos de nos observar e perceber quais são nossas habilidades e como podemos servir a essa inteligência que faz as coisas funcionarem, a esse amor que faz as galáxias girarem e as abelhas polinizarem as flores. “O que eu tenho a oferecer?” parece ser a pergunta-chave para nos abrir ao mundo e para que o mundo se abra a nós. Quando direcionado com um olhar ao outro (“O que ele pode oferecer?”), é também a pergunta que o faz irradir o seu melhor, e cujas respostas o abrem para nós e para ele mesmo.

O percurso do filme deixa claro que nossas histórias não fazem sentido nelas mesmas e, principalmente, que nossas habilidades e identidades são inúteis dentro de nossa própria história! Nossos sonhos individuais são estéreis e fadados à decadência. Nossas histórias e nossas habilidades são parte de um sonho coletivo; temos apenas de trazê-lo à tona, encarnar o mito.

Vivemos uma vida com sentido na medida em que nos conectamos com os outros usando o melhor de nós e quando, com nossa simples presença, fazemos surgir o melhor de cada um. Nossas mãos são a sabedoria. Nossa pele, a compaixão.

Em uma das falas finais do filme, vemos que salvamos a vida do outro quando a acolhemos, percebendo o que ela pode vir a ser e ajudando o outro a nascer dentro desse novo sonho mais elevado, mais virtuoso. Podemos nos salvar uns aos outros, infiltrar magia por todo lado e nos entregarmos a novos mitos, como crianças brincando de faz-de-conta. A natureza onírica e insubstancial do real nos permite isso: que imaginemos, fantasiemos e criemos uns aos outros, como que em uma inverossímel fábula na qual todos desejam acreditar.

* Publicado na revista de pensamento budista Bodisatva nº 16.

Aniversário

por Gustavo Gitti | 24/07/2006 8:45 | Comente!

Cabeça esfregada no lençol. Você acorda e lembra que os outros disseram que é seu aniversário. Você quer acreditar mas não se recorda de ter nascido nesse dia ou em qualquer outro. E assim passa o dia: como qualquer outro. Você levanta, toma banho, vai trabalhar, se cansa. Volta para casa e enfia a cabeça, esfregando no lençol. Você quer só 5 minutos para você. Olhos fechados, ouvindo a própria respiração pela primeira vez no dia, se espreguiçando sem se mover. Segundos assim e sua namorada vem reclamar, dizer que está atrasado para o jantar, que 5 minutos é muito, que você tem de tomar banho, que assim não dá.

5 minutos é muito mesmo. Sua vida não é sua. Sua vida não é para você. Não é por acaso que não lembra de ter nascido. Você não quis nascer, quiseram por você. Você vive para os outros e é assim que tem de ser. O jantar, aliás, não envolve sua comida preferida e nem será naquele restaurante que você estava querendo tanto conhecer. O jantar é para sua família. Seu trabalho é para a empresa. Suas ações, para os outros.

Antes de levantar, você pede um carinho e começa a contar a única coisa do dia que não foi completamente esquecida. E quem quer saber do seu dia? Você está aqui para ouvir. Coloque-se em seu lugar. Triste seria se você conseguisse o que deseja, se vivesse para si mesmo, se você mesmo lembrasse de seu aniversário, se houvesse comemoração.

O único presente do dia é um bolo, feito à mão, total carinho. Não se preocupe, porém: você não vai comê-lo sozinho, o bolo seu é de todos. Começa uma depressão quando você percebe que ainda é uma pessoa que precisa de presentes. Só que os anos 70 do Aerosmith estão entrando ouvido adentro e quem mesmo precisa de presentes?

Cantam parabéns e você come o bolo. Você não sente o gosto e não vai conseguir se lembrar dele depois. Isso porque ele foi feito para você e não é assim que funciona. Na sua memória estão as coisas que fez pelos outros. No coração, vivem ainda somente as felicidades que presenciou nas faces diante de você. Aquela sua alegria, que não se refletiu em nenhum outro ser, é facilmente esquecida.

Volta do jantar e encontra o lençol marcado por sua cabeça. Você deita e esquece de você mesmo. Para além da depressão, não ter vida própria é liberação. Um dia você sequer deixará marcas no lençol ou rastros pelo chão. Sem precisar de aniversários, encontrará a alegria insuperável de preocupar-se só em fazer bolos para os outros – e só haverá outros. O sorriso derradeiro virá quando ninguém mais se lembrar de você. Você torce para que isso não demore. Como diz Borges, a meta é o esquecimento.

Jogos Mortais: Transcendência na carne

por Gustavo Gitti | 09/11/2005 8:55 | Comente!

Atenção: não há nenhum spoiler abaixo, portanto mesmo aqueles que não viram sequer o primeiro filme podem ler sem preocupação, ainda que sem entender as relações estabelecidas.

Quando eu vi o primeiro filme, imediatamente gostei da abordagem. Já vi outros filmes tratarem da morte em uma perspectiva ampla (Fearless, “Sem Medo de Viver”, é um bom exemplo), mas Jogos Mortais me atraiu por incorporar tal visão sem deixar de apresentar a morte com toda a sua crueldade, violência e muito, muito sangue, é claro.

