Não há fatos

Definitivamente. Podemos procurar por todo o mundo, e não acharemos nenhum fato definido, nenhum momento sólido, nenhuma significação concreta. O que existe são seres (sempre sujeitos) que co-criam realidades. Se você está num colóquio sobre educação, mas você não participa da co-criação de tal realidade, você não está num colóquio sobre educação! Hoje eu fui fazer uma entrevista, mas eu não fui fazer uma entrevista. Níveis de realidade… Num mundo há entrevistas, trabalhos, dinheiros, interesses, poder; em outros mundos, não: há sonhos, percursos, mitos, epopéias, viagens, desejos, amores, abismos, alegria. Quanto mais podemos transitar entre os mundos, mais vivos e mais plásticos nos tornamos. Quanto mais posso abarcar, mais eu sou. Aumento minha essência aumentando minha existência. Quanto mais eu transcendo, mais eu mergulho. Quanto mais eu subo, mais eu posso descer.

Essa percepção implica em maior liberdade. Nunca podemos nos encurralar em um nível de realidade sendo que estamos em vários outros. Ficamos presos quando dizemos: “hoje eu fui numa entrevista e foi horrível”. Por outro lado, não devemos negar essa realidade relativa por meio de uma fantasia psicótica auto-confortante. Sim, fui mal na entrevista, mas esse é apenas um dos possíveis seres que eu posso manifestar, apenas um nível de realidade – não “o mundo”, mas “um mundo”; não “eu”, mas “um eu”.

Fatos existem apenas na alucinação daquele que não vê que a parede é feita de nuvem, que o real nada é senão um complexo e tortuoso sonho. A verdade mais fatual (dura como rocha) se aproxima mais do domínio sutil, inefável. Quanto mais real, mais onírico. A certeza absoluta não pode nunca ser enunciada. Nem mesmo esta. Nem esta. Enfim… Calemo-nos.

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01/06/2004 | budismo | escritos

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