Jogos Mortais: Transcendência na carne

por Gustavo Gitti | 09/11/2005 8:55 | 0 comentários

Atenção: não há nenhum spoiler abaixo, portanto mesmo aqueles que não viram sequer o primeiro filme podem ler sem preocupação, ainda que sem entender as relações estabelecidas.

Quando eu vi o primeiro filme, imediatamente gostei da abordagem. Já vi outros filmes tratarem da morte em uma perspectiva ampla (Fearless, “Sem Medo de Viver”, é um bom exemplo), mas Jogos Mortais me atraiu por incorporar tal visão sem deixar de apresentar a morte com toda a sua crueldade, violência e muito, muito sangue, é claro.

As duas obras não são tratados sobre a morte e as infinitas formas de executá-la com perfeição e genialidade, mas uma introdução à vida e as incontáveis formas de vivê-la de forma lúcida, com destemor, os dois pés no chão e um olhar que não hesita. Eu não me esqueço do ensinamento de mestre Caeiro: sabedoria é um modo específico de andar com os dois pés.

Mestre também é o articulador dos jogos. Quem o vê como monstro insensível apenas deixa-se cegar pelo seu próprio medo. Atente para seu olhar fixo, sua postura imóvel e sua mente concentrada e compassiva. Se conseguir, tente assistir a Jogos Mortais sem medo, com o coração aberto; sem fixar-se na morte dos seres, mas observando cuidadosamente a destruição de seus obstáculos; sem evitar o sangue e as cenas nojentas, mas contemplando-as a fundo, no limite de cada gota, de cada corte, para compreender a gravidade da confusão humana. A sabedoria do filme é colocar a morte diante de nós. A regra do jogo é somente um ensinamento: transforme-se ou morra.

Saí hoje do cinema com um brilho no olhar. Ou melhor, tudo ao meu redor adquiriu um brilho diferente, uma luminosidade que raramente surge em minha realidade sensorial. Ela permanece e aproveito para escrever enquanto dura. Infelizmente, devido a nossa cegueira habitual, kármica, amanhã quando eu acordar as coisas estarão um pouco mais sólidas e a luminosidade aparecerá como formas concretas.

Enquanto essa abertura segue, porém, eu me vejo agora dentro do filme, dentro do jogo. Estamos, eu e você, no meio de uma sala, ouvindo instruções sóbrias de alguém especialista em meditar sobre a morte, com nossas vidas por um fio. Se isto fosse retórica, recurso poético, eu estaria feliz. No entanto, nós estamos de fato, para além de qualquer ficção, dentro de um jogo mortal (e talvez os cenários dos dois filmes sejam a melhor representação do processo samsárico já produzida pela humanidade!), dentro de uma grande sacanagem, uma irônica e perigosa “pegadinha” cósmica – mas nesse caso, para piorar ainda mais, não há criminoso, culpado, nenhum articulador fora do jogo.

A saída parece estar dentro de nosso olho, para que renunciemos às nossas fixações a objetos e paisagens exteriores, e também atrás de nossa cabeça, em nosso ponto cego, para que os outros possam olhar por nós e nos contar quem somos, para que possamos nos contemplar uns aos outros e adentrar o labirinto de espelhos do real, reconhecendo o outro como um sonhador que constrói conosco esses sonhos intricados, belos e sem saída.

Saída sem saída, pois Jogos Mortais é transcendência pela angústia existencial, espiritualidade virando a pele do avesso, sabedoria que surge quando retiramos e reviramos nossos globos oculares.

0 comentários

  • Thicianne says:

    Post muito bem observado. O perfeito nos parece invisível aos olhos, só nos vendo frente a frente com o fim de tudo é que passamos a observar quão viva é a cor da vida, de respirar, de ouvir o coração batendo.
    Parabéns pelo post.

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