As duas obras não são tratados sobre a morte e as infinitas formas de executá-la com perfeição e genialidade, mas uma introdução à vida e as incontáveis formas de vivê-la de forma lúcida, com destemor, os dois pés no chão e um olhar que não hesita. Eu não me esqueço do ensinamento de mestre Caeiro: sabedoria é um modo específico de andar com os dois pés.

Mestre também é o articulador dos jogos. Quem o vê como monstro insensível apenas deixa-se cegar pelo seu próprio medo. Atente para seu olhar fixo, sua postura imóvel e sua mente concentrada e compassiva. Se conseguir, tente assistir a Jogos Mortais sem medo, com o coração aberto; sem fixar-se na morte dos seres, mas observando cuidadosamente a destruição de seus obstáculos; sem evitar o sangue e as cenas nojentas, mas contemplando-as a fundo, no limite de cada gota, de cada corte, para compreender a gravidade da confusão humana. A sabedoria do filme é colocar a morte diante de nós. A regra do jogo é somente um ensinamento: transforme-se ou morra.

Saí hoje do cinema com um brilho no olhar. Ou melhor, tudo ao meu redor adquiriu um brilho diferente, uma luminosidade que raramente surge em minha realidade sensorial. Ela permanece e aproveito para escrever enquanto dura. Infelizmente, devido a nossa cegueira habitual, kármica, amanhã quando eu acordar as coisas estarão um pouco mais sólidas e a luminosidade aparecerá como formas concretas.

Enquanto essa abertura segue, porém, eu me vejo agora dentro do filme, dentro do jogo. Estamos, eu e você, no meio de uma sala, ouvindo instruções sóbrias de alguém especialista em meditar sobre a morte, com nossas vidas por um fio. Se isto fosse retórica, recurso poético, eu estaria feliz. No entanto, nós estamos de fato, para além de qualquer ficção, dentro de um jogo mortal (e talvez os cenários dos dois filmes sejam a melhor representação do processo samsárico já produzida pela humanidade!), dentro de uma grande sacanagem, uma irônica e perigosa “pegadinha” cósmica – mas nesse caso, para piorar ainda mais, não há criminoso, culpado, nenhum articulador fora do jogo.

A saída parece estar dentro de nosso olho, para que renunciemos às nossas fixações a objetos e paisagens exteriores, e também atrás de nossa cabeça, em nosso ponto cego, para que os outros possam olhar por nós e nos contar quem somos, para que possamos nos contemplar uns aos outros e adentrar o labirinto de espelhos do real, reconhecendo o outro como um sonhador que constrói conosco esses sonhos intricados, belos e sem saída.

Saída sem saída, pois Jogos Mortais é transcendência pela angústia existencial, espiritualidade virando a pele do avesso, sabedoria que surge quando retiramos e reviramos nossos globos oculares.

O caminho de uma lágrima

por Gustavo Gitti | 26/03/2005 1:37 | Comente!

Você já se olhou no espelho enquanto chorava? Já viu o caminho das lágrimas? Sua boca tremendo, aquela sensação de ter o coração maior que o corpo, águas saindo sei lá de onde…

O que é o choro? Contração da alma, pele virada do avesso, grito silencioso? De onde vem esta sensação? Você já se observou chorando? Há coisa mais bonita do que rir ao chorar? Rir de tão belo. Chorar de tão belo…

Nós temos de fazer carinho em nós mesmos. Somos otários, inúteis, nadas ambulantes, sozinhos, jogados, sem identidade. Somos uma legião de cegos, uns batendo nos outros, uns gritando com os outros. Existencialismo cru. Sem saída, sem esperanças, sem nem mesmo medo.

Cada mundo reserva um tipo de ser que surge neste mundo. Cada ser esconde um tipo de mundo que ele faz surgir. Para cada mundo, para cada ser, um sentido da vida, uma explicação, uma teoria, uma fundação, uma saída, um mito de beleza, amor e morte.

Para cada raio na eternidade, um olhar masculino, um corpo brilhante feminino: um encontro, um beijo e a morte. A morte eterniza os momentos e possibilita o amor.

Para cada corpo, uma interioridade. Para cada interior, uma paisagem exterior. Nada de absoluto, nada além das manifestações impermanentes. Samsara, all the way up, all the way down.

Viver é seguir o caminho de uma lágrima. Surgimos da beleza. Rubem Alves estava certo: como é triste a beleza! Quanto mais belo, mais triste. A felicidade é a tristeza suprema – surge quando o olhar está cansado, quase morto, quando nada mais resta além da tristeza.

Sem esperanças, deitados no chão, contemplamos a beleza da manifestação. Tudo tão triste. Tudo tão só. Tudo tão meaningless.

Olhe bem… Você consegue perceber que estamos todos deitados no chão? Você consegue sentir que estamos todos chorando ao ver a tristeza-beleza de cada manifestação, de cada mundo, de cada ser, de cada corpo, de cada fóton que surge espontaneamente sei lá de onde? Espontaneamente como uma lágrima.

Sim, Deus chora sem parar. Deus é o ser mais triste. E cada um de nós… caminhos de uma lágrima…