Polirritmia
Imagine duas paisagens presentes em um mesmo quadro. Elas não formam nenhuma terceira paisagem, nem tampouco podem ser vistas ao mesmo tempo. Tais estruturas são conhecidas: veja isto e isto, por exemplo.
Uma imagem como esta nunca pode ser vista de forma “holística”, pois para você perceber uma das imagem formadas você deve renunciar à percepção da outra. Elas são mutuamente excludentes. O absoluto nunca pode ser visto, apenas experimentando através de suas manifestações relativas.
Agora imagine esta mesma estrutura no plano sonoro. Uma melodia que é duas, três, quatro ao mesmo tempo. Nosso ouvido, assim como nosso olho, não consegue perceber duas ao mesmo tempo. Para perceber uma, deve renunciar às outras. É exatamente este o processo de criação dos seres e de tudo no Kosmos. É um processo delusivo, de dualidade, de divisão. Para eu experimentar a sensação de ser EU, devo renunciar a sensação de ser TUDO. E assim o Kosmos age incessantemente por liberdade. Quando não reconhecemos esse processo luminoso, surge a ignorância e ficamos presos e fixados a esta experiência unidimensional.
Mas há um outro modo de olhar para a polirritmia. Podemos, sim, desistir de compreendê-la com nossa mente e simplesmente nos jogarmos no chão, nos tornando a música. Isso é tremendamente liberador para músicos e não-músicos. Com experiências desse tipo, comecei a perceber que nosso corpo consegue “ver” duas imagens mutuamente exclusivas ao mesmo tempo. E tal experiência não se equivale a ver uma imagem absoluta ou duas imagens separadas. É “não dois, não um”. Experiência que revela a qualidade e a natureza de todas as coisas.
Muitos ritmos africanos e indianos nos permitem ter um vislumbre disso tudo. Percebi que os músicos mais espiritualizados costumam tocar sempre músicas polirrítmicas e com tempos diferentes (como 7, 11 e 13). Ótimos exemplos são as melodias da Mahavishnu Orchestra: 5, 7, 9, 13, 17, 19… As músicas do Glen Velez também são praticamente todas polirrítmicas.
Treinando esta percepção rítmica, sutil, você acaba mudando totalmente sua visão, seu corpo, sua postura. O mundo todo começa a girar diferente e os conceitos de unidade, não-dualidade, dualidade, se dissolvem diante de uma liberdade indizível.
Nesse vídeo eu aplico a polirritmia na bateria.
Mais sobre isso no meu blog sobre ritmo: www.takadime.com







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