Meu Hipercorpo II

Dias atrás eu estava em um ônibus, o motorista correndo bastante, e me veio um pensamento: neste momento, o motorista guarda minha vida. Ele é meu Deus, o criador e mantenedor, Brahma e Vishnu do espectro que se autoreflete e chama a si mesmo de “eu”. Eu devo minha vida a ele.

Sem nenhuma volição de minha parte, eu simplesmente comecei a agradecê-lo. E continuei: agradeço a rua, os caras que montaram este ônibus, o cara que o inventou, o que revisou, o cobrador, a cidade, etc.

Hoje este pensamento voltou a se intensificar: “puxa, por cada momento, cada sensação que passa por meu corpo, por cada experiência, cada instante que continuo vivo, eu devo isto tudo a bilhões, trilhões de seres que me mantém aqui”.

E prossegui: obrigado, bits, servidores, chips, provedores, conexões, por cada texto que já li nesta louca e mágica Internet. Obrigado UOL! Obrigado Yahoo! E, é claro, obrigado Google! Alguns poderiam me perguntar por que eu agradeceria o UOL, sendo que o UOL é apenas um fantasma que esconde um monte de pessoas e tecnologia. Poderiam afirmar que o UOL não existe… Ora, do mesmo modo, você e eu não existimos! Somos fantasmas que escondem conexões além de nós que formam dobras autoconscientes para viverem a si mesmas.

(Aquele texto que li ontem, antes de estar em um servidor qualquer, é parte de minha mente, e antes de ser eu mesmo, é um ser-idéia que vagueia por aí… Ao agradecer ao servidor, agradeço no fundo a este milagre das coisas existirem e serem como são.)

Agradeço a cada um que lê este texto, a cada tela do monitor, a LG, Samsung, aos trabalhadores alienados que nem tem Internet, ao tal do Bill Gates que bolou este sistema legalzinho, aos caras que compactaram o áudio até chegar no MP3…

E duvido, neste exato momento, que o mundo não está reverberando comigo. Duvido que alguns bits invisíveis, inexistentes, e um punhado de chips, não estejam respondendo “de nada, Gustavo”.

Eu duvido. Acredito que átomos são seres. E treino compaixão até por eles. O que seria de nós se o H decidisse nunca mais ficar enamorado do O. E se o O largasse seu narcisismo para ficar longe de seu parceiro sósia?

E se o Sol decidisse ir embora e parar de flertar com os planetinhas? (Pare de entrar em suas neurores mesquinhas e agradeça ao Sol. Você acaba qualquer briga se lembrar de sua própria morte. Sim, você vai morrer. Qualquer ato que não encarne tal sabedoria é medíocre e não faz juz à beleza do Sol. Você tem uma puta responsabilidade por estar vivo. Faça algo com isso. Não decepcione o Sol.)

Enfim. Naquele dia do ônibus vislumbrei a rede de contatos, a rede de compaixão, a malha de amor que une de átomos a galáxias, de amebas a homens, de mulheres a deusas.

Prostrei-me a este assombroso mistério. E tenho medo de pensar nisso até hoje.

O problema é que está ficando cada vez mais difícil ficar de olhos fechados. Cada vez que entreabro meus olhos e olho para baixo, perco-me… No lugar do chão, o abismo. No lugar de meus pés, o hipercorpo impessoal não-nascido, caleidoscópico, que se agita incessantemente e me faz apertar os olhos novamente.

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26/06/2004 | diversos

1 comentário

  1. Fábio says:

    Engraçado…
    Me parece que tbm já tive sensações desse tipo algumas vezes…
    E falo com vc: Assombroso! Assombroso! Assombroso!
    Mas, na minha “compaixão”, não tive a inclinação de agradecer. Me parece que as coisas estão [são!] aí, em seu devido lugar, nada há de errado, nada há que acontecer! Perfeito! Assombroso!

    [ No entanto, é útil saber que qnd chove o chão fica molhado... :-) ]

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