Nescau

por Gustavo Gitti | 18/05/2004 10:22 | 0 comentários

Sempre tomo Nescau depois de comer um cereal em barra. Às vezes, o gosto do cereal é forte e distorce o sabor do Nescau. Fico fascinado: mudo minha língua e o Nescau muda totalmente. Aquilo que era bom é exatamente aquilo que agora é ruim. Mas há ainda uma grande sacada a se fazer: se o cereal consegue mudar a química de minha boca, isso significa que minha boca já tem uma certa química definida e que o Nescau é feito sob medida para essa química. Portanto, aquilo que eu chamo de “gostoso” não está nem no Nescau nem em minha boca. O sabor (assim como a cor, o cheiro, a textura) não pode ser encontrado no objeto, tampouco no sujeito. Ele surge, magicamente, da fecundação, do ato de amor que cria simplesmente o universo inteiro.

O tempo não passa; é uma ilusão. Lembrei do Lama Samten, de quando ele fala do “bom coração”. Estou percebendo que é isso mesmo. Visualizo um coração aquecido, um corpo flexível, uma mente plástica, uma abertura. A sabedoria vem daí. Tudo vem daí. Ando por entre as pessoas e naturalmente começo a penetrá-las. Quando me dou conta, noto que estou desidentificado de mim mesmo. Olho para mim e vejo que sou uma dessas pessoas. Olho para as pessoas e vejo que elas são eu. Ultrapasso as defesas, os comportamentos e vejo as peculiaridades, as singularidades. É tudo muito vasto, muito bonito, muito sofisticado, e claro. Límpido. Comecei a pensar nas pessoas que são próximas a mim, com quem tenho conexão não-presencial e indaguei quem são eles realmente e o que acontece quando eu penso neles. Como isso é possível? A resposta cada vez fica mais clara, e é impossível de ser dita. Fácil de apontar, mostrar, entretanto. A felicidade que vem com o conhecimento é inenarrável. Os sábios estavam certos: amor e sabedoria são uma e mesma coisa. A transcendência da sabedoria é o espírito que só pode se manifestar na imanência do corpo, na nervura, nas tranças extáticas do amor. Deus e o mundo. O mundo e Deus. No momento em que você chega a essa visão, imediatamente se esquece dela e encarna novamente seu lugar relativo. Quando você chega perto de Deus, é jogado de volta ao mundo. Quando torna-se ninguém, reafirma sua identidade… Enfim… O processo infinito, sabe?

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