Reencarnação

Tanto Ken Wilber quanto as tradições de sabedoria enfatizam nossa natureza além de vida e morte. Por isso, Wilber dedicou tão pouco papel para o tema “reencarnação”. O foco de Wilber e o foco último da prática espiritual não é este.

Temos, em resumo, três níveis de ensinamentos que correspondem a três níveis de compreensão e implicam em três níveis de prática.

1. Se você consegue compreender a noção de não-nascido, melhor. Não perca tempo com teorias sobre reencarnação ou renascimento. Tais processos serão óbvios e naturais a partir da compreensão do não-nascido. Pratique para desvelar sua natureza além de tempo e espaço, além de vida e morte e aja no mundo de forma a trazer à tona esta mesma natureza não-nascida nos seres. Esta é a prática mais eficaz e corresponde aos níveis causal e não-dual, no modelo de Wilber. Como ensina os mestres budistas: “qual a sua face antes de seus pais nascerem?”.

2. Se “não-nascido” é um conceito que não faz sentido para você, não tem problema. Você pode reconhecer que as ações que você pratica nesta vida repercutirão karmicamente formando novos seres de acordo com as tendências e hábitos e modos de ser que você teve nesta vida. Agindo desta maneira, sua ética estará baseada no nível sutil (o que é realmente maravilhoso). Esta compreensão de renascimento corresponde ao nível sutil de Wilber, com a compreensão de vacuidade.

3. Se “renascimento” parece muito abstrato, você pode trabalhar com a idéia de “reencarnação”. Este seria o nível sutil sem a compreensão de vacuidade, pois tomamos os seres de forma sólida, como identidades fixas que seguem reencarnando. A ética é do nível sutil também, mas a não compreensão da vacuidade dificulta um pouco as ações benéficas, pois você terá um pouco mais de dificuldade em desvincular o ser de sua confusão, em ver a liberdade não-nascida em cada ser. Mas ainda assim, tal ética é bastante sofisticada pois reconhece uma continuação da experiência, da existência.

Se você puder praticar 1, melhor. Este é o foco desta lista, dos escritos de Wilber e dos ensinamentos mais importantes das grandes tradições. Se puder o 2, ótimo! Se puder o 3, maravilha!

Validando todas as práticas (princípio 1 de Wilber: não-exclusão), eu não discordo de ninguém quanto a este tema. Regressão, vidas passadas, projeção astral, tudo isto tem espaço em um Kosmos que nada nega, que é pleno de infinitas (quantidade) realidades infinitas (qualidade).

Validando todas as práticas, vislumbramos um modelo desenvolvimentista (princípio 2 de Wilber: desdobramento) que coloque as visões em perspectiva, em uma holarquia de mundos, teorias e práticas, das menos abrangentes, sábias e compassivas às mais abrangentes, sábias e compassivas.

Validando todas as práticas (p1), pensando dentro de um modelo integral desenvolvimentista (p2), percebemos como cada uma delas faz surgir um mundo tão real quanto o nosso (princípio 3: enaction, atuação). E, principalmente, percebemos cada vez mais que isto só é possível devido à natureza insubstancial, vasta, livre de caracteristicas, do Universo.

Sendo assim, sem nenhum atributo, não-definido, sem face, sem essência nem existência inerente (vacuidade), o Kosmos pode se tornar qualquer coisa, incorporar qualquer atributo, qualquer definição, qualquer face (luminosidade). Da união desses dois aspectos, vacuidade e luminosidade, surgem todos os seres, todos os mundos, todos os fenômenos, todas as realidades vivenciadas que, vistas por fora, são sonhos, mas vistas por dentro são experiência de realidade, reais, sólidas e concretas — daí o sofrimento dos seres.

Que todos aqui possam fazer este caminho de dentro para fora, da solidez à compreensão efetiva da vacuidade e luminosidade, e depois (em algumas tradições, durante o caminho) incessantemente ajudar os seres, não só relativamente — transformando pesadelos em bons sonhos — mas de forma absoluta: ajudando-os a acordar.

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18/10/2005 | budismo | escritos

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