“Mas se apesar de banal
Chorar for inevitável
Sinta o gosto do sal do sal do sal”
(Itamar Assumpção e Alice Ruiz)
Ontem fui ver Milágimas, novo espetáculo do gênio Ivaldo Bertazzo. É um espetáculo totalmente diferente de Dança das Marés ou mesmo da obra-prima Samwaad, pela qual os jovens de olhos brilhantes foram pulando de Sesc em Sesc, saíram em turnê pelo Brasil e pararam na Holanda!
Samwaad ativava nossos corpos mais sutis, apontando caminhos de transcendência. O toque rápido da tabla indiana se mesclava à profundidade do surdo brasileiro, possibilitando coreografias quase esotéricas (como a da serpente da não-dualidade). A ênfase era no ritmo, tão presente na composição indiana quanto no samba, e a melodia era um adorno para a transcendência e a espiritualidade que se expressava nos ciclos de tempo. Samwaad, nesse sentido, nos inseria em uma experiência de sabedoria, pelo olhar sem hesitação, pela precisão rítmica das vocalizações e pela postura das mãos vindas do odissi.
Milágrimas sobe nos ombros de Samwaad, pois os jovens agora estão todos com corpos bem definidos, com máxima expressão e muito mais capacidades técnicas. O foco agora não é tanto a espiritualidade e o ritmo, mas o existencialismo e a melodia, a angústia do viver, do sofrer, do morrer: “se chorar for inevitável, sinta o gosto do sal”. O diálogo e o encontro continuam, agora pelas vozes africanas que chamam passos e palmas da “gumboot dance“. Os jovens se arriscam mais, entram em domínios mais densos (em contraposição à leveza de Samwaad), se tocam, se esbarram, se derrubam, se exploram mais.
Samwaad continua sendo uma obra-prima incomparável. Milágrimas, no entanto, foi o desdobramento natural do grupo: explorar a dança contemporânea, o corpo pós-moderno, tocar em nossos dilemas existenciais e tecer saídas (e entradas) possíveis.
No meio da lama, nasce o lótus. A cada mil lágrimas, um milagre. O negro que suou na escravidão renasce agora cantando forte, pisando fundo no chão e batendo nos pés e pernas, como que abandonando o passado. O sambista angustiado canta seu mantra e deixa aflorar um tipo de sabedoria popular, muito sofisticada. O sal tem gosto mesmo é de liberdade. O ensinamento agora é compaixão, e logo lá vou eu de novo receber mais uma dose!
…
Veja um vídeo gravado no show com a trilha sonoro do espetáculo, mostrando um trecho da coreografia (os jovens invadiram o palco e o líder dos Kholwa Brothers os liderou).
Info:
Temporada do espetáculo “Milágrimas” aberta ao público: De 25 de novembro de 2005 a 05 de março de 2006 (quinta a sábado, às 21h; domingo às 18h). Atenção: O espetáculo será temporariamente interrompido de 18 de dezembro até o dia 05 de janeiro.
Ingressos: R$ 20,00; R$ 10,00 (usuário matriculado, idosos e estudantes com carteirinha). R$ 7,50 (trabalhador no comércio e serviços matriculado e dependentes). Ingressos à venda pelo sistema INGRESSOSESC – na rede SESC (todas as Unidades do SESC)
Endereço do SESC Pinheiros: R. Paes Leme, 195. Pinheiros. São Paulo – SP. Telefone para informações: (11) 3095-9400 e 0800-11-8220.
Trabalho com espaços de transformação: