"Não dois, não um"

por Gustavo Gitti | 20/05/2004 20:48 | 0 comentários

[Escrito para minha namorada, amante e amiga]

Esta imagem é, claro, de M. C. Escher. E a expressão “não dois, não um” vem dos ensinamentos sobre a não-dualidade, presentes em todas as tradições espirituais da humanidade. Os sábios dizem “não um” para nos lembrar de que a unidade não nega a multiplicidade, e que a natureza última do universo não é uma pasta uniforme sem nenhuma individualidade, sem dualidade, sem separação — conceito equivocado de “unidade”. E dizem “não dois” para que não pensemos que a dualidade exclua a unidade subjacente, para que não nos esqueçamos que a multiplicidade é sempre aparência, manifestação, tessitura onírica.

Somos encurralados e deixados sem base. Não podemos nos aconchegar na imagem de unidade, nem justificar nossa visão separatista na crença de que o universo é mesmo dual. “Não dois, não um”. Não é assim, nem é o oposto. Não é finito, nem é infinito. Não temos escolha. Temos de ir além dos opostos.

O relacionamento amoroso é um caminho radical, que nos leva à crua percepção da não-dualidade. Dois amantes não são um só ser: se fossem, nunca conseguiriam se amar, se tocar, esconder-se um do outro, interagir, brigar, abraçar. Dois amantes não são dois seres: se fossem, nunca conseguiriam se amar, se tocar, esconder-se um do outro, interagir, brigar, abraçar… ;-)

“No amor ocorre o paradoxo de dois seres se tornarem um, mas continuarem a ser dois.” (Erich Fromm)

Não há paradoxo. Pelo contrário: o fato de haver dois seres possibilita a unidade entre eles; o fato de eles serem “um” possibilita sua manifestação em “dois”. O fantástico é perceber a mesma estrutura, o mesmo processo atuando nos quatro cantos do Kosmos: eu/mundo; eu/outro; vida/morte. A não-dualidade vivida entre dois amantes é a mesma não-dualidade que a tudo permeia. Um namoro é o cenário ideal para se treinar a mente.

Na figura, ele é ele, ela é ela; mas ele é ela, e ela, ele. O corpo é um só, mas é dois. Nada existe, para que tudo possa existir. Incorporado isso, todas as metáforas, movimentos, traçados, sonhos, surgem daí.

Os corpos se interpenetram. O interior vira exterior, a pele desdobra-se do avesso, o profundo transborda superfície. O beijo faz com que os amantes se fundam não em um hiper-ser maior que eles, não em um terceiro ser, mas neles mesmos, no hiper-ser que cada um deles já é. Ele engloba ela, e ela engloba ele. A teoria dos conjuntos não explica. Um conjunto A não pode ser elemento do conjunto B e ao mesmo tempo abarcá-lo como um de seus próprios elementos. A anatomia não explica. A filosofia se demite. Amor se explica com amor. E explicação aqui é ação. Amor explicado é sempre amor vivido.

Ele está pleno dela. Ela está grávida dele. Os dois desejam o impossível: manter o “eu” e perder o “eu”, viver e morrer, ser e deixar de ser no outro, manter-se eu e transformar-se no outro. E nesse desejo descobrem que isso já acontece. Que é impossível, sim, causar esse estado: ele sempre esteve ali.

O amor é a tentativa de “possuir o que nos possui” (Morin). Ser o que nos é. Transformar o que nos transforma. Ele nasce dela, e ela nasce dele. Sou criado pela minha criatura. Loop imposssível, mas real.

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