A primeira coisa que dela ouvi foi: “corpo é vento condensado”. E pronto, ali soube que ela era uma das minhas. Sexta-feira, anos depois, li o seguinte trecho em pé numa livraria… Um dos mais lindos que já encontrei. É algo no estilo da Miranda July, nessa idéia de que o real inventado é o mais gostoso de todos. Como diria o poeta, o que seria de nós sem as coisas que não existem?
A Miranda e seu Me and You and Everyone We Know estão comigo até agora. Com dois livros da Viviane Mosé na mão (Desato e Toda Palavra), não resisti: comprei, mandei embrulhar para presente e no dia seguinte dei a uma estranha. Foi a melhor coisa que poderia fazer! Nunca senti alegria tão genuína, nunca vi um sorriso tão vermelho e surpreso! Tomara que ela esteja lendo agora e que um dia possa igualmente presentear um estranho…
“Como eu queria escrever a história de um homem sentado na janela de um trem de minas, de terno escuro de linho e óculos, olhando a menina moça que vende doce de leite em forminhas de empada. Ele olha pra ela e depois o foguista ganha uns peixes do rapaz que um dia vai enamorar dela e casar. O rio corre ao largo sempre ralo e barrento. O homem de terno escuro olha como eu gostaria de ter olhado, a estação e a menina, que nem percebe o rapaz que deu os peixes e mora na pensão. Marília talvez fosse o nome dela. Marília de vestido amarelo amaria na relva o rapaz, somente pra que eu pudesse compor o amarelo em marília, ou o amor dos dois na relva. Caso pudesse suportar. Caso não fosse eu essa represa de poros por onde tudo vaza aos pouquinhos. Escorreria entre as mãos da mãe de Marília em casa, ao redor das crianças menores e limpas, tão limpas como o paninho bordado que forra a bandeja de doces. E o rapaz dos peixes eu o faria filho mais velho de uma mulher miúda e forte. Eles se amariam. aquela mulher e seu filho mais velho. Quando ela morresse ele choraria enrolado no chão como uma cobra. E a ternura dos olhos da mãe fincando morada nos olhos dele. O homem de terno escuro me pergunta e agora? ele quer saber pra onde eu vou levar essa gente e eu digo que essa gente me leva.” (Viviane Mosé)
Trabalho com espaços de transformação:
Ah, não era eu a estranha :-)