Mães, uns dos outros / Mãos, uns dos outros

por Gustavo Gitti | 29/05/2004 1:53 | 0 comentários

[Escrevi isto inspirado por minha namorada. Dedico estas palavras a ela.]

Há um terreno onde todos nós estamos fincados. Nunca conversamos ali, nem olhamos para lá. Mas ele está lá. E o que uma simples visão desse plano nos diz?

Que todos nós somos (não temos, somos) uma tensão entre duas forças: a de dentro que nos move para fora, e a de fora que nos move para dentro. Seria poético, matemático, musical, se não fosse verdade.

De um lado, somos todos frágeis, impotentes, fracos, tolos, imperfeitos, seres que precisam unicamente de uma coisa: amor, cuidado, afeto, olhar de mãe (não as mães de hoje, mas a Mãe, a Terra, arquetípica). Precisamos ser amados, precisamos que nos dêem respostas, certezas, e que legitimem nossa existência com um toque, um olhar.

No outro-mesmo lado, incorporamos a potência de toda a vida. Somos fortes, decididos, impetuosos. Sentimos incessantemente um impulso para fora, para doar, dar, proporcionar vida a toda a vida. Aqui não precisamos de amor: precisamos amar. Como o personagem do filme Magnólia, temos muito amor para dar. Queremos fornecer as respostas, irradiar certezas, tornar tudo real com nosso olhar. Sentimos o poder de a tudo animar com um simples toque. Somos a Mãe, e buscamos por filhos.

Seria fácil de entender e de viver essas duas forças (que não agem sobre nós, mas são nós, insisto), se elas fossem duas forças diferentes – se elas se alternassem, aparecessem raramente, e nunca se encontrassem. Mas elas são as duas faces de nossa alma. A primeira é a pele de nossa alma; a segunda, a mão. Ora, a mão não existe sem a pele, que não existe sem a mão… Já deu para entender, né?

Por um lado, o mundo nos toca. Pelo outro-mesmo, nós tocamos o mundo. Em nosso interior, o mundo toca a si mesmo. Em nosso exterior, nós nos tocamos a nós mesmos. Pelo mundo, eu me conheço. Por mim, o mundo se conhece.

Nossa face de mãe é a nossa face de filho, mas uma nunca se sobrepõe a outra, assim como o convexo não mata o côncavo, apenas o possibilita. Quando nos abrimos para o amor, amamos. Quando somos passivos, descobrimos a atividade. No toque da mão, somos mães. Na pele que toca, somos filhos. Em um mesmo instante, mães e filhos, uns dos outros, infinitamente.

O terreno, é muito arriscado encará-lo. Não podemos olhar para outro ser convidando-lhe a baixar a cabeça para tal reconhecimento. Não, porque se o fizermos, perceberemos juntos que nunca fomos seguros, que nunca tivemos certezas e que aquele que nos dava respostas, a nossa Mãe, o Outro que nos legitimava, também é filho.

Aquilo que nos dava bases sempre foi sem base alguma – ou melhor, recebia bases de um outro ser, também não-fundado. Toda mãe é filho de alguém. O ciclo de espelhos nunca começa nem acaba. Não há fundamento.

Então o que é o terreno?

O terreno é o lugar onde caímos quando nosssos olhos percebem a substância do Kosmos, a matéria com que tudo é feito, a argila primordial. O terreno proporciona uma segurança além de segurança e insegurança, além de certeza e incerteza. Quando nos jogamos ao abismo do Outro, quando entramos naquele “entre” que existe quando dois seres se tocam, o sonho se desmaterializa, e o vemos como ele é: um sonho, uma experiência de realidade.

Percebe a loucura que é viver? O milagre inexplicável que é estar aqui agora (eu escrevendo, você lendo, no mesmo agora atemporal)? Percebe? Seus olhos agüentam tal visão?

Sou queimado vivo toda vez que me lembro disso, toda vez que o mundo despenca diante de mim.

O livro de Pierre Lévy veio do nada, da origem mesma de tudo o que há. Abra-se:

“Somos céus atravessados por nuvens de energias vindas da profundidade dos tempos. Quanto mais acreditamos que somos alguém, mais somos ninguém. Quanto mais sabemos que não somos ninguém, mais somos alguém.”

O terreno, devemos puxar as pessoas a ele. Só isso. Lembrá-las de algo que elas sempre souberam. E mostrar que o que elas querem mesmo não é essa simulação de segurança, certeza e felicidade, mas a liberdade onírica de olhar o real.

Percebe agora a beleza (quase inimaginável, quase triste, quase extática, onde as palavras “sofrimento” e “felicidade” perdem o sentido) que é o momento presente? (Este, este mesmo, agora, agora e agora…)

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