Transcender o ego: é simples assim?

por Gustavo Gitti | 08/06/2007 14:24 | Comente!

Na lista Transconhecimento, surgiu a idéia de que a prática espiritual e a meditação se resumem em transcender o ego. Abaixo minha resposta:

O irônico é que saber disso tudo é (quase) inútil. Só não é totalmente inútil porque o *início* da visão *começa* a nos levar a *talvez* tentar *um dia* experimentar de fato a meditação. E o início da meditação começa a nos levar a talvez tentar um dia experimentar de fato a ação lúcida no mundo.

Esse início (ou tentativa) já basta para percebermos que a coisa não é bem assim. “Transcender o ego” é bonito, mas vago. Transcender o orgulho é mais específico, por exemplo. Juntar-se aos outros quando eles humilham você, eis uma instrução mais direta. E por aí vai…

Nossos venenos mentais, obstáculos e condicionamentos (apesar de não serem “nossos” propriamente) impedem uma vida livre, sábia, alegre e compassiva. O caminho não é só de um passo: “Transcend your ego, there is God: a 4-day workshop to complete enlightenment!”.

Esse “transcender o ego” não é sempre mesmo. Há pelo menos dois níveis para ele e mesmo o segundo não é final, é apenas a superação de algo mais sutil, longe da iluminação. Os dois níveis a que me refiro são bem exemplificados por duas citações:

“How does one transcend himself; how does he open himself to new possibility? By realizing the truth of his situation, by dispelling the lie of his character, by breaking his spirit out of its conditioned prison. The enemy, for Kierkegaard as for Freud, is the Oedipus complex. The child has built up strategies and techniques for keeping his self-esteem in the face of the terror of his situation. These techniques become an armor that holds the person prisoner. The very defenses that he needs in order to move about with self-confidence and self-esteem become his lifelong trap. In order to transcend himself he must break down that which he needs in order to live. Like Lear he must throw off all his “cultural lendings” and stand naked in the storm of life. Kierkegaard had no illusions about man’s urge to freedom. He knew how comfortable people were inside the prison of their character defenses. Like many prisoners they are comfortable in their limited and protected routines, and the idea of a parole into the wide world of chance, accident, and choice terrifies them.” –Ernest Becker, no excelente Denial of Death (aliás, leiam esse livro!).

“The main point of any spiritual practice is to step out of the bureaucracy of ego. This means stepping out of ego’s constant desire for a higher, more spiritual, more transcendental version of knowledge, religion, virtue, judgment, comfort, or whatever it is that the particular ego is seeking. One must step out of spiritual materialism.” –Chogyam Trungpa, no igualmente excelente Cutting Through Spiritual Materialism.

No primeiro nível, há uma liberação existencial das amarras sociais, daquilo que fizeram de nós. Esse grau de liberdade é maravilhoso, mas é só isso: um grau de liberdade. Nesse ponto ainda temos orgulho, raiva, etc.

No segundo nível, a pessoa já está praticando por um bom tempo, mas sempre sob o fundo do materialismo espiritual (tendência que Trungpa diagnosticou em seus alunos americanos hippies e hoje isso se aplica ainda mais). Transcender o ego é liberar a noção de esperança pela iluminação, de conforto e de um conhecimento supremo. Depois disso, há muita prática ainda. ;-)

Mesmo depois da iluminação, há a prática. Na verdade, ela é o começo da prática! Buda sentou por 6 anos de modo obstinado, mas sua verdadeira prática aconteceu quando ele levantou e passou décadas ensinando a liberação para as pessoas.

Para nós também. Sentar é bom, mas a prática autêntica está nas outras 23h de nosso dias. Eis um ótimo koan: quando se levanta, para onde você vai?

CEBB SP: site e práticas

por Gustavo Gitti | 08/06/2007 13:54 | Comente!

Terminei hoje o novo site do Centro de Estudo Budistas Bodisatva São Paulo, orientado pelo Lama Padma Samten. O site antigo já estava impossível de atualizar e bastante, well… antigo.

Dentre as práticas, as mais diferentes são a direcionada aos jovens (“Budismo com Atitude: um projeto com arte tudo“) e a sanga kids que vai começar em breve (“Meditando e Brincando“).

Vou retomar o prática do cinema dia 30/6, com o filme Minha Vida Sem Mim.

E para quem quiser um aprofundamento na meditação, todo domingo tem 3h de silêncio.

Humberto Maturana em Salvador

por Gustavo Gitti | 04/06/2007 20:46 | Comente!


“O evento visa ampliar na Bahia e nos outros Estados do Brasil o conhecimento, entendimento e ação em e a partir de um olhar biológico-cultural do humano abstraído pelo Dr. Humberto Maturana e a Dra. Ximena Dávila e realizado por eles e sua equipe de colaboradores no Instituto Matríztico do Santiago de Chile no tocante aos relacionamentos entre as pessoas, posto que somos todos seres vivos e seres humanos, seja no âmbito da clínica Psicológica e Terapêutica como também na lida com pequenos e grandes grupos constituídos na área pública e privada do país.”

Fico muito feliz em ver isso acontecendo! Aqui o site do evento.

Maturana é muito mais profundo do que algum dia poderemos imaginar. Ele é um gênio. Veja essa idéia por exemplo: “Os diferentes mundos relacionais, tanto externos como internos, conscientes e inconscientes, que os seres humanos vivemos, surgem no fluir de nosso viver no linguagear como diferentes âmbitos sensório-efetores nos quais se dá a conservação de nosso viver.”

Se eu estivesse na Bahia, já teria me inscrito.

Lei Rouanet para "Templos Religiosos"

por Gustavo Gitti | 29/05/2007 8:46 | Comente!

O Senado está a um passo de aprovar um projeto de lei, de autoria do senador Marcelo Crivella (PRB-RJ), sobrinho de Edir Macedo, fundador da Igreja Universal do Reino de Deus) que incluiria as igrejas entre as beneficiárias do Programa Nacional de Apoio à Cultura (Pronac). Vote contra aqui: Lei Rouanet para “Templos Religiosos” Petition.

Sobre o detalhe

por Gustavo Gitti | 22/05/2007 17:26 | Comente!

“Nós não percebemos que nunca de fato existiu uma história de amor. Olhe para suas relações passadas e tente lembrá-las com nitidez… O que há é o detalhe, somente ele, no limite do imperceptível, quase não existindo, antes mesmo do real – o detalhe. Ele nunca se mostra totalmente e não conseguimos apontá-lo ou delimitá-lo com certeza. Para os leitores de Borges, uma imagem: coloque dois detalhes lado a lado; se você começar a prestar atenção em um, nunca mais conseguirá olhar para o outro, sequer saberá qual deles você notou primeiro ou que eram originalmente dois.”

Mais aqui neste blog sobre relacionamentos.

Meditação vipassana em prisão indiana

por Gustavo Gitti | 14/05/2007 18:55 | Comente!


Li essa matéria na Folha e lembrei do retiro que fiz de Vipassana em 2002.

Tem um documentário muito interessante sobre isso chamado Doing Time, Doing Vipassana (disponível no eMule).

Esse tipo de Vipassana é ensinado exatamente da mesma forma em todos os centros de retiro do mundo, de acordo com os ensinamentos de S. N. Goenka. Aqui no Brasil o site oficial é esse: www.portuguese.dhamma.org.

Quando eu fiz, um monge beneditino dormia ao meu lado. Era cristão, mas adorava meditar. Era o quinto retiro dele! De fato, a técnica é ensinada de modo não-sectário e o próprio Goenka fala sobre isso:

“This can be practiced by one and all. Everyone faces the problem of suffering. it is a universal disease which requires a universal remedy–not a sectarian one. When one suffers from anger, it is not a Buddhist anger, Hindu anger, or Christian anger. Anger is anger. When one become agitated as a result of this anger, this agitation is not Christian, or Hindu, or Buddhist. The malady is universal. The remedy must also be universal.”

"Do lado esquerdo de quem sobe"

por Gustavo Gitti | 07/05/2007 21:29 | Comente!

Ano passado eu fui ver a Cia. de Dança Mimulus no Sesc Pinheiros. O espetáculo era sobre tango e se chamava “De Carne e Sonho” (música ao vivo com uma orquestra de tango). Ontem, no Sesc Vila Mariana, foi a vez de “Do lado esquerdo de quem sobe”, uma verdadeira obra-prima que mostra o melhor da arte brasileira. Fiquei muito feliz ao saber que este mesmo espetáculo será apresentando na França, no Maison de La Danse.

A Mimulus não reproduz as danças de salão e não faz dança contemporânea tampouco. Assim como Ivaldo Bertazzo e Denise Stoklos, Jomar Mesquita (líder do grupo) tece paralelos entre alegria e romantismo, movimenta os ânimos do público, brinca com nossas emoções e aponta para o transcendente – faz pura arte. Minha namorada já assistiu a muitos espetáculos de dança (de todos os tipos) e nunca havia chorado. Neste ela se dissolveu toda, especialmente na dança de Jomar com Juliana. Confesso que ali até eu considerei as lágrimas como uma consequência do que eu estava sentindo. ;-)

Não só a dança é boa (flertando com passos de samba de gafieira e um pouco menos com lindy hop), mas o espetáculo como um todo: a poética, a ludicidade, a originalidade. Há danças com cordas, teatro, humor, cenas de extrema sensibilidade. Cada coisa usada na medida certa, sem excessos. Tudo isso sustentado por uma das melhores trilhas que já ouvi, de Yamandu Costa e Thiago Espírito Santo. Simplesmente um show! Se fosse só a música, já teria valido a pena.

Em tempo: “mimulus” é também o nome de uma flor.