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Percursos, explorações, vidas

por Gustavo Gitti 29 May 2004 Sem comentários



O que fazer com esse presente que temos em mãos? Quando penso em todos os momentos que já aconteceram, as pessoas que já viveram, todos os atos, as palavras ditas, beijos, cenas, mortes, vidas…; quando penso em todas as possibilidades que já foram atualizadas, fico com a pergunta: e agora, o que fazer?

Por um lado, tudo já está sendo feito, com essa pergunta ou sem essa pergunta. Por outro, a pergunta faz parte do movimento e sua resposta é, também, parte do que eu estou fazendo no mundo. Fico tranqüilo com isso até perceber o quanto o universo já está cheio, carregado, sujo com tantas coisas juntas, e sem a menor ordenação aparente. Então, com a evolução da autoconsciência, veja só o trabalhão que essa ordenação está dando: o Kosmos travestido em biólogos, historiadores, filósofos, poetas, lixeiros, matemáticos, físicos, estudantes – todos tentando ordenar o caos, limpar a bagunça e dar sentido a todos os momentos passados, simplesmente tudo o que já foi vivido.

(Um ser que passou bilhões de anos sonambulando começa a acordar: “O que eu fiz nesse tempo todo?”. Ah, a ironia cósmica…).

Fico espantado com todos os seres que deixaram rastros pelo mundo: cantoras de jazz, bateristas, poetas (se quiser detalhar: os milhões de poetas leigos, os milhares de poetas brasileiros atuais, os clássicos, os que quase chegaram a publicar um livro, etc.), os engenheiros, os homens, as mulheres, amantes, crianças, bebês, velhos, mestres espirituais… Isso sem falar nos outros seres: macacos, cachorros, átomos, deuses. E agora, do nada, eu. Eu! Fazer o quê?

(”Por que eu sou eu e não outro?”, já perguntavam os sábios).

Bem, a parte mais fácil é mapear e dar um sentido a tudo isso. Montar um modelo, assim como faz um cientista, e explicar (não encaixar) grande parte da bagunça por ele. Isso já transforma o lixo em manifestação exuberante, a confusão em jogo da sabedoria, e a ignorância em esconde-esconde da inteligência. Depois olhamos o mundo e nos jogamos a ele. Aí começa o pesadelo, surgem palavras como as minhas, e alguns seres lendo-as todas. Na concretização da limpeza, quando botamos a mão na massa, a coisa complica, e ei-nos aqui.

Indo até o fim nesse pensamento… Não sou só eu. Somos muitos. E se eu estou aqui falando sobre isso, alguma coisa já está acontecendo. Em algum lugar, em algum ponto no mundo, há também um homem de visão, ou uma mulher de conhecimento, que está conectado comigo, inspirando-me a escrever isso.

Em algum lugar do mundo, um amante compreende a aventura assombrosa de encontrar alguém, no meio de bilhões de seres, que brilhe e que nos faça brilhar – a loucura que é aceitar esse encontro e se deixar levar. Tal amante me compreende. Sabe que tudo isso faz, sim, sentido e que nada mais sagrado do que compartilhá-lo (o sentido, e o tudo-isso) com alguém.

Em algum lugar do mundo, um amante sorri. Sorri comigo. Sorri para o mundo, que, como um espelho caleidoscópico, sorri de volta.



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