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Polirritmia

por Gustavo Gitti 15 June 2004 Sem comentários



Imagine duas paisagens presentes em um mesmo quadro. Elas não formam nenhuma terceira paisagem, nem tampouco podem ser vistas ao mesmo tempo. Tais estruturas são conhecidas: veja isto e isto, por exemplo.

Uma imagem como esta nunca pode ser vista de forma “holística”, pois para você perceber uma das imagem formadas você deve renunciar à percepção da outra. Elas são mutuamente excludentes. O absoluto nunca pode ser visto, apenas experimentando através de suas manifestações relativas.

Agora imagine esta mesma estrutura no plano sonoro. Uma melodia que é duas, três, quatro ao mesmo tempo. Nosso ouvido, assim como nosso olho, não consegue perceber duas ao mesmo tempo. Para perceber uma, deve renunciar às outras. É exatamente este o processo de criação dos seres e de tudo no Kosmos. É um processo delusivo, de dualidade, de divisão. Para eu experimentar a sensação de ser EU, devo renunciar a sensação de ser TUDO. E assim o Kosmos age incessantemente por liberdade. Quando não reconhecemos esse processo luminoso, surge a ignorância e ficamos presos e fixados a esta experiência unidimensional.

Mas há um outro modo de olhar para a polirritmia. Podemos, sim, desistir de compreendê-la com nossa mente e simplesmente nos jogarmos no chão, nos tornando a música. Isso é tremendamente liberador para músicos e não-músicos. Com experiências desse tipo, comecei a perceber que nosso corpo consegue “ver” duas imagens mutuamente exclusivas ao mesmo tempo. E tal experiência não se equivale a ver uma imagem absoluta ou duas imagens separadas. É “não dois, não um”. Experiência que revela a qualidade e a natureza de todas as coisas.

Muitos ritmos africanos e indianos nos permitem ter um vislumbre disso tudo. Percebi que os músicos mais espiritualizados costumam tocar sempre músicas polirrítmicas e com tempos diferentes (como 7, 11 e 13). Ótimos exemplos são as melodias da Mahavishnu Orchestra: 5, 7, 9, 13, 17, 19… As músicas do Glen Velez também são praticamente todas polirrítmicas.

Treinando esta percepção rítmica, sutil, você acaba mudando totalmente sua visão, seu corpo, sua postura. O mundo todo começa a girar diferente e os conceitos de unidade, não-dualidade, dualidade, se dissolvem diante de uma liberdade indizível.

Nesse vídeo eu aplico a polirritmia na bateria.

Mais sobre isso no meu blog sobre ritmo: www.takadime.com



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