Compaixão

[Mensagem da Transconhecimento]

>>”Acredito que isto esteja relacionado com a questão da compaixão. Como podemos realmente ajudar? Que sentido há em dizer a alguém, que acredite estar sendo, real e concretamente, vítima do sofrimento, que “o sofrimento existe, mas não o sofredor”, ou “você não existe separado de sua experiência do sofrimento”?”<<

Vou comentar brevemente, concordando com suas idéias.

Esta é uma preocupação constante para mim. No meu primeiro contato com estas idéias liberadoras, saí contando para todo mundo e esperava ingenuamente que isso beneficiaria cada ser que ouvisse tais palavras.

Eu pensava estar fornecendo sabedoria mas estava apenas jogando palavras contra a confusão, jogando mais confusão na confusão. Você quer ajudar, e acaba deixando o outro sentindo culpa, raiva, arrependimento, etc.

Constantemente caio neste equívoco, mas começo a perceber que o que faz a diferença é a postura, a ação livre de qualquer perspectiva, pronta para adotar a perspectiva que se adequa aos obstáculos de cada ser. O que resolve mesmo é a ação livre de qualquer intenção ou identidade, a não-ação. Quando conseguimos nos desapegar de uma versão de nós mesmos, podemos então incorporar o personagem adequado a cada situação.

Às vezes é preciso dizer “Deus quis assim” para alguém. E por mais que isso não faça sentido para você, é aquilo que fará bem para a pessoa. Este seria um tipo de compaixão relativa. Paralelamente, é preciso também ter em mente que resolver problema a problema não tira o ser do ciclo de problemas. Aí entra a compaixão suprema, que é proporcionar a iluminação aos seres. Olhá-los fazendo surgir as suas qualidades iluminadas.

Então, quando alguém chega com um problema para mim, ou quando vejo confusão surgir nos seres, faço um pergunta silenciosa para eles: “vocês querem resolver e se livrar deste problema em específico ou querem se livrar de TODA a confusão?”.

Isso me força sempre a lembrar que preciso ajudar tanto o personagem atual, e ajudar a dissolver o problema em específico, quanto o ser multidimensional que ali está, colaborando para a dissolução de toda e qualquer confusão.

Num nível, é preciso trabalhar com habilidades relativas: dar comida, ensinar, fazer carinho, etc.

No outro, trabalhamos com a ajuda suprema: a sabedoria para estar livre em qualquer situação possível.

Ao tentar ajudar o outro da melhor forma possível, ajudamos a nós mesmos. Treinamos nossa mente. Às vezes alguém precisa de uma postura existencialista, às vezes alguém precisa que você seja frio, às vezes é preciso chorar, às vezes ser cético. Às vezes umas palavras espíritas diante da morte ajudam o ser a transcender esta mesma visão meses depois. E você acaba se tornando plástico, se desapegando de qualquer visão mais arraigada que considerava “a sua”. Veja como Wilber brilhantemente resume isso:

“Sabedoria é transcender as perspectivas,

compaixão é abraçá-las todas.”

Sabedoria é transcender a confusão.

Compaixão é mergulhar na merda do mundo.

Quanto mais alto você for, mais fundo você conseguirá mergulhar…

Portanto, se alguém sente raiva, podemos ajudar a melhorar aquela raiva em específico e ajudar a transcender toda e qualquer raiva.

Se partimos direto para o absoluto, o ser não ouve pois quer a ajuda imediata. Se só fazemos o relativo, isso é falta de compaixão, pois sabemos que virão outros problemas.

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23/05/2004 | diversos

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