Eu gosto de mesclar a idéia de mundos consensuais de Maturana com a holarquia de visões de Wilber. Isso nos livra de: 1) interpretações relativistas (“no fundo, todas as visões são iguais” em vez de “todas as visões são igualmente válidas”), comuns no discurso pós-moderno devido à percepção da ausência de fundamento último no Kosmos; 2) interpretações equivocadas do modelo de Wilber (“um nível é melhor do que outro PORQUE KEN WILBER DIZ ASSIM” em vez de “um nível é melhor do que o outro porque o transcende e inclui”).
Ora, por que o mundo de Hitler é pior do que o mundo de Gandhi? Não, não podemos nem mesmo trazer à tona o sofrimento das pessoas, nem valores éticos, nem nada disso, pelo simples fato de que cada explicação desta é baseada em um suposto fundamento último.
Mas temos de provar que Hitler é melhor do que Gandhi, pois caso contrário isso seria puro relativismo cego. O que fazer então?
O casamento de Maturana com Wilber sugere a seguinte resposta:
A visão de A só é melhor do que a visão de B quando a visão de B, os fenômenos de seu mundo e, principalmente, o sujeito B estão inclusos (pertencem) ao mundo de A – i.e, são vistos, legitimados e explicados por A; e quando o contrário não acontece.
Se o fenômeno X é real e perfeitamente possível no seu mundo, e não o é no meu, o seu mundo é um pouco maior do que o meu. Se sua visão explica (abre possibilidade) para os fenômenos do meu mundo (você me legitima), mas minha visão não explica os fenômenos do seu mundo (eu não te legitimo, apenas o incluo em uma categoria qualquer comum a mim, como “louco!”), então sua visão é mais integral do que a minha.
(Explorando um pouco mais a idéia de “abrir possibilidades”: pelo argumento acima é fácil perceber que uma visão evolui na medida que ela se aproxima do solo causal de todas as visões, ou que um ser e seu mundo evoluem na medida em que se aproxima do solo causal de todos os seres e mundos. Isto é, quanto mais integral é uma visão, mais ela é pura abertura, mais ela deixa espaço para os infinitos modos de ser surgirem no seio do Kosmos. O modelo mais integral é aquele que é um modelo explicativo para o maior número de visões, fenômenos, seres e mundos. Por exemplo: eu consigo derivar a teoria de Maturana das obras de Wilber? Sim. Eu consigo derivar a teoria de Maturana das obras do Richard Dawkins? Não. Logo, neste quesito, Wilber é mais integral do que Dawkins. Isto não é só para debates acadêmicos. É uma questão de compaixão. Quanto mais eu abro, mais seres eu abraço. Eu consigo derivar a minha vida da sua visão, ou melhor eu existo completamente para você? Essa é a grande questão!)
Este é, penso eu, um modo inteligente de se pensar as relações entre os vários mundos dos sujeitos e suas visões sobre o Kosmos.
Agora, sim, a frase da Maturana faz sentido: devemos dialogar para abraçar o mundo do outro, expandindo nossa identidade e criando vários mundos compartilhados.
Trabalho com espaços de transformação